A dualidade do fenômeno das panelas, de novo! | André Calixtre

André Bojikian Calixtre é Economista do IPEA

Por que as janelas dos apartamentos paulistanos voltaram a bater panelas? Termômetro da grande imprensa para a derrubada de governos, o descontentamento da região centro-oeste de São Paulo voltou novamente ao radar político. Essa região é uma boa representante da classe média brasileira, aqueles 20% da população total que não possuem capital mas, ao mesmo tempo, pensam como capitalistas. São os mesmos que bateram panelas contra Dilma, mandaram a presidenta tomar no cu em estádio de futebol, vestiram-se de verde e amarelo para lotar a Avenida Paulista nos domingos pelo impeachment sem crime de responsabilidade. Os mesmos que endossaram o cavalo de pau na democracia que estamos vivendo até hoje. Os mesmos que elegeram Bolsonaro, com apoio pontual, mas decisivo, da população trabalhadora.

Mas eles agora pedem “fora Bolsonaro” de suas janelas. O que aconteceu? Primeiro, a dimensão objetiva do descontentamento. Como tem mostrado as pesquisas sobre redes sociais, Bolsonaro errou feio na condução da crise do Coronavírus. Ignorou riscos, debochou da população em pânico e, pior ainda, convocou manifestações em defesa de seu nome em pleno surto da epidemia. Agora se vê obrigado a declarar calamidade pública e a encarar uma coletiva de imprensa com seu gabinete ministerial constrangido e contaminado pelo vírus, em máscaras mal colocadas ao rosto. Imperdoável. Mas há algo mais gritante nessa disposição em bater panelas.

Protesto contra a nomeação do ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil.
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

A classe média brasileira é um agrupamento social profundamente marcado pelo medo. Dada sua origem na ditadura, ela sempre procura justificar seu nascimento impuro em subterfúgios como: o moralismo público, essencialmente anti-político e anti-Estado; a meritocracia, que esconde a estrutura de privilégios; e a espontaneidade de sua ação civil, que nada mais é que o reflexo da ação dirigida dos poderosos, que ela não os conhece, mas acredita fazer parte deles. O tipo comum da classe média é o típico sujeito amedrontado: tem medo de transporte público, medo de escola pública, medo do SUS, medo de andar de carro, medo de assalto, medo de que sua filha frequente o mesmo ambiente que os filhos de trabalhadores, medo de ser governado por algum representante da classe trabalhadora. Enfim, os medos da classe média são todos resumidos a uma única paúra: a de ser pobre. O maior desgosto para um membro da classe média é ser um cidadão assalariado, sem meios relevantes de produção, cuja força não se define pela vontade individual, apenas pela ação coletiva.

E é por isso que a classe média voltou a bater panelas. A sombra do pauperismo ronda os apartamentos de varandas gourmet da capital, impossível de ser escondido pelo “home office”. Essas famílias estão financeiramente em apuros. São os principais aplicadores de pequeno porte na Bolsa de Valores, trocaram ostensivamente ativos da dívida pública para participarem da bolha financeira formada desde o Golpe de 2016. Uma bolha para tolos, sem dúvida, pois os papéis de empresas jamais poderiam sustentar rendimentos de um modelo econômico absurdamente concentrador e recessivo como o ultraliberalismo de Michel Temer e Jair Bolsonaro. A bolha desinflou mais de 40% em uma semana e com isso foram-se as poupanças dos profissionais liberais, engenheiros, arquitetos, executivos, pequenos empresários e aposentados da classe média. O efeito contágio da crise do coronavírus abaterá primeiramente os pequenos e médios negócios, criando uma armadilha financeira e produtiva ao modo de vida do centro-oeste paulistano. A classe trabalhadora sofre por outros meios, indiretos à Bolsa, mas a percepção da classe média é de pânico real e imediato. Os economistas liberais, no desespero ante a (próxima) debacle do prédio da ortodoxia econômica, dividiram-se em dois grupos: os taumaturgos e os cínicos. Os primeiros negam a realidade e afirmam que a única saída para a crise é aprofundar o modelo de entrega nacional; os segundos convertem-se a um keynesianismo de ocasião na esperança de não serem responsabilizados pela terra arrasada que criaram.

Os economistas liberais, no poder desde 2015, entregaram um Brasil precário, inseguro e terceirizado para a classe média, que comprou a promessa das reformas (trabalhista, previdenciária…) pelo seu valor de mercado. É impressionante o grau de “pejotização” que atinge as altas rendas no mercado de trabalho brasileiro. No limite, o vetor da crise aponta para aniquilação da classe média, o que nada mais é do que a sua recondução à classe trabalhadora. Medo, paúra de ser pobre…panelas vazias. Tudo isso soa pior que a própria morte. Bolsonaro vai se conformando na figura de demiurgo do caos, implodindo todas as bases racionais do Estado até o limite do desaparecimento da máquina pública. E sabemos que uma sociedade capitalista não existe sem o Estado, tampouco uma classe média (e aqui estaria o segredo que pode libertar nossos coxinhas da prisão liberal!).

E agora, na fase inicial de confinamento que a população deverá passar nos próximos 40 a 60 dias, as classes com o mínimo de organização se juntam nas suas janelas para um panelaço coletivo, sepultando o demiurgo do caos. É o medo que uniu as classes no Brasil da crise, cada uma a seu modo. Um medo de seguir adiante um projeto popular, um medo que se transformou em ameaça à democracia; e agora vemos o abismo diante de todos. Mas não se iludam com o apoio circunstancial da classe média. Tudo que ela precisa é se sentir diferenciada, e ela é capaz de qualquer coisa para garantir isso, inclusive destruir uma nação inteira para garantir o papel higiênico em seus banheiros e o álcool gel sobre suas mesas.

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