A “fé que cura” também mata | Amanda Mendonça

Amanda Mendonça é Doutora em Educação, pesquisadora do Observatório da Laicidade na Educação e Profa. da Universidade Estácio de Sá,

O mundo todo está abalado com a pandemia do Coronavírus que se alastra como pólvora, atingindo todos os continentes e culturas sem distinção. Cenário de guerra e imagens chocantes da devastação causada pelo vírus circulam todos os dias. Sabe-se pouco ainda sobre o vírus, mas das poucas certezas que temos o consenso entre diferentes organizações ligadas à saúde, cientistas de diversos países, especialistas e médicos é que o chamado isolamento social é, por enquanto, nosso maior remédio. Ele salva vidas.

Diante disso, os diferentes governos vem empreendendo esforços, em maior ou menor escola, para garantir este isolamento. Fronteiras estão sendo fechadas, quarentena em diversos países, escolas, universidades, comércio e locais públicos também estão sendo fechados. Uma enorme campanha percorre o mundo pedindo a colaboração de todos e todas, pedindo que fiquemos em casa. Mais uma vez: essa é a única informação que é consensual. Medidas econômicas, políticas sociais e de relações exteriores são debatidas, há projetos distintos para cada área. Mas todos dependem desse isolamento social, que obviamente causa impactos sem precedentes para os países e para a vida das pessoas.

Entretanto, na contramão da única medida que nos protege, defendida por todo campo biomédico e científico, estamos assistindo inúmeras igrejas incentivarem seus fiéis e seguidores a burlarem o isolamento. Na França é sabido que um encontro religioso acelerou as contaminações. Segundo autoridades sanitárias um evento evangélico no leste da França, que durou uma semana no mês fevereiro, contribuiu para disseminar o coronavírus em todo o país (https://www.bbc.com/portuguese/geral-51858296). Em uma cidade sul-coreana dezenas de pessoas contraíram o coronavírus no que foi descrito pelas autoridades como um “evento de supercontágio” em uma igreja (https://www.terra.com.br/noticias/mundo/cidade-sul-coreana-fica-deserta-depois-de-supercontagio-de-coronavirus-em-igreja,d0262ebbede1a0e717e88fda488a8801lzkb4xoc.html).

E no Brasil? País que segundo o último censo apresenta 86,8% da população se declarando cristã e que estabelece uma relação intrínseca entre Estado e religião. Como as diferentes instituições religiosas, que tem tanto poder e influência em nossa sociedade tem se comportado diante desta pandemia?

“Coronavírus é Inofensivo, Coisa de Satanás” – Edir Macedo (https://www.youtube.com/watch?v=q4VIuGcNw64)

“…mas, o pior de tudo é que a maioria das pessoas não sabe que a maior praga não é a coronavírus, é a coronadúvida e para você enfrentar o coronavírus, que é a coronadúvida, você que está ileso do coronavírus, você tem que estar com o antídoto que é chamado de coronafé” – Edir Macedo (https://apublica.org/2020/03/megaigrejas-continuam-abertas-e-dizem-que-fe-cura-coronavirus/)

“Igreja é um hospital emocional, a coisa mais importante para o ânimo é a fé. Não sou médico do corpo. Sou médico do psique” – Silas Malafaia (https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/malafaia-usa-cultos-para-criticar-restricoes-por-coronavirus-igreja-um-hospital-emocional-24316674; https://veja.abril.com.br/saude/coronavirus-silas-malafaia-culto-evangelico/)

“Confie em Deus”: conselhos de pastor contra coronavírus – Pastor Antônio Júnior, da Igreja Batista da Lagoinha, em vídeo que superou a casa de 6,2 milhões de visualizações no Facebook. (https://noticias.gospelmais.com.br/mais-popular-brasil-conselhos-pastor-coronavirus-131335.html)

“Quem tem fé em Deus tá protegido” – funcionária da Mundial do Poder de Deus (https://apublica.org/2020/03/megaigrejas-continuam-abertas-e-dizem-que-fe-cura-coronavirus/)

Isso aí é só a proteção de Deus. Vamos colocar assim, a senhora tem que trabalhar com dinheiro, se a senhora pegar uma nota, se a senhora não tiver a proteção de Deus, até com aquela cédula o vírus entra. Então, tem que ter a proteção de Deus, a senhora vai entrar, vai colocar a mão no corrimão, então tem que crer em Deus” – pastor Ronaldo / Catedral Mundial da Fé. (https://apublica.org/2020/03/megaigrejas-continuam-abertas-e-dizem-que-fe-cura-coronavirus/)

“Não é para o povo de Deus ficar com medo desse vírus que tá vindo por aí chamado coronavírus” e que “ele é a coroa do diabo mas nós temos a coroa de Jesus sobre nós” – Missionário RR Soares. (https://apublica.org/2020/03/megaigrejas-continuam-abertas-e-dizem-que-fe-cura-coronavirus/)

As falas acima ilustram o comportamento irresponsável e criminoso dessas instituições, que tem mantido seus templos abertos, recebendo milhares de pessoas por culto. Algumas denominações estão, inclusive, desenvolvendo plantão para atender “os aflitos” com a pandemia. A Agência Pública, agência de jornalismo investigativo e independente, entrou em contato com diversas Igrejas de diferentes denominações e apurou que a maioria apesar de recomendaram aos fiéis que assistam os cultos online seguem de portas abertas. Na maior partes delas foi informado que a higiene está reforçada, mas que os cultos seguem ocorrendo normalmente.

A Igreja Universal, comandada por Edir Macedo, chegou a lançar um comunicado oficial intitulado: “A Universal e o coronavírus, onde afirma que não vai suspender os cultos e que irá abrir os templos para oração ao longo de todo o dia com pastores de plantão. A Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, por exemplo, emitiu nota falando da importância de manter os templos abertos para enfrentar o que chamou de pandemia maligna”. Estamos falando de instituições que contam com milhares de templos espalhados pelo país e cujas sedes têm capacidade para 10 mil pessoas, 15 mil pessoas, para milhares.

Mas e as reiteradas recomendações dos órgãos de saúde para que se evite contato social e aglomerações para não disseminar o coronavírus? Qual a posição do Estado brasileiro e do poder público diante destes discursos e ações que colocam a vida de todos e todas em risco? A resposta é simples. As igrejas têm passado imunes às recomendações dos governos estaduais e do Ministério da Saúde para suspender eventos com grande aglomeração de pessoas. As autoridades estão se esquivando de determinar o fechamento das igrejas, apesar do grande potencial de propagação da doença que elas têm.

O comportamento do poder público brasileiro, se omitindo diante destes Igrejas, também é criminoso, mas não surpreendente. Há muito que a imbricação entre religião e Estado está cada vez mais forte no Brasil. Diferentes instituições religiosas interferem cotidianamente em nossos órgãos legislativos e de maneira muito evidente orientam o executivo federal. Nossas políticas públicas, que deveriam ser para todos e todas, são direcionadas a partir da fé e da convicção de alguns. Porque seria diferente neste momento? Não seria. Estes grupos, agentes religiosos e suas instituições colocam a prova nossas vidas para manterem seus projetos de poder. Diante de um cenário complexo, de muitas redefinições em curso, da oportunidade de repensarmos modos de vida, de produção, de relação com os outros e com o planeta, de demonstrações de solidariedade que nos fazem ter esperança no ser humano, de luta política acirrada por um outro mundo pós pandemia, o Brasil também a chance de rever a relação histórica do nosso Estado com as religiões. Que este momento descortine os barões e coronéis da fé e seus projetos e dê novo lugar as expressões religiosas de nosso povo. Que nossas políticas públicas, nossas leis e nossas ações governamentais respeitem e reconheçam a ciência, as pesquisas e os diferentes campos de estudos. Que sejam para todos e todas, crentes e não crentes. Medidas necessárias nesse momento para nossa saúde, para nossa sobrevivência, mas para o nosso futuro. Um futuro democrático.

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