A negação da pandemia e da educação: “é uma histeria coletiva” | Adércia Bezerra Hostin dos Santos

Adércia Bezerra Hostin dos Santos é pedagoga, mestranda em Sociologia e Ciências Políticas na UFSC, Presidenta do Sinpro-Itajaí, Diretora da Contee e dirigente do FNPE

“O rei mandou dizer…”
ou o “rei está nu?”

“Porque fechar as escolas?”, indagou o presidente Jair Messias Bolsonaro em pronunciamento em rede nacional, no dia 24 de março, para cerca de 210 milhões de brasileiros. Certamente, muitos assistiram ao descomprometimento do chefe da nação com os riscos da pandemia, acompanhado de uma fala sem entonação, sem uma dicção audível e desconectada com os fatos. Como se não bastasse, Bolsonaro ainda exibia uma sordidez vaidosa e operante aos moldes que foi eleito. Não foi diferente do pronunciamento do dia 28 de março, também em rede nacional, na qual alguns consideraram que a fala do presidente foi mansa, mas não menos perversa para quem neste momento compreende a gravidade da pandemia. Ou não entenderia? Seria Bolsonaro um analfabeto funcional?

Em um cenário de polarização, enquanto alguns provavelmente assistiam estarrecidos a suas colocações, outros permaneciam em hipnose coletiva diante de falas perigosas, às vezes acusatórias, como afirmar que a imprensa está promovendo uma histeria coletiva.

Bolsonaro fez um discurso de campanha, na mesma estética, bem observada pelo psicanalista Christian Dunker, de uma suposta improvisação que revelaria, aos olhos de outros, uma certa verdade. O presidente que age como “um pessoa que fala como qualquer um, que podia estar sentado com a gente no jantar de domingo, ou no boteco da esquina, ele aparece como autêntico […], ele pode agredir os outros, diminuir os outros, ele não está fazendo teatro, ele está dizendo a verdade. Essa ideia de uma comunicação direta não mediada pelas instâncias institucionais, legais, discursivas. Bolsonaro quando contrariado, quando alguém age como ele não gosta, ele não responde à pergunta ou se responsabiliza pelo ato, ele ataca quem fez a pergunta, ele ataca os seus inimigos preferenciais”   .

Dessa vez, parece que uma parte desses inimigos declarados, para além da esquerda, são os idosos, muitos mantidos pela Previdência Social, os quais custam caro, na lógica do neoliberalismo, ao Estado, já que não foram afetados pela reforma previdenciária e, provavelmente, também não cairão na rede das previdências privadas. Em outra ponta, é fato que uma parcela significativa da população irá morrer trabalhando, sem se tornar um ônus financeiro ao Estado, não precisando de uma pandemia para isso.

Bolsonaro, ao desrespeitar as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), do próprio Ministério da Saúde e ao chamar de “gripezinha” a pandemia de Covid-19 que parou o mundo, colocou-se contra as medidas de distanciamento social que salvam vidas e evitam colapso do sistema de saúde, incitando a população do país a ir ao encontro da morte. Sem provas ou dados, afirmou que o Covid-19 “brevemente passará” e novamente culpou a imprensa — da qual grande parte o colocou no poder — por um surto de grande perversidade, desqualificando a ação conjunta e as medidas protetivas para salvar nações. Seu discurso, nas entrelinhas, expressava o ódio pelas minorias, aquelas que até hoje têm sido veemente atacadas pela restrição e pelos cortes nos orçamentos destinados ao desenvolvimento efetivo das políticas públicas e sociais, como o caso da Emenda Constitucional 95, que estabeleceu um teto para os gastos públicos e inviabilizou, para 20 anos, investimentos nas áreas da saúde, da educação, da cultura e  da segurança.

No auge do seu pronunciamento, questionou o fechamento das escolas, incitou as pessoas a retomarem à normalidade e, aos moldes do presidente dos EUA, Donald Trump, falou da cloroquina como possível cura, dando mais um exemplo de seu despreparo, ignorância e arrogância, no que se conjuga em um complexo de “vira-latas”. Pior ainda é o desserviço em âmbito mundial, contestando e minimizando  todas as autoridades médicas, inclusive, nominalmente, o renomado médico oncologista Dráuzio Varella.

O discurso terminou com uma aclamação ao único ser que Bolsonaro pressupõe ser invisível o suficiente para não fazer sombra a “Sua Majestade” e que, daqui a poucos dias, talvez se torne o suposto responsável por todos os encaminhamentos equivocados do senhor presidente. Ainda assim o povo  irá temer  “as  mãos de Deus” e será forçado a engolir a retórica “assim ele quis para o bem da humanidade!”.

Já no dia 2 de abril, Bolsonaro afirmou em entrevista à rádio Jovem Pan que, numa canetada, pode autorizar o retorno às atividades dos comerciantes que, segundo ele “levaram uma paulada no meio da testa com as medidas tomadas por alguns governadores”. Ameaçou ainda: “Eu tenho um decreto pronto para ser assinado […]”. Na mesma entrevista, ainda ressaltou que “a gente vai junto com pastores e religiosos anunciar para pedir um dia de jejum ao povo brasileiro em nome de que o Brasil fique livre desse mal o mais rápido possível”.

Bolsonaro se autodeclara superior

Em um gesto de reivindicar para si um reconhecimento que não é dado pelo outro, Bolsonaro se autodeclara maior e melhor do que representantes de outros países. E questiona se esses governantes compreendem o que realmente significa a pandemia, insinuando que estão agindo pelo impulso de uma histeria coletiva. Pasmem: para o presidente brasileiro, até o Papa Francisco está equivocado.

Não satisfeito apenas com seu desacordo em relação às grandes lideranças internacionais, o presidente ainda quis desautorizar governadores e prefeitos de cumprir seu papel de proteção social. Ao contrário, sequer acatou a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, que autoriza os estados a decidir de forma autônoma sobre restrições relacionadas ao trânsito de pessoas e acesso a serviços. Mello julgou parcialmente procedente o pedido feito pelo PDT em relação à Medida Provisória (MP) 926, assinada no dia 20 de março pelo presidente Jair Bolsonaro. Na MP, Bolsonaro já interrompia os efeitos de medidas em que os governadores decidiram livremente sobre esse tipo de restrição para os seus estados.

A negação do novo coronavírus com acusações de histeria coletiva

Dados da OMS, atualizados do primeiro pronunciamento do presidente (24/03) em cadeia nacional até a tarde de 6 de abril, saltaram de 382 mil para 1.211.214 casos confirmados e de 16,5 mil para 67.666 mortes pelo novo coronavírus — e os dados crescem em cada hora em escala geométrica. Se antes eram 203 países e territórios do mundo  atingidos, atualmente são 208. Nos Estados Unidos, já se somavam 307.318 casos confirmados e 8.358 mortes até o dia 6. Na Espanha, 130.759 casos confirmados e 12.418 mortes. Na Itália, 128.948 casos e 15.889 mortos.

No Brasil, até o dia 5 de abril, contabilizavam-se 11.130  infectados e se somavam registrados 486 mortos. No entanto, nesses números não está contemplado o drama da subnotificação, que mascara o total de casos. Como destaca Atila Iamarino, pesquisador em microbiologia, o Brasil está dobrando o número de casos, assim como o que já ocorreu na Espanha e na Itália, a cada três a cinco dias. “No começo de abril, caso não faltem leitos, são as medidas do confinamento que estão fazendo efeito positivo para a sociedade” — medidas essas das quais o presidente da República tripudia.

Os dados abaixo apresentam os casos em ordem cronológica dos dois pronunciamentos de Bolsonaro, até o fechamento deste artigo.

O primeiro é o dia 24 de março; o segundo, 28/03; e o último, 5 de abril (véspera da finalização do artigo), o que comprova que a única questão estática é o discurso de Bolsonaro. A pandemia que permitiu que chegássemos no início de abril com estimativas mais brandas, como Iamarino colocou, começa a tomar uma proporção acelerada a cada novo pronunciamento do governo do Federal, que fomenta a  flexibilização das quarentenas e reordena a fala pela lógica do mercado. O fato é que, em breve, talvez tenhamos que parar definitivamente, aos moldes da Itália e da Espanha, com muito mais desamparo e dor do que apenas o “isolamento social” necessário que poderia ter sido eficaz, ao contrário do que temos visto hoje, escorrendo pelas “mãos” o controle da pandemia Covid-19.

DiaCasos confirmadosÓbitos
24/032.26946
28/033.934114
05/0411.130486
Dados Brasil retirados do site do Ministério da Saúde

Mesmo diante dos fatos, números e estudos, vale lembrar que a política deste governo prioriza a privatização total dos serviços públicos, sem comprometimento social com a saúde, a educação, a cultura ou mesmo a segurança. Que outro governo, em plena pandemia, conseguiu desferir tamanho golpe como a Medida Provisória 927, de 22 de março, que retira ainda mais direitos dos trabalhadores, que já haviam perdido tantos outros com a reforma trabalhista? Para piorar, a nova Medida Provisória 936, intitulada “Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda”, de 1º de abril, estrangula mais os direitos trabalhistas e deixa ainda mais claro que, por algum motivo, tudo o que não foi corroborado com a nefasta reforma trabalhista, excludente e desumana, está sendo pactuado de forma sórdida neste momento de grande contraponto que a sociedade brasileira e as demais nações estão atravessando.

Os pronunciamentos de Bolsonaro chocam, mas, no frigir dos ovos, não trazem nenhuma novidade quanto ao que já estava posto desde sua posse, em 1° de janeiro de 2019. Trata-se de um governo que desde o início cuida de atacar e desmantelar os serviços públicos enquanto acentua as políticas privatistas, escoando dinheiro público para a iniciativa privada. Essa prática política se consolida com a precarização dos investimentos nas áreas essenciais, como saúde, educação, segurança, cultura. A quem interessa esse movimento? Por mais que o presidente o afirme em seu pronunciamento, não é aos trabalhadores informais, aos motoristas e/ou entregadores de aplicativo que vivem uma falsa ideia de prosperidade financeira e que, no meio de uma pandemia, veem-se totalmente desassistidos. É aos grandes empresários; aos grandes donos do capital. Entretanto, Bolsonaro se aproveita de uma mentalidade incorporada ao inconsciente de muitos desses trabalhadores, segundo a qual deixar de lutar por direitos coletivos fazia parte de uma mudança estrutural necessária para uma vida mais próspera e farta voltada ao individualismo. As lutas ficaram mais árduas, o front de batalha aumentou e muitos mudaram de lado, abandonaram o barco, mudaram de opinião em manter estratégias individualistas e individualizadas de suas ações por não terem suas opiniões aceitas. Nessa hora fica evidente onde Bolsonaro encontrou ressonância no seu projeto de poder.

O que esperar do capital?

Durante o dia 25 de março, depois do primeiro pronunciamento de Bolsonaro, nas mais diversas redes sociais e plataformas digitais lia-se a pergunta feita por uma parcela que não é levada em conta pelo governo: “quem da sua família poderia morrer pra economia não parar?”

Aquela semana estava recheada de respostas dos liberais, que fazem seu próprio capital girar, ampliar-se e enriquecer com a força de trabalho de cada trabalhador. De uma forma pragmática, a resposta já havia sido dada por Júnior Durski, dono da hamburgueria Madero: “o Brasil não pode parar por 5 ou 7 mil mortes”. Já para Roberto Justus, em áudios de uma conversa de grupos de WhatsApp, “vai custar muito caro. Você está preocupado com os pobres? Você vai ver a vida devastada da humanidade na hora do colapso econômico, da recessão mundial”. Minimizaram a pandemia como uma gripezinha à toa. O membro do conselho da rede de fast food Giraffas, Alexandre Guerra, filho do proprietário, usou as redes sociais, com um vídeo que viralizou, para deixar claro seu tensionamento com os trabalhadores da rede:  “Você já se deu conta  de que, ao invés de estar com medo de pegar esse vírus, você deveria também estar com medo de perder o emprego?”. Alexandre Guerra foi afastado pelo pai Carlos Guerra, que irá comprar a parte dele de 1% na franquia. Carlos Guerra, declarou “Hoje, o objetivo é salvar o máximo de vidas possíveis. Cada coisa terá de ser resolvida em seu momento, em seu tempo. Não adianta mandar as pessoas para a rua: todos estamos com medo. É preciso ter uma declaração da OMS dizendo que agora está seguro sair de casa e que o sistema de saúde tem capacidade de suportar a demanda.” Na verdade, Brasil precisava de um “pai” que tomasse medidas enérgicas como essa com descumpridores da ordem social que colocassem em risco a nação. Todavia, o intitulado “pai da nação” é um irresponsável como Bolsonaro, que não é pai, sequer padrasto, respeitando os que cumprem esse papel com dignidade. Está mais para carrasco.

De lá até hoje, muitas pessoas voltaram às ruas como em um filme de transe hipnótico, sem sequer observar que, neste momento, caberia  a pergunta: o quanto cada um de nós vai se responsabilizar pelos que amamos ou pelos quais nutrimos algum afeto? Será justo abrir mão dos verdadeiros preceitos da coletividade neste momento? Em nome de quem? Para quem? E por quê?

É evidente que os pronunciamentos de Bolsonaro serão também devastadores pelas consequências e pelos danos — de ordem emocional — da pressão que cada trabalhador sofrerá por parte de patrões inescrupulosos que colocam o lucro acima da vida. Doravante os riscos iminentes da pandemia, a ameaça constante de não dimensionar o meio de sustento básico para si e para os seus provocará um pico de estresse, de modo que doenças decorrentes dele serão também parte do processo de uma dizimação em massa da população. Há, portanto, nesse sentido uma necessidade urgente de tirar as vendas dos olhos e não deixar mais se absorver por esse discurso perverso e avesso às necessidades da humanidade diante da pandemia. É hora de o Estado cumprir seu papel e proteger a população, não a economia. Todos aqueles que não tomarem para si e para os seus os cuidados e restrições serão responsáveis e coniventes em nome da sustentação de um poder dado a alguém que não representa a todos os milhões de brasileiros.

Nota do Editor: Texto originalmente publicado no site da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (CONTEE)

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