Abraham Weintraub, um símbolo do governo atual | André Coube

Por André Coube *| Historiador, Técnico Administrativo na UFF

O agora ex-Ministro da Educação Abraham resistiu até quanto pôde no cargo. O presidente Bolsonaro custava em admitir que a sua permanência na frente do MEC tornava-se insustentável após ele comparecer a uma manifestação pró-governo reforçando sua fala sobre os “vagabundos do STF” proferida na reunião ministerial do dia 22/04/2020.

Se Bolsonaro o exonerou a contragosto, a maioria dos educadores e estudantes comemoraram. Não é pra menos. Em pouco mais de um ano na pasta da educação não se viu medidas efetivas do ex-ministro para melhoria da qualidade educacional, mas apenas atitudes que envergonham as comunidades acadêmicas.

O seu comando ficou marcado por brigas gratuitas com as Instituições Federais de Ensino como acusações de plantação de maconha e de balbúrdia nos campus; defesa do contingenciamento de verbas para essas instituições; projeto de privatização da educação federal por meio do programa Future-se; tentativa de desqualificação do patrono da educação brasileira, Paulo Freire; erros de correção de provas do Enem 2019 e sua minimização; provocações contra os chineses causando constrangimentos; xingamento aos ministros do STF e grande resistência em adiar o Enem 2020. Como se não fosse suficiente, ainda foi publicada no seu último dia como ministro uma portaria que desobriga as universidades federais a reservarem vagas de caráter étnico para os cursos de pós-graduação. Como recompensa, o presidente ainda indicou o Weintraub para integrar o Banco Mundial.

Motivos realmente não faltam para comemorar sua saída. Porém, é com total pessimismo que podemos esperar a nomeação do próximo ministro. Quando o seu antecessor saiu, Ricardo Vélez, também ficamos aliviados, pois nos seus três meses de ministério fez uma péssima gestão com mudanças rotineiras de cargos dentro do MEC e ainda disse em entrevista ao Valor Econômico (28/01/2019) que a universidade não era para todos, pois para ser motorista de Uber não precisa de diploma universitário. 

A tendência é que o próximo a chefiar o MEC continue sendo da chamada “ala ideológica” do governo (assim como Weintraub e Vélez eram), grupo que tem como intelectual Olavo de Carvalho e que prega o combate ao comunismo, ao marxismo cultural e ao educador Paulo Freire (alguns desse grupo ainda acreditam que a Terra é plana). 

Se o mundo está enfrentando a pandemia da Covid-19, no Brasil, enfrentamos a epidemia do negacionismo dos problemas globais, da necropolítica, da suposta “ideologia de gênero” na educação, da acusação de que tudo é culpa do comunismo e da mídia esquerdista. Sem dúvidas, os dois ex-Ministros da Educação do governo Bolsonaro contribuíram para a propagação desse epidemia.

No meio disso, a educação básica e o ensino superior precisam discutir seus calendários, a regulamentação de atividades remotas e o replanejamento do Enem 2020 por parte do INEP junto à sociedade civil. Obviamente que o MEC não é a única instância responsável pela educação, mas não se pode admitir a omissão do ministério em decisões importantes, ainda mais agora nesse momento de pandemia.

Porém, os caminhos possíveis para o MEC a curto prazo são: ficar sem um ministro, ter um ministro interino a exemplo do Ministério da Saúde ou receber um ministro efetivo. Qual seria o menos pior tendo em vista que muito provavelmente o próximo seja do mesmo perfil dos anteriores? E mesmo que não seja do perfil dos anteriores, será que o próximo teria autonomia sem ser pressionado publicamente pelo presidente por não concordar com a sua concepção de educação? Seja qual for o rumo, o futuro do MEC é sombrio.

*Licenciado e Bacharel em História e mestre em Educação (UNIRIO). Atualmente é Técnico em Assuntos Educacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF).

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