Bolsonarismo x Universidade

PRA CEGO VER: Varias pessoas em barco de Raffting, descendo uma corredeira de um rio, tentando não virar o barco e afundar.

É imprescindível dissipar o Bolsonarismo para defender as Universidades e a ciência e o conhecimento nelas produzidos. Somente assim será possível evitar que o obscurantismo se torne hegemônico.

Os ataques às Universidades públicas, e tudo o que está associado a ela, como pesquisa, ciência, conhecimento, professores, é uma constante no discurso de Bolsonaro, desde Bolsonaro Deputado, passando pelo Bolsonaro candidato e agora “bombando” no Bolsonaro Presidente. Mas, o que mudou para esse discurso, que até pouco tempo atrás parecia ecoar no vazio, ter sido constituído como uma das grandes bandeiras daquilo que, inadvertidamente, vou nominar como uma espécie de “movimento psicológico da sociedade brasileira”? O que mudou foi surgimento do Bolsonarismo!

Quando eu digo “movimento psicológico da sociedade” eu estou me referindo, grosso modo, a uma faceta do que Freud descreveu na obra “Psicologias das massas e análise do eu” (1921), na qual ele se dedica a levantar hipóteses e analisar o comportamento do indivíduo nas massas, ou em grupos, como ser coletivo, considerando esse comportamento como essencialmente diferente do que o comportamento como ser individual.

O Bolsonarismo, fenômeno que elegeu o Bolsonaro, é a unidade de um conjunto diverso de pessoas, grupos e pensamentos. Um símbolo antisistêmico complexo, pois o anti e o sistêmico são multifacetados em si para cada um desses anti, produzindo uma variedade de binômios ‘anti+sistêmico.

A condição variável e difusa, características pós-modernistas da contemporaneidade, contribuem determinantemente para alinhavar a unidade “antipolítica” dos bolsonaristas (contra tudo isso que tá ai) e velar a verdadeira fonte da propulsão do Bolsonarismo: O capital financeiro internacional em busca de estabelecer o livre mercado, destruindo tudo o que pode ser obstáculo para tal projeto.

O bolsonarismo não é uma ideia, nem um projeto que convenceu multidões, ele é o discurso mais forte, que se tornou o vetor circunstancial catalizador de muitas insatisfações. Essas insatisfações, se consideradas em separado, não poderiam lograr êxito e, provavelmente, muitas são até antagônicas, todavia, se unificam na força do discurso do Bolsonaro, o qual sempre existiu, mas que o antagonismo do “inimigo comum” o tornou o anti mais forte.

O Bolsonarismo é um “movimento psicológico da sociedade” porque se baseia na figura de um líder simbólico e em sua manifestação social suprime o indivíduo e/ou as ideias de um grupo de indivíduos em detrimento das ideias do líder (o anti mais forte). Outro fato que o torna esse movimento psicológico da sociedade é que indivíduos se comportam de forma diferente quando em ação coletiva (em nome ou sob efeito do bolsonarismo) do que o seu normal quando “sozinho”. É fácil perceber isso mais objetivamente comparando o comportamento das pessoas no cotidiano e pessoalmente com o comportamento nas redes sociais, ou quando se fala no líder ou em suas ideias.

As constantes investidas contra as universidades públicas brasileiras, em específico, são efeitos do Bolsonarismo. Diversas pessoas, personalidades e grupos sociais que tem proferido ataques dos mais absurdos às universidades públicas simplesmente porque elas foram identificadas pela narrativa bolsonarista com o inimigo comum.

Acredito que a maioria não quer destruir essa instituição que é um dos principais patrimônios que a humanidade tem construído entre as diversas épocas. É uma espécie de “boa fé absurda”, da mesma estirpe que “primeiro tiramos a Dilma, depois tiramos o resto” ou “se o Bolsonaro for corrúpto, tiramos ele também” Os indivíduos ou grupos “menores” sucumbem ao discurso do líder, sem refletir nas consequências do mesmo, simplesmente porque querem “destruir algo maior”. Aliás, penso que esse fenômeno pode ser observado em diversas áreas da sociedade.

Felizmente, realidade não condiz com as narrativas do bolsonarismo, sendo principalmente por isso que será possível dissipar essa histeria coletiva e produzir enfraquecimento e o isolamento das teorias da conspiração, reestabelecendo alguma razoabilidade. A grande questão é como e quando isso será possível.

Infelizmente ainda não consigo ver o fim desse gás que penetra no cérebro das pessoas e as transforma em bolsonaristas, que aceitam tudo de ruim, mesmo sabendo que é ruim (como a reforma da previdência, por exemplo) simplesmente porque o líder falou e porque o “PT quebrou o país”. No entanto, tenho a impressão que, feito um rio em corredeira, o melhor a se fazer agora é seguir o fluxo, evitando quebrar todo barco, afundar e afogar, certos que logo virá uma calmaria, e na calmaria, precisaremos do barco, dos remos e dos remadores para avançar.

Sobre Rafael Pereira 15 artigos
Doutor em Educação na UFPR. Mestre em Métodos e Avaliação (UFSC). Pedagogo (Unicamp). Editor da seção "Opinião" do Tribuna Universitária. Editor da Enunciado Publicações e autor do blogue Lendo o Mundo.

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