Capitão Fantástico: É um filme sobre a morte!|Rafael Pereira

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Eu assisti Capitão Fantástico. Um filme estadunidense dirigido por Matt Ross, lançado em 2016, digno das várias indicações que recebeu, dentre elas, de melhor ator no Oscar e melhor diretor no Festival de Cannes, tendo sido premiado nessa última. Não tinha visto nada sobre o filme, exceto que era um bom filme, em que se podia ver críticas à sociedade e também elencar dilemas e contradições de uma vida alternativa. Parecia apenas que ia nos fazer pensar sobre educação, vida em sociedade e família, porém, aos meus olhos, o principal tema do filme foi outro: A morte!

A história é bem interessante e proporciona vários gatilhos para reflexões sobre costumes, vida em família, relação pai e filho, pai e filha, entre irmãos, relações com o regramento social aceito pela maioria, consumismo, referências intelectuais, certo e errado, sedentarismo endêmico, religião, dentre outras tantas que o público possa se conectar. É um filme leve, dramático, mas engraçado, cuja audiência por puro entretenimento já vale a indicação, embora seja impossível passar ileso pelo filme, mesmo que se queira somente o mero entretenimento.

Devido ao evidente contraste gerado pela família criada no mato, por meio de um misto de eruditismo e tribalismo, uma espécie de sincretismo entre as pedagogias atheniense e spartana, a questão da educação e instrução de jovens pela família, em contraste com o socialmente aceito, é muito forte no enredo do filme.

Outra força da história, está nas relações familiares, que são expressadas por conflitos entre o pai e os filhos, entre a família protagonista com suas famílias, seja no núcleo da irmã, seja no núcleo do avô. A relação da mãe com seus filhos e companheiro, seus titubeios com a decisão sobre a vida alternativa, expressa em cartas para a mãe, em diálogos ouvidos por um dos filhos, além da depressão, também são formas de expressão da força das relações familiares na história.

A teia que sustenta a narrativa se entrelaça nos diversos nós de contradições que a película evidencia, ao ponto dessa tensão, entre os “de dentro” e os “de fora” do sistema, ser o fio condutor da narrativa, que tem como principal conflito, a “luta” pela morte da mãe e da filha. De um lado, os pais querem enterrar a filha, como manda o figurino dentro da religião praticada pelos pais. De outro lado, os filhos e o companheiro querem enterrar a mãe, segundo seus desejos. Todavia, esse não é o cerne da luta travada pelos pais e pelos filhos.

Cena do funeral da mãe no filme Capitão Fantástico

Mesmo que seja a sequência mais bonita do filme, aquela que envolve a despedida da mãe, com música e muita confraternização e felicidade, não é esse ainda o cerne da questão, pois o que importa não é o ponto de chegada, mas o caminho percorrido.

No filme capitão fantástico é possível observar duas formas de viver: Uma dialógica, franca, cujas emoções fazem das relações, sendo expressadas, muitas vezes na sua forma mais aguda, como na cena em que o pai da a notícia da morte da mãe e um dos filhos sente vontade de mata-lo, porque o culpa. Então ele pega a faca e tem um acesso de raiva, que em nenhum momento é tolhido. Em outras cenas é possível observar a franqueza do reconhecer e expressar as emoções, alguma inclusive colocando os filhos em situação de “ridículo”, gerando risos, afinal é uma narrativa, de certa forma, caricatural também. Na outra forma, o silêncio, o monólogo e a dissimulação são regra.

A personagem da mãe não deixa de ser um símbolo da angústia e sofrimento de estar “entre os dois mundos” e buscar suas ligações, sem romper com o velho para viver o novo, com medo da sensação de insegurança do novo. Essa sensação o pai também sentiu! Ela não conseguiu viver em nenhum dos mundos.

É certo que eu posso estar sofrendo do mal do viés de confirmação, dado minha educação e opção religiosa pelo espiritismo. Contudo, é inegável que a cena mais bonita e mais emocionante do filme é o funeral da mãe, e isso é o que me absolve do viés de confirmação, pois o diretor e roteirista, assim como a montagem, capricharam muito nessa sequência, marcando de fora incisiva a experiência do público com o filme.

Por isso acredito que seja um filme sobre a morte, porém, não sobre a morte em si, mas sobre como o diálogo, a franqueza e a liberdade de expressão emocional, pode nos educar a encarar a morte como uma celebração, sem apego ao pueril, focando no que realmente importa!

Sobre Rafael Pereira 15 artigos
Doutor em Educação na UFPR. Mestre em Métodos e Avaliação (UFSC). Pedagogo (Unicamp). Editor da seção "Opinião" do Tribuna Universitária. Editor da Enunciado Publicações e autor do blogue Lendo o Mundo.

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