‘Claro que existe racismo na universidade’, afirma coordenadora de políticas raciais da UFRJ

Denise Góes, coordenadora da Coordenadora da Câmara de Políticas Raciais da UFRJ (foto: Renan Silva)

A Coordenadora da Câmara de Políticas Raciais da UFRJ e militante do Movimento Negro Unificado (MNU) Denise Góes afirma que é preciso criar políticas internas de valorização dos técnico-administrativos negros da UFRJ.

Nesta entrevista, Denise discorre sobre ações afirmativas, racismo e o pouco espaço ocupado pelo servidor negro na universidade. Confira os trechos principais.

“Nós precisamos sair da invisibilidade. Romper a cortina do racismo institucional”.

Chegamos a mais um mês da Consciência Negra. Qual a reflexão que você faz na conjuntura atual diante de um governo de extrema direita e racista?

Mais um 20 de Novembro e a reflexão é cada vez mais preocupante diante dessa conjuntura com a pandemia matando milhares de pessoas e entre elas a população negra. 

Não há o que se esperar no campo das políticas públicas que venham desse governo racista, homofóbico e misógino. Nós estamos diante do genocídio da população negra, nós estamos diante do feminicídio, nós estamos diante de uma fundação que é a Palmares comandada por um negro equivocado, que quer apagar nossa história dentro da fundação. 

O quadro é caótico, mais no meio desse caos a nossa tarefa é lutar pela manutenção do que foi conquistado até aqui. As políticas públicas para a população negra se fortalecem, as cidades se mostram mais diversas e plurais. Então precisamos estar organizados para lutar para proteger os direitos até aqui conquistados.

O que se avançou e o que necessita ainda se conquistar no direito e no espaço da população negra na universidade?

Existe um avanço objetivo com as cotas raciais que abrangem as universidades públicas federais. Nós precisamos agora definir a resolução em relação às fraudes para que possamos ter um quadro mais límpido. É uma contradição você ter um processo onde existe uma heteroidentificação que consegue barrar as pessoas que não possui os critérios fenotípicos para a vaga da reserva de cotas e, por outro lado, você não ter uma sanção, não ter uma atitude para os que fraudaram no passado. E a universidade precisa resolver essa questão que traz uma ebulição muito grande dentro do meio acadêmico, principalmente entre os estudantes.

Precisamos criar políticas internas de valorização dos técnico-administrativos negros na universidade. Nós precisamos sair dessa invisibilidade, romper a cortina do racismo institucional. Estamos sempre fora dos cargos de chefia. Quantos diretores negros temos nos centros universitários? Então precisamos ter uma política objetiva nesse sentido para tirar esses técnicos que estão qualificados e vem se qualificando nos últimos anos da invisibilidade.

Na UFRJ há preconceito racial? Como ele se manifesta? 

Apesar de a universidade ter uma postura politicamente correta em relação a aplicabilidade da Lei 12.711 e da Lei 12.990 quando tivemos dois grandes concursos públicos e que pudemos aplicar a lei de cotas de 20% para vagas, ainda não podemos dizer que erradicamos o racismo na universidade que sofre os reflexos do racismo estrutural que está presente na construção da sociedade.

Internamente é só observar o que produz o racismo institucional através do número de docentes que temos. Agora com a recente votação no Conselho Universitário da reserva de vagas de 20% (para docentes) teremos uma maior representatividade, mas atualmente é infinitamente e lamentavelmente inexpressiva.

Claro que existe racismo na universidade. Onde nós estamos lotados dentro da esfera de decisão na universidade? Da esfera do poder? Dos cargos ditos de confiança? Não estou me referindo a questão monetária, estou falando de reconhecimento institucional, de valorização da capacidade profissional.

Se traçarmos hoje um retrato da universidade nós não temos essa representatividade. Se pegarmos a universidade há dois anos veremos que todas as pró-reitorias eram brancas e masculinas. Avançamos para uma reitora mulher, tivemos no passado uma pró-reitora negra, mas que não tinha essa identidade demarcada, e temos atualmente uma pró-reitora que tem essa identidade racial demarcada. No entanto é pouco. 

Existe alguma política na universidade para combater o preconceito?

A universidade tem tomado algumas posturas interessantes em conjunto com os coletivos negros e a Câmara de Políticas Raciais. E isso é salutar. Quando a gente tem uma Administração Central que discute essas questões com as organizações e os coletivos e mais uma organização como a Câmara de Políticas Raciais, estamos dando passos largos para o combate ao racismo que não se dá por si só. Ele é fruto de uma luta que deve ser implementada e levada ao longo e dentro da UFRJ.

Qual ou quais os desafios a serem enfrentados?

Os desafios são muitos porque a UFRJ é uma universidade branca, elitista, excludente na sua formação. E a transformação disso, numa universidade plural, pluriétnica e diversa não se dá da noite para o dia.

Se não vemos muitos negros no poder é porque o racismo institucional é muito forte e tem mecanismos para nos afastar de ocupar esses cargos de poder. E o racismo estrutural da sociedade brasileira vem corroborar com aqueles lugares pré-determinados onde acham que os negros deveriam estar, mas eles não querem mais estar a reboque.

Então os desafios são imensos e eu como uma militante organizada do Movimento Negro Unificado (MNU) não vejo alternativa que não seja a organização dos negros em torno de entidades fortes como o MNU para que a gente possa combater sistematicamente o racismo. Foi assim nos EUA com os Panteras Negras e será aqui no Brasil com uma entidade forte onde possamos estar unificadamente nessa luta dessa pauta racial, compreendendo o racismo como um entrave para nossas vidas. 

Só a organização nos levará a vitória. Não adianta a indignação individual dos casos de racismo. A gente precisa se colocar e discutir política porque o racismo é uma política implementada para dizimar uma parcela da população. Por isso conclamo os servidores da universidade a nos organizarmos em torno da Câmara de Políticas Raciais para que a gente possa discutir todas as questões pertinentes ao racismo institucional que ainda existe na UFRJ.

Nota do editor: Entrevista originalmente publicada no site do Sintufrj

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