Conjuntura: Não estamos entendendo nada do que está acontecendo! | Eduardo Valdoski

Eduardo Valdoski é Jornalista

Vivemos uma situação muito difícil no país. A tática do governo é a do caos. Cada ataque a direitos, liberdades e à democracia vem seguido de um novo. É um tsunami. Alessandro Molon, líder da oposição no Câmara dos Deputados, em entrevista à Folha de S. Paulo na última segunda, dizia que uma das dificuldades encontradas na disputa pública sobre a reforma da previdência foi o fato de a cada momento terem de tirar o foco desse debate para reagir a outros ataques promovidos por Bolsonaro.

Nessa sexta-feira, 19 de julho, em apenas 24h, observei três graves ataques a questões que pareciam consensos pacificados até pouco tempo.

O presidente afirmou que vai retirar a autonomia da Ancine, vai vinculá-la ao Palácio do Planalto, para no lugar de financiar de forma diversa os cineastas brasileiros, fazer filmes ideologicamente alinhados com os atuais donos do poder.

Em entrevista, Bolsonaro debochou do alerta da FAO/ONU de que o Brasil caminha a passos largos para o mapa da fome do qual saímos em 2014 durante o governo da presidenta Dilma Rousseff, cumprindo a promessa do discurso de posse de Lula em 2003. Disse o presidente que não via ninguém magrinho, passando fome no Brasil.

Se esses dois fatos são graves, mais ainda são os feitos contra o INPE, porque podem ser irreversíveis e comprometer o nosso futuro enquanto humanidade. O Presidente da República chamou às falas o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais que é responsável pelos satélites e pela pesquisa que faz a medição do desmatamento na Amazônia, após o órgão divulgar o crescimento de 68% do desmatamento apenas nos primeiros 15 dias de julho.

A esquerda, os progressistas e os democratas brasileiros encontram-se em um beco sem saída. É o famoso se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Se concentramos nossos esforços em apenas um ponto, como a reforma da previdência, por exemplo, deixamos passar ataques que representarão retrocessos de décadas ao país. Por outro lado, se falamos de todos, nosso discurso fica disperso, como tem ficado, e nossa capacidade de resistência é reduzida ao ponto de não ser efetiva.

Um dos aspectos que tem me preocupado é que parte da esquerda subestima a capacidade da extrema direita. Os chama de burros, ignorantes, lunáticos. Enquanto na verdade eles tem objetivos, táticas e estratégias muito bem elaboradas.

O lançamento do Future-se é um exemplo disso. Ele foi apresentado como um projeto técnico, de ampliação da capacidade de gestão das universidades e de captação de recursos privados. Mas ela atinge dois objetivos políticos fundamentais: o primeiro neoliberal, ao transferir para o mercado a decisão de quais pesquisas devem ser realizadas no país. O segundo, conservador/ideológico, já que o efeito prático será sufocar as áreas de humanas, que na retórica bolsonarista não serve pra nada. Sobre esse aspecto político, tem um artigo da Maria Caramez Carlotto, presidente da ADUFABC, no Outras Palavras, que aponta essa mudança de tática do governo no que tange a educação.

O que acontece no Brasil também ocorre nos EUA com Trump, aconteceu no Reino Unido com o Brexit e se repete em outros países nos quais a extrema-direita se fortalece. Trata-se de um movimento global que repete táticas nos mais diversos países. Recomendo os filmes “Brexit” (HBO/Now) e “Roger Stone” (Netflix), neles você pode trocar Brexit, por Trump, ou Trump por Bolsonaro e temos o mesmo método para vencer eleições. Inclusive a tática do caos, de lançar várias medidas simultaneamente.

A tendência é acontecer um cansaço que mina nossa capacidade de resistir. Mas diante desse cenário vem a clássica pergunta: O que fazer? É aí que penso que temos de baixar a bola e reconhecer: não estamos entendendo nada do que está acontecendo. Os métodos e táticas da extrema-direita que se valem também das fake news e do firehosing são novos e nós ainda operamos na lógica política construída desde a metade do século passado.

Sem querer ser alarmista, precisamos evitar os erros que levaram a ascensão fascista na década de 1930, o principal é a dispersão. Por erro de Stalin, os comunistas haviam eleito os sociais democratas como os inimigos número um. Aqui parece que seguimos o mesmo caminho ao atacar a deputada Tabata Amaral. Ainda que ela seja uma liberal com mais compromissos com os bancos do que com o povo, certamente ela é aliada contra a perseguição na Ancine, defende a posição da FAO/ONU sobre a fome no Brasil e é contra o descrédito que o presidente tenta impor ao INPE. O que facilitou muito o caminho de Hitler na Alemanha foi a divisão da oposição, vamos repetir isso aqui e terminar perseguidos juntos como foram os comunistas e sociais democratas alemães?

É preciso criar espaços de reflexão sobre o momento. É fundamental elaborar novos métodos e táticas de disputa política. É preciso juntar mais gente que pensa diferente, mas que tem compromissos mínimos com a democracia, do que afirmar nosso programa máximo. Resistir a avalanche que a extrema direita impõe, será necessário todo mundo, numa frente tão diversa como aquela que produziu a redemocratização do Brasil e acabou com duas décadas de ditadura.

A coluna "Conjuntura" publica artigos de opinião e análise sobre a conjuntura política do Brasil, cujos autores são colaboradores, colaboradoras e/ou colunistas do Tribuna Universitária. As opiniões emitidas, não necessariamente coincidem com as opiniões do portal Tribuna Universitária. Dúvidas, sugestões, elogios e críticas podem ser enviadas para redacao@tribunauniversitaria.com.br ou diretamente ao autor, cujo contato está linkado em seu nome abaixo do título do artigo.

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