De educador a matador: mais uma vez se responsabiliza o Professor

Nesse artigo de opinião apresento uma argumentação contra a ideia de que os professores, se estivessem armados, poderiam minimizar a tragédia. Alerto sobre essa nova narrativa de responsabilização dos professores, que agora precisam cuidar de ensino e da segurança nas escolas.

Segundo dados do Monitor da Violência, site do portal G1, o número de policiais civis e militares mortos em confronto em serviço ou fora de serviço em 2018 foi de 385 policiais, contra 453 em 2016.

Considerando apenas os policiais civis e militares em serviço, no ano de 2016, foram mortos 118 policiais, de acordo com estatísticas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Esses dados demonstram a falsidade do argumento esdrúxulo usado pelo Senador Major Olímpio e replicado por alguns parlamentares zumbis da extrema direita brasileira, como é o caso de uma deputada professora de Santa Catarina, de que “se tivesse um cidadão com arma regular dentro da escola, professor, servente, um policial militar aposentado, ele poderia ter minimizado o tamanho da tragédia…”

Se houvesse alguma ponta de verdade nessa premissa estapafúrdia, policiais não morreriam em serviço.

Percebam que, num confronto policial há tudo isso que o Major Senador falou e muito mais: arma legal no local do confronto e nas mãos de profissionais treinados e com equipamentos individuais de proteção para exercer sua profissão.

Mesmo assim, somente em São Paulo, 24 policiais militares ou civis foram mortos em confronto em serviço no ano de 2016. Que fosse um policial morto, em si isso já é uma tragédia.

A ideia de que alguém armado poderia minimizar ou evitar a tragédia in loco é absurda, pois ela trabalha, na melhor das hipóteses, com a possibilidade de um tiroteio que reduziria o número de mortos. Ainda assim seria uma tragédia.

Por se tratar de um ato planejado deduzo que nesse tipo de atentado, os criminosos calculam minimamente seus riscos e se preparam para enfrentá-los. Supondo que houvesse segurança armada na escola, os criminosos talvez chegassem de outra forma, com maior poder de fogo e isso, talvez pudesse maximizar e não minimizar a tragédia.

Supondo que um professor, professora, merendeira, armado (a) alvejasse os jovens que se converteram em assassinos, ainda assim seria uma tragédia, pois transformaria um professor, um merendeiro, de educador em matador.

Mesmo que não houvesse morte alguma, ainda assim seria uma tragédia, pois quando ex-alunos de uma escola entram pelo portão para matar e não para visitar aqueles que contribuíram com sua formação, em si, esse fato já é uma grande tragédia.

Os argumentos apresentados em favor das armas mostram apenas o estreito compromisso dos seus defensores com a indústria das armas, que quer vender e lucrar às custas do sofrimento e da dor de pessoas inocentes.

E por fim, mais uma vez a responsabilidade de um fracasso do Estado, recai sobre os ombros dos professores e das professoras, representando aqui todos os trabalhadores e trabalhadoras da educação, aos quais se acostumou imputar a culpa pela não aprendizagem, e agora está sendo imputada mais a responsabilidade de, estando armado na escola, cuidar da segurança dessa e dos estudantes.

Os conservadores, a direita e a extrema direita no Brasil constroem, passo-a-passo, largos, as narrativas para desresponsabilizar o Estado de tudo, transformar tudo em mercadoria. E pior: com a concordância das maiorias! Cuidado!

Sobre Rafael Pereira 15 artigos
Doutor em Educação na UFPR. Mestre em Métodos e Avaliação (UFSC). Pedagogo (Unicamp). Editor da seção "Opinião" do Tribuna Universitária. Editor da Enunciado Publicações e autor do blogue Lendo o Mundo.

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