Divergir e dialogar, tão perto de cada um e com milhões ao mesmo tempo, ajuda a evitar o fascismo! Esse é o lado luminoso da força do Youtube para Clara Matheus do canal mimimidias

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No Brasil, mais de 122 milhões de usuários tem acesso à Internet, o que significa 59% da população, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT). E mesmo que ainda haja outros quase 85 milhões de brasileiros desconectados, a internet tem sido arena de diversos fatos, debates e disputas.

O presidente do Brasil tem na internet seu principal meio de comunicação, sobretudo as redes sociais, o que tem levado, por exemplo, a cobertura política, antes focada nos corredores do congresso e hall do palácio do planalto, ao twitter e até ao Youtube, esse último, ainda mais sensível ao debate (ou seria apenas disseminação?) de idéias entre correligionários das mais diversas pautas.

Não precisa de muito esforço para enxergar a influência das redes sociais em nossa vida e sua presença forte em nosso cotidiano, principalmente por meio dos Smartphone que se popularizaram muito nos últimos anos. Basta observar o nosso redor.

Quem tem filhos ou irmãos entre 10 e 18 anos sabe a força que tem as redes sociais, a ponto de ser possível abandonar a TV aberta para esse público que consome, e produz, conteúdo e entretenimento via Youtube e Instagram.

Para contribuir com o processo de reflexão sobre essa realidade que envolve a juventude, a internet e as redes sociais, num contexto de questionamentos das formas tradicionais de conhecimento, o portal Tribuna Universitária conversou com a pesquisadora Clara Matheus, que além de fazer doutorado sobre adaptações da literatura para redes sociais, mantem um canal no Youtube com outros dois amigos, também pesquisadores.

O Canal mimimidias nasceu em janeiro de 2017 e já conta com mais de 84 mil inscritos e quase 3 milhões de visualizações em seus mais de 179 vídeos “sobre internet, cinema, games, design, literatura e tudo que é mídia. Sempre com rigor acadêmico, bom humor e muito mimimi”, segundo eles mesmos. [dados da data da entrevista]

Clara, contou um pouco ao TU sobre o canal, sua área de pesquisa e respondeu perguntas que vão nos ajudar a continuar refletindo com mais rigor e fundamentação em relação aos fenômenos ligados à internet, redes sociais e juventude. Confira abaixo a íntegra dessa entrevista exclusiva.

Oi Clara. Obrigado pela sua disposição em conversar conosco e ajudar o processo de reflexão, nosso e dos nossos leitores, e leitoras, sobre o fenômeno que vem ocorrendo que é a influência da internet na vida das pessoas e em particular na sociedade. Antes de iniciar as perguntas, você pode falar um pouco de você? Quem é a Clara Matheus? Qual sua trajetória até aqui?

Olá, é um prazer. Eu sou doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Minas Gerais e pesquiso a relação entre a literatura e outras mídias, mais especificamente adaptações da literatura para redes sociais. Além da universidade, eu tenho um projeto de divulgação acadêmica com dois amigos, Tavos Mata Machado e Leonardo de Oliveira, que se dá na forma de um canal no YouTube e um podcast.

E o Canal Mimimídias? Como surgiu essa ideia, de fazer um canal no Youtube? A repercussão do canal tem atingido as expectativas que vocês tinham quando iniciaram?

…a inquietação de desenvolver uma ideia e trabalhar por anos em um texto que seria lido por pouquíssimas pessoas me incomodava muito.

O mimimidias é o nome do nosso projeto de divulgação acadêmica e a ideia de fazer um canal no YouTube veio da necessidade de compartilhar. Durante a escrita da minha dissertação de mestrado, a inquietação de desenvolver uma ideia e trabalhar por anos em um texto que seria lido por pouquíssimas pessoas me incomodava muito.

Eu pesquiso produtos culturais próprios da internet e tinha esse palpite de que existem pessoas no mundo que se interessariam pela minha pesquisa, mas que a dissertação não era a forma certa de criar um diálogo com essas pessoas. O YouTube tem problemas, mas ele também representa essa possibilidade de criar um canal de comunicação, que atendia bem a urgência de me comunicar que eu sentia naquele momento.

Definitivamente, nem eu nem os meninos imaginávamos que a gente fosse atingir um público tão grande em tão pouco tempo. Eu imaginava que os assuntos que me interessam academicamente interessariam outras pessoas, mas não imaginava que seriam tantas. Um vídeo que eu adaptei de uma seção da minha dissertação já foi visto por mais de 130 mil pessoas, é incrível!

Aproveitando esse gancho da repercussão do canal… Fale um pouco do público de vocês. São muito jovens? Adultos? Há muito hater? Quem vocês influenciam?

Mais de 80% do público do nosso canal tem entre 18 e 34 anos, então dá pra dizer que a maior parte do nosso público é adulto.

Sobre influenciar, eu me sinto um pouco estranha com essa ideia, porque o meu objetivo não é influenciar ninguém, é dialogar com as pessoas, propor discussões, divulgar pesquisas interessantes com as quais eu tive contato e promover o letramento crítico de produtos em mídias variadas.

Talvez porque esse diálogo que o mimimidias propõe aconteça entre adultos, é raro que a gente receba hate. Foram ocasiões pontuais que nos colocaram na mira de grupos de haters.

…meu objetivo…é dialogar com as pessoas, propor discussões, divulgar pesquisas interessantes… e promover o letramento crítico de produtos em mídias variadas.

Com certeza você já deve ter participado e tomado conhecimento de debates em relação à influência da internet na vida das pessoas, na sociedade e na política. Nem precisamos lançar mão de estatísticas complexas para constatar esse fato, basta o cotidiano: a internet, e em especial as redes sociais, são forças vivas na sociedade. Que reflexão você tem feito sobre isso?

Quanto à internet, acho muito interessante pensar sobre o giro que houve recentemente a respeito disso. Durante a minha adolescência, a internet era um “lugar”, que eu acessava. Eu entrava e saía da internet, assim como todos os meus amigos. Hoje em dia a internet não é mais um lugar, ela é parte integrante do nosso cotidiano.

Acho interessante pensar que com a chegada da banda larga, com a popularização dos smartfones, houve um dia no qual a gente entrou na internet e nunca mais saiu. Com isso, a internet passa por ocupar mais espaço na vida das pessoas e a influenciar processos políticos e sociais com muita intensidade.

Durante a minha adolescência, a internet era um “lugar”, que eu acessava. Eu entrava e saía da internet… Hoje em dia a internet não é mais um lugar, ela é parte integrante do nosso cotidiano.

Recentemente foi publicada no Le Monde uma pesquisa que indica a incrível influência do Youtube nas eleições de 2018, principalmente através de links veiculados via Whatsapp. A pesquisa mostrou, dentre outras coisas, que o principal disseminador de ideias, informação, desinformação e narrativas nas eleições foi o Youtube. Esse é um poder real da plataforma ou foi o fator eleição e Steve Bennon que inflou o Youtube?

A internet tem um papel enorme formando a opinião das pessoas e acho que não dá mais para menosprezar isso. O YouTube cria um senso de proximidade entre os criadores e a audiência, quando essa proximidade é utilizada com intenções políticas isso pode render muitos frutos.

Tudo indica que a atuação de estrategistas experientes, como o Bannon, pode, sim, influenciar o resultado de uma eleição. Porém, nas eleições de 2018, não foi só a disputa pela presidência que usou da internet de forma tão massiva. Muitos candidatos a deputado, por exemplo, usaram das mídias sociais de formas variadas.

Da forma que eu percebo essa situação, estrategistas, como o Bannon, são pessoas que sabem usar de um poder de comunicação que é, sim, próprio das mídias sociais, esse poder de falar de forma individual, próxima e íntima, com milhões de pessoas ao mesmo tempo.

Outro fato que é perceptível e essa pesquisa do Le Monde, de alguma forma, também confirma, é a apropriação da internet pela direita. Como você avalia essa constatação? A direita e o que lhe faz margem, realmente se apropriou da internet e suas ferramentas?

Eu diria que já estivemos numa situação política mais complicada. Em 2017 eu teria muita dificuldade para nomear canais que tratam de política no YouTube com um viés progressista, mas hoje em dia a minha dificuldade está em escolher sobre quem falar.

Houve, sim, um momento no qual a internet era a terra da direita e de ideias conservadores, eu sinto que esse momento está ficando pra trás.

A Sabrina Fernandes talvez seja o maior e mais bem-sucedido exemplo de uso da internet para a divulgação de ideais políticos da esquerda revolucionária, seu canal, o Tese Onze, tem ganhado muito espaço e audiência.

Houve, sim, um momento no qual a internet era a terra da direita e de ideias conservadores, eu sinto que esse momento está ficando pra trás. Felizmente, vemos cada vez mais uma diversidade real de vozes no YouTube.

Até onde podemos dizer que o discurso de direita cresceu na sociedade por causa da internet? Ou ele cresceu na internet por causa de sua expansão na sociedade?

Eu não tenho informações o suficiente para responder essa pergunta de forma definitiva. O que eu posso dizer com alguma segurança é que alguns estudos e experimentos têm mostrado que o algoritmo do YouTube, em específico, tem uma tendência à radicalização, no sentido de que a pesquisa por determinado assunto acaba levando a uma extrapolação sensacionalista do mesmo assunto, feito por meio de vídeos disponíveis na plataforma.

Daí, de forma semelhante que uma busca por esmalte pode levar para um vídeo de cem camadas de esmalte, uma busca por notícias a respeito de políticas de imigração pode levar o usuário, de indicação à indicação, até um vídeo com um discurso xenófobo, racista e exaltadamente anti-imigração.

É uma lógica que tem a intenção de segurar a audiência dentro da plataforma, oferecendo conteúdos que sejam curiosos e instigantes, mas que pode ter consequências terríveis para a sociedade.

…o algoritmo do YouTube, em específico, tem uma tendência à radicalização, no sentido de que a pesquisa por determinado assunto acaba levando a uma extrapolação sensacionalista do mesmo assunto…

O Canal Mimimídias é parceiro da rede de canais Science Vlogs…Isso demonstra a preocupação que vocês tem com o conhecimento e a informação baseada em fatos e fundamentada. Como você tem visto e enfrentado o desafio da credibilidade diante do fenômeno da verdade autorreferente ou baseada no viés da confirmação de crenças?

O Science Vlogs é uma iniciativa maravilhosa e para a gente é uma honra enorme termos sido convidados para sermos parceiros do selo. Dentre outras coisas, nos fascina quão comprometidos com a qualidade da informação são os demais canais do selo.

Desde o início, o mimimidias tem como princípio divulgar as fontes de todos os materiais que a gente usa nos vídeos, isso não inclui só os artigos acadêmicos, mas os vídeos que a gente usa também. Saber escolher fontes de pesquisa ajuda para a construção da credibilidade, mas é importante pra gente, também, que as pessoas saibam qual foi o processo de formação das nossas opiniões.

O viés de confirmação é responsável pelo fenômeno que muitos canais do selo Science Vlogs procuram ativamente evitar: como parar de “pregar para convertidos”? Como falar que o pensamento científico é importante para pessoas que ainda não sabem isso? Como “furar a bolha?

A gente ainda está tentando descobrir e testando abordagens, no mimimidias, tanto no YouTube quanto no Podcast, a gente tem tentado fazer isso através da valorização da divergência de opiniões que existe dentro do canal, mas é óbvio que essas diferenças chegam só até um ponto. Essa é uma limitação da nossa estratégia.

Não temos dados sobre o comportamento do público no Youtube, mas quem acompanha sabe que há um público infanto-juvenil enorme que assiste os grandes canais, inclusive os ideológicos, tanto pra entretenimento como pra se informar ou até estudar pra “prova de amanhã”… Essas mesmas crianças frequentam escolas antiquadas e tem professores que não estão familiarizados com esse mundo…você acha que é possível pra educação tradicional, imprensa tradicional ou outros canais de diálogos tradicionais, se religar com o jovem?

Primeiramente, é importante também ouvir.

Dentre as abordagens e estratégias de aproximação possíveis, a gente acha sensacional ver que professores tem feito uma curadoria de criadores de conteúdo na internet e levado para a sala de aula.

Eu sinto que nós temos muito a aprender com essa juventude que cresceu grudada no YouTube. Mesmo na internet, comunicar com essa geração é um desafio. Sei que muitos professores têm usado os vídeos do mimimidias em sala de aula e a gente se sente muito bem sabendo que o conteúdo que a gente produz tem reverberado com professores Brasil afora. Embora a gente não faça conteúdo pensando na sala de aula, é legal pensar que nossos vídeos têm servido para esse fim. Dentre as abordagens e estratégias de aproximação possíveis, a gente acha sensacional ver que professores tem feito uma curadoria de criadores de conteúdo na internet e levado para a sala de aula.

Nessa esteira da religação com a juventude, pensando em influenciar as novas gerações, que hoje tem 13 e 14 anos hoje e que consomem conteúdo, principalmente do Youtube e no Instagram (Facebook já morreu pra eles????)… O se poderia fazer, para ao menos frear ou contrapor com qualidade o avanço do fascismo e discurso de ódio dentre a juventude?

Diálogo.

…chegamos a conclusão, partindo de uma ideia do Tavos, de que o que nós temos de mais urgente para ensinar é a importância do dissenso.

Recentemente, o mimimidias participou de um evento para um público de ensino médio, dentro de uma escola. Enquanto a gente preparava nossa palestra chegamos a conclusão, partindo de uma ideia do Tavos, de que o que nós temos de mais urgente para ensinar é a importância do dissenso.

Nós três divergimos muito, a gente discorda e gosta de discordar, fazemos questão de que nossos vídeos comuniquem isso: a diferença respeitosa de opiniões. O fascismo, para florescer, precisa de mentes que não aceitem a possibilidade da diferença.

A minha esperança é que uma juventude preparada para discordar e respeitar opiniões diversas não se curve ao fascismo.

Bom, caminhando pra finalizar nossa entrevista, quero fazer uma última pergunta que me instiga muito, em relação a tudo que estamos vivendo e gostaria que você desse sua opinião: De tudo isso que está acontecendo…O que é real e o que é etéreo? Pergunto isso porque no mundo da internet existe muita inteligência artificial, bots, perfis falsos e muita estratégia de marketing, pra impulsionar e mobilizar emoções… Assim, penso que existe sempre uma nuvem de fumaça, que as vezes é o que vemos primeiro… Mas embaixo dela há uma materialidade…Na sua opinião… O que é que podemos realmente considerar que vai ficar dessa fase?

Essa pergunta lida diretamente com uma coisa que temos vivido cada vez mais. Na internet existe, mesmo, uma dificuldade de entender o que existe de tangível nas nossas interações interpessoais. Por isso tem sido muito importante pra mim ir em eventos e conversar com as pessoas cara a cara, ver como são os rostos por trás dos números incompreensíveis das redes sociais. Eu espero que fiquem as transformações que a gente pode fazer no mundo através do diálogo e do respeito a discordância.

Para além disso, existe também uma preocupação que temos em fomentar o pensamento crítico no nosso público. Por meio de nossos vídeos, a gente tem sempre a intenção de ensinar, através do exemplo, formas de interpretar os produtos de mídia que nos cercam. Nessa relação a gente não é professor, somos pesquisadores documentando o nosso processo, que também é de aprendizado.

Se o mimimídias acabar hoje, teremos aprendido muito e a a expectativa é que a audiência também tenha aprendido com a gente.

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