Educação e o salvacionismo | André Coube

Por André Coube *| Historiador, Técnico Administrativo na UFF

Grande parte da sociedade brasileira acredita que o caminho para a redução da desigualdade social é pela educação. Pois à medida que um indivíduo tem maior nível de escolaridade, ele tem mais chance de possuir uma renda maior e ascender socialmente.

Essa crença pode advir da situação entre os graduados e os não graduados. Quem possui um diploma universitário recebe cerca de 2,4 vezes mais do que aqueles que possuem até o nível médio no Brasil[i], além da maior empregabilidade do primeiro grupo. Essa é uma das maiores diferenças salariais entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

Mas apostar somente em políticas de acesso à educação como uma solução para diminuição da desigualdade social é ingenuidade. Uma pesquisa realizada por membros do Instituto de Pesquisas Econômica Aplicadas (IPEA), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que se houvesse uma conclusão total no ensino médio ou ensino superior incompleto pelos estudantes brasileiros desde meados da década de 1950, a desigualdade de renda seria reduzida em menos de 10%.

A queda da desigualdade social via educação é muito a longo prazo, ou seja, pouca eficiente. Reflita comigo: um negro graduado tem as mesmas chances de conseguir um emprego que um branco graduado na mesma área acadêmica e na mesma cidade? As mulheres recebem salário igual aos homens estando nos mesmos cargos e possuindo os mesmos níveis de escolaridade? Chamo a atenção ainda para as mulheres mães que têm menos chances do que as mulheres sem filhos.

Além das desigualdades de gênero e cor, podemos acrescentar o acesso à segurança pública, à cultura e ao lazer, ao saneamento básico, entre outras áreas. Escolas que ficam fechadas por conta da violência urbana, falta de rede adequada de água potável e esgoto para algumas comunidades mais carentes ocasionando doenças e precariedade de opções de acesso à cultura e ao lazer reduzindo o contato com outras formas de conhecimento são situações que fogem da alçada da pasta da educação de qualquer ente federativo. Pode ter escola da melhor infraestrutura possível com professores bem qualificados e bem remunerados que atenda todas as comunidades ao seu redor. Porém, se não houver outras políticas públicas concomitantes, muito pouco valerá um bom acesso à educação de forma isolada para o combate à desigualdade social.

Uma medida efetiva seria uma reforma tributária que diminua a carga tributária sobre o consumo e a aumente sobre grandes fortunas e propriedades privadas. Os mais pobres acabam pagando mais impostos do que os ricos proporcionalmente às suas rendas. Uma grande injustiça!

O objetivo deste texto não é desestimular a luta por uma educação de qualidade social, pública, gratuita, laica e democrática. O objetivo é tirar o grande peso que a sociedade e por vezes governos colocam um caráter salvacionista de redução das desigualdades sociais no trabalho dos profissionais da educação. É preciso um conjunto de políticas públicas para que isso aconteça.


[i] Pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

*Licenciado e Bacharel em História e mestre em Educação (UNIRIO). Atualmente é Técnico em Assuntos Educacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Seja o primeiro a comentar

Comente!