Enquanto nos horrorizamos por nossa razão, Bolsonaro dialoga com as massas por sua emoção

Print de postagem falsa sobre mamadeira erótica (internet)

Tem sido recorrente em nossa bolha, a ridicularização do discurso de Bolsonaro e seus Ministros, o que que falam alguma coisa. Sim, pois em relação aos que não falam, ou falam pouco e agem em suas pastas, a ridicularização dá lugar à revolta, porque as medidas que vem sendo tomadas, os atos realizados e programas anunciados são extremamente regressivos.

Um exemplo: a ministra da agricultura, após afirmar não haver pessoa passando fome no Brasil porque há mangas nas cidades, tem ficado fora dos noticiários escatológicos e ridicularizáveis. Em contrapartida, nunca se liberou tantos agrotóxicos em tão pouco tempo nos últimos 20 anos.

Os ministros que falam qualquer coisa, inclusive o seu comandante em chefe, com certeza falam o que, não apenas consideramos absurdo e ridículo, como é de fato absurdo e ridículo. A cada pérola, nossa bolha se imiscui em demonstrar o quão ridículo eles são, de várias formas, e também de desmontar as premissas e argumentos “lançados ao vento”, evidenciando as falácias “pongo govi”. É possível até observar uma certa tendência, que caminha para criar um nicho analítico, especializado em desconstruir, com alguma erudição, os discursos do Bolsonaro e de seus ministros.

Vejam o caso dos hackers russos de Araraquara. É evidente a montagem de uma cena e de uma narrativa, tal como foi a prisão dos “terroristas do Alexandre de Moraes”, então ministro da Justiça e hoje Ministro do STF. Hoje ninguém sabe ou sequer lembra o que deu aquela “mega investigação”, porém, ela cumpriu muito bem um propósito: dissipar a imagem de advogado do PCC do ministro, mostrá-lo como uma liderança forte contra o crime e justificar sua ascensão ao STF. Eu diria que cumpriu também a função de pré-testar um modelo de ação do poder que envolve uma prisão midiática sobre tema não comum no Brasil (ataque terrorista), que tem várias lacunas mas que serve bem para justificar outras medidas pró-governo e anti-oposição, tal como foi a justificativa do golpe que instaurou o Estado Novo por Getúlio Vargas.

No entanto, o que denunciamos como cinismo dos agentes governamentais, que tratam essas questões com a maior cara de pau, sustentando suas narrativas, é, na verdade uma estratégia calculada de comunicação com o bolsonarismo, que é quem sustenta socialmente o governo e com as massas já mobilizadas até aqui pelo antipetismo e pela guerra cultural contra o que eles chamam de marxismo cultural.

Mesmo que essas narrativas sejam incoerentes, contraditórias e mentirosas, e mesmo que todos que raciocinam demonstrem, e provem, racionalmente, que essas narrativas são incoerentes, contraditórias e mentirosas, elas continuam sendo narradas e cumprindo dois efeitos importantes:

  • 1) dialogar com o sentimento e as emoções do bolsonarismo que sustenta o governo, e das massas que, se não apoiam o governo, tampouco querem o retorno do PT (e por isso vem aceitando todo tipo de escatologia);
  • 2) ocupar as pessoas que funcionam a partir de uma lógica racional com algo contra o que lutar.

Infelizmente, com muita ajuda dos algoritmos das redes sociais e o culto ao indivíduo característico dos tempos atuais, esses dois mundos são paralelos. Nossas análises racionais não chegam, e se chegam, não afetam os que estão mobilizados pela emoção.

Vejamos rapidamente o caso do filho do Bolsonaro como embaixador. Qualquer pessoa razoável, a partir da razão, sabe que é ilegal, imoral e engorda! Porém, o que faz o Bolsonaro além de colocar um time de referência, que já influencia o bolsonarismo e as massas, para naturalizar seu discurso e mobilizar a desqualificação já sedimentada pelos críticos, tachados de ideológicos ou ativistas? O Presidente se reúne com um pastor muito conhecido do mundo evangélico, que usa um chapelão e é muito popular dentre os pobres. Em uma live transmitida pelo face e viralizada pelo zap, o pastor legitima a indicação do Bolsonaro filho para a embaixada.

A indicação do embaixador filho do presidente, pode não ocorrer de fato, porém, o bolsonarismo consegue dar mais um passo na sua manipulação emocional das massas. Faz com que algo inaceitável, factual e simbolicamente associado à corrupção, ao “toma lá da cá” e aos privilégios da classe política, seja absorvido e aceito como algo diferente, de modo que o Presidente possa dizer que ele nunca “faria um negócio desses”.

Dito isto eu pergunto: Você já parou para pensar… Se não conseguimos convencer os crédulos de que nunca houve mamadeira de piroca, como vamos convencer do resto?

Sobre Rafael Pereira 15 artigos
Doutor em Educação na UFPR. Mestre em Métodos e Avaliação (UFSC). Pedagogo (Unicamp). Editor da seção "Opinião" do Tribuna Universitária. Editor da Enunciado Publicações e autor do blogue Lendo o Mundo.

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