Ensino Remoto e a sua aplicabilidade no contexto socioeconômico | André Coube

Por André Coube *| Historiador, Técnico Administrativo na UFF

Com o isolamento social provocado pela covid-19, escolas e universidades interromperam ou nem chegaram a começar suas aulas em 2020. Uma solução para que o período letivo não fosse perdido foi a adoção do ensino remoto (que é diferente da modalidade EaD, pois esta pressupõe que todas as etapas do ensino sejam a distância e não somente por um período temporário como é agora).

Muitas instituições de ensino particulares e até mesmo algumas secretarias de educação foram adeptas a esse novo modelo de ensino. Aulas ao vivo online, aulas gravadas, exercícios postados em plataforma e até mesmo com frequência a fim de controlar quem participa dessas atividades.

Vi uma postagem no facebook recentemente de um colégio público bem tradicional na cidade do Rio de Janeiro reclamando que a participação dos estudantes do Ensino Fundamental II estava muito baixa. A postagem dizia que os estudantes deveriam aproveitar essa oportunidade que o colégio estava oferecendo. 

Nos comentários da postagem, os responsáveis diziam que a plataforma apresentava instabilidades, não havia dispositivos suficientes em casa para atender demandas entre home office dos trabalhadores e estudantes, o acesso à internet dos discentes era insatisfatório, além do sofrimento psíquico causado pelo momento atual. 

Nas instituições de ensino superior (IES), também não é diferente, embora haja as suas especificidades. As IES particulares adotaram em larga escala o ensino remoto. Já a maioria das universidades públicas foi mais cautelosa e estuda a aplicabilidade do ensino remoto por meio de levantamentos e debates com a comunidade acadêmica. Isso provocou a acusação por parte de alguns de que as universidades públicas estariam inertes, pois deveriam agir da mesma forma que as IES particulares. 

Devemos lembrar que há um percentual significativo de estudantes vulneráveis socioeconomicamente que tiveram familiares que perderam renda nesse momento, que as suas condições de habitação não permite o conforto necessário para concentração, que não possuem computadores nem internet banda larga, sendo o único acesso à internet o pacote de dados móveis no celular. Seria desumano e antieducacional obrigar esse conjunto de estudantes a participarem ativamente de aulas e atividades acadêmicas remotas. 

A universidade poderia bancar o acesso à internet desses estudantes? E os dispositivos (computadores, notebook, tablets)? E quanto aos locais onde não há sinal? Seria possível, com a flexibilização do isolamento, esses estudantes frequentarem as aulas enquanto quem tem um bom acesso à internet participar online? Talvez, mas como faríamos em relação àqueles que moram em cidades distantes dos seus campus universitários? São muitas questões e as universidades públicas não devem deixar ninguém para trás.

Como que as IES particulares estão lidando com seus discentes oriundos do FIES e do ProUni? FIzeram um levantamento preliminar sobre as suas condições de acesso ou vão culpá-los caso eles não consigam participar ativamente das aulas remotas?

Sempre que a educação é descolada da realidade socioeconômica, a culpa de todo fracasso é sempre do estudante e de suas famílias.

*Licenciado e Bacharel em História e mestre em Educação (UNIRIO). Atualmente é Técnico em Assuntos Educacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF).

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