Experimenta: na luta

Cia Persea Divulgacao
Cia.Persea - Divulgação

A quarta edição do Experimenta, a semana de arte da UFSC, aconteceu entre os dias 29 de outubro e 03 de novembro de 2019.

Este ano, o tema destacou a luta pela universidade pública gratuita e de qualidade. O objetivo do evento foi de proporcionar visibilidade às ações artísticas concebidas no meio acadêmico.

A Tribuna Universitária esteve por lá para conferir as várias atrações culturais nas áreas de audiovisual, cinema, dança, debates, música, oficinas, performances e teatro produzidos por meio de projetos ligado à pesquisa, ensino e extensão. 

E principalmente para saber como os organizadores e os alunos de artes da Universidade Federal de Santa Catarina têm mantido as atividades em tempos de cortes públicos.

A Luta da arte na Universidade

Um evento cultural e também artístico como esse faz parte de uma luta maior por democracia e pela universidade pública, além de ser uma luta de resistência pela liberdade de expressão.    

Acompanhe as entrevistas de quem vive na pele e na prática essa batalha. Veja a seguir o depoimento da Profª. Maria de Lourdes Alves Borges, Secretária de Cultura e Arte da UFSC, e dos membros da Persea, companhia de teatro independente dos alunos de Artes Cênicas.

Tribuna Universitária: Como está a luta? Pensando que, essa é uma edição que destaca em seu tema a necessidade de “lutar”. 

Profª. Maria de Lourdes Alves Borges: Em 2016, quando nasceu o evento, a ideia era fazer algo mais voltado para o que temos a oferecer enquanto pesquisa em arte na UFSC, reflexão de arte no panorama artístico de Florianópolis – SC. 

A partir disso, começamos a convidar os coordenadores dos projetos ganhadores do Bolsa Cultura e do ProCultura, que são dois editais de fomento da UFSC.  Também convidamos os professores dos cursos de Arte Cênicas e de Cinema e o Departamento Artístico Cultural   para montar uma programação. Realizamos uma curadoria que buscasse reconhecer o que tem sido produzido aqui dentro

Ou seja, a semana nasceu com o objetivo primário de enfatizar e exibir ao público o que os estudantes, professores e servidores produzem na universidade, ligados à questão experimental e à pesquisa em arte. Acredito que conseguir manter o evento, por si só, já é uma luta. Por isso, esse ano chamamos o evento de Experimenta: na luta.

Sem apoio do governo federal

Tribuna Universitária: Conte-nos como está sendo realizar eventos como esse sem apoio e recursos do governo federal? 

Profª. Maria de Lourdes Alves Borges: entre os anos de 2008 a 2012, quando ocupei pela primeira vez o cargo de Secretária de Cultura e Arte, criamos  uma Semana Ousada de Artes. Nesse período, havia mais recursos, além de uma parceria com a Universidade do Estado de Santa Catarina.

No caso do Experimenta, a concepção inicial pautava-se numa visão de que a instituição não teria tantos recursos para trazer grandes atrações de fora. Ainda que, na primeira e na terceira edições (2016 e 2018), tenhamos conseguido trazer grupos e espetáculos de outros lugares, que interessavam um público maior.

Profª. Maria de Lurdes Alves Borges
Credito de fotos: RenatA.B. – nuvem.cfh.ufsc.br

Nesse ano, quando começamos a organização nós tivemos os cortes. Então, grande parte  dos recursos que tínhamos no Fundo de Cultura da Universidade, precisou ser utilizado para financiar as bolsas de cultura. Hoje são mais de 100 bolsas de extensão artístico-culturais e isso tem um custo mensal para mantê-las. 

No final de agosto, quando recebi a notícia das medidas de contenção de despesas devido ao contingenciamento, ficamos automaticamente com poucos recursos para realizar o evento. Houve uma discussão se manteríamos a programação e resolvemos mantê-la mesmo com a falta de verbas. 

Nesse mesmo período, a 18ª SEPEX – Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão foi suspensa, porque eles não tinham como organizar algo com menos do que o orçamento previsto. 

Como o corte de verba impactou 

Tribuna Universitária: Como essa comunidade se organizou para manter o evento? Ou melhor, como e quanto corte de verba impactou nessa edição do Experimenta? 

Profª. Maria de Lourdes Alves Borges: Conseguimos manter o evento, porque não trouxemos nenhum espetáculo de fora, que tem um custo maior com os cachês, além de outras despesas, como passagens e diárias para os grupos de fora.  

A 4ª Edição do Experimenta foi realizada com 3 vezes menos recursos do que o ano passado“,  diz Profª. Maria de Lourdes Alves Borges, Secretária de Cultura e Arte da UFSC. 

De qualquer forma, essa falta também acabou privilegiando as produções locais e da própria UFSC. O palco do Centro de Eventos, que é reservado para produções maiores,  neste ano ficou à disposição para receber apresentações dos discentes da universidade. Foi muito interessante ouvir alguns alunos dizendo: “sempre foi meu sonho apresentar no Centro de Eventos“. 

Claro, essas apresentações que possuem formatos mais intimistas e que atraem menos público tiveram que ser adaptadas. Mas não deixou de ser uma chance para os artistas da UFSC serem valorizados em casa.

Perspectiva para a Arte, Cultura e Educação para os próximos anos

Tribuna Universitária: E quais as perspectivas da Secretária para os próximos anos em relação à política cultural desse governo?

Profª. Maria de Lourdes Alves Borges: A gente não sabe o que vai acontecer. A minha visão é que esse é um governo que não apoia nem a arte, nem a educação. Além disso, devido àsua posição política conservadora, temos o problema da censura com relação à cultura e à arte.

Soma-se ainda o corte de verbas na educação, na cultura e na pesquisa. Esse ataque do governo se manifestou na universidade através do contingenciamento de recursos. E apesar de ter devolvido agora no final, muitas coisas não puderam ser feitas. Nós não podemos utilizar o dinheiro, porque a verba não é acumulativa de um ano para o outro. Temos encontrado dificuldades de reparar o que deixou de ser feito, porque várias coisas já foram canceladas e o ano letivo está acabando. 

Então, as perspectivas para esse governo são sem dúvida ruins, tanto para cultura, quanto para a universidade pública. O próprio ministro da Educação, Abraham Weintraub, do governo de Jair Bolsonaro, voltou a falar dos professores de forma grosseira. 

Ele declarou, durante o 21º Fórum Nacional de Educação Superior Particular, que precisa “atacar a zebra mais gorda”, que são os professores titulares, os de maiores salários das universidades federais. 

Quando ele diz isso, está desprezando o histórico acadêmico desses servidores. Chegar a ser um titular numa instituição federal é o ápice da carreira de um professor, depois de 20 anos de carreira. É importante destacar esse tipo de manifestação, porque além dos cortes, que forçam a universidade a buscar outras fontes de recursos, há o desrespeito a tudo o que é importante e caro a uma carreira universitária. 

O Estado não quer mais se responsabilizar pelo ensino público e, ainda pior, os profissionais da educação têm recebido apenas grosserias e desrespeito por parte do Ministro e nenhum reconhecimento acerca do seu papel no desenvolvimento do país. Embora as perspectivas não sejam das melhores, devemos continuar e resistir, como temos feito no Experimenta: (n)a luta.

ERRO Grupo

Depoimento de estudantes de artes da Universidade

 A matéria sobre o Experimenta: (n)a luta não é uma cobertura jornalística tradicional do evento. A Tribuna Universitária esteve na Semana de Arte da USFC para discutir questões relacionadas à produção cultural, difusão de arte e visão sobre o cenário político no Brasil. A partir da perspectiva de alunos e diretores envolvidos ativamente na produção dessa edição. 

Convidamos a Persea Cia Teatral, composta pelos estudantes de Artes Cênicas: Carla D’Ambroz, Daniela Fernandes Bristot, Leonardo Ertel, Kalany Silva, Rafaela Bozelo para uma entrevista. 

Veja a seguir na íntegra: 

Tribuna Universitária: Como está a luta?

Cia.Persea: Mais difícil. Apesar de sermos uma companhia relativamente nova, temos visto várias portas se fecharem na nossa frente continuamente. Tem sido assim desde sempre para quem faz arte no Brasil, e até já existiram tempos piores sem dúvida. 

Mesmo assim a arte sempre esteve presente, não apenas como ferramenta, mas como um agente político e social de transformação. 

Nesse momento, apesar de tudo, continuar existindo enquanto companhia e trabalhando como tal, é a nossa maneira de lutar e se posicionar.

Arte e cultura na UFSC

 Tribuna Universitária: Como está sendo produzir e fomentar arte no “campus” da UFSC sem o apoio do governo federal? 

Cia.Persea: Como dissemos antes, sempre foi difícil. O curso de Artes Cênicas na UFSC é relativamente novo, então o apoio financeiro e institucional nunca foi dos melhores. É claro que, com os contingenciamentos feitos pelo MEC (Ministério da Educação) nos últimos meses, as coisas passaram para uma situação mais grave e complexa. 

Por exemplo, os horários disponíveis para ensaio diminuíram, devido ao corte no quadro de segurança da universidade. Muitos grupos, inclusive o nosso, tem tido dificuldades para adaptar sua rotina de pesquisa e ensaio com essas mudanças. 

O bloqueio de recursos para realização de eventos de cultura e arte, quase impossibilitaram a edição deste ano do Experimenta. Estamos sentindo as consequências que todos da universidade vem sofrendo de modo geral. 

A falta de incentivo

A falta de incentivo e apoio em várias instâncias, acaba dificultando ainda mais o engajamento do público em eventos como esses dentro do “campus”. Principalmente, porque estamos falando de exibições de grupos pequenos e de caráter experimental. 

Tribuna Universitária: Como a Cia. Persea tem se articulado para captar recursos? Para manter seus estudos, ensaios, figurino e outros gastos de produção? 

Cia.Persea: Somos um grupo novo, que não passa de um projeto por hora. Estreamos faz pouco tempo, e só após receber o ‘feedback’ do público que inscrevemos a produção em editais municipais e estaduais de fomento à cultura e pesquisa. 

No momento, ainda não fomos contemplados. Os recursos que se fazem necessários para manter as atividades são custeadas pelo próprio grupo. Entretanto, é preciso lembrar que contamos com uma excelente equipe de técnicos e ótimos laboratórios na universidade. 

Eles nos auxiliam com iluminação, cenografia e figurino. O espaço físico do qual dispomos, faz com que uma produção aqui dentro da UF não tenha tantos custos. Isso ajuda bastante. 

Experimenta: na luta

Cia. Teatral Persea
Oficina de Microcomunicação corporal

Tribuna Universitária: A participação na 4ª Edição do Experimenta os impulsiona a continuar lutando? 

Cia.Persea: Sem dúvida foi um grande impulso para o grupo. Passamos por um ano bastante conturbado, em que tivemos a impressão de que nosso trabalho estava andando em um ritmo demasiado lento, sem chegar a lugar nenhum. 

Tendo em vista todos os ataques que sofremos enquanto curso e universidade pública, consideramos colocar um fim na Companhia. Então, sem dúvida o evento acabou sendo um motivo para continuarmos os ensaios. 

Com isso, durante essa edição do evento, conseguimos ministrar a oficina “Microcomunicação corporal” e apresentar a peça teatral “Cartas para Junho“, ambos ligados a nossa pesquisa. 

Política cultural

Tribuna Universitária: Conte-nos da experiência de ser alunos da UF de Artes Cênicas, num momento de política cultural como este que o Brasil está vivendo?

Cia.Persea: Compartilhamos das mesmas agonias e questões dos alunos de qualquer outro curso da UF. Afinal, o contexto é geral, mas como artistas em formação que somos, entendemos que esse papel é social e político. 

Seja procurando atender as nossas próprias necessidades de expressão artística, quanto as demandas da comunidade. Ser artista, neste contexto, é sentir uma enorme responsabilidade em mãos. 

Tribuna Universitária: Na visão da Cia. Persea, os veículos de comunicação estão contribuindo? Ou como nós da Tribuna Universitária pode ajudar nessa luta?

Cia.Persea: Os veículos de comunicação contribuem, sem dúvidas, no engajamento do público em eventos artísticos e auxiliando na divulgação e produção de conteúdo sobre o que tem sido feito dentro da universidade. 

Achamos que, estreitar os laços e permanecer em proximidade com o Centro de Artes seria de grande ajuda, afinal de contas, a arte esvazia seu potencial quando não chega até o público. 

Você que acompanhou essa matéria até o final. Parabéns! Essa é uma amostra de engajamento com a cultura e arte. Curta, compartilhe e participe de eventos que apoiem as produções de artistas locais.

Sobre Juliana Polippo 6 artigos
Brasileira, graduada em 'Produção Multimídia' pela Universidade Santa Cecília em Santos/SP, com especialização em 'Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico' pela Universidade Estadual de Londrina. É pesquisadora do programa de mestrado em 'Multimédia' da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.  

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