Geopolítica: Brasil, de Freud à fraude

Por Nuno Nunes

O contrato social que o pai da psicanálise, o austríaco nascido na atual República Checa, Dr. Sigmund Freud, baseou-se para formular suas teorias foi a ideia de que os seres humanos, abdicando de suas liberdades originais enquanto indivíduos em prol da sobrevivência no coletivo, acarretaria em frustração pessoal que poderia se manifestar de forma violenta em sonhos ou desobediência civil. Seria o inconsciente irracional se manifestando na sociedade. O que isso tem a ver com o Brasil? Como afeta nossa sociedade? Há alternativas para o pensamento de Freud ou ele é uma fraude?

As ideias de Freud não estão distantes do pensamento religioso ocidental de que demônios assolavam as pessoas que, para se protegerem, deveriam procurar igrejas, sinagogas ou mesquitas. Nelas, líderes e sábios prescreviam receitas de orações, doações e dietas a serem feitas pelo afetado para afastar os seres malignos de si e assim poderem voltar à normalidade do convívio social.

Mas foi o sobrinho de Freud, que migrou da Europa para os Estados Unidos ainda criança, um dos responsáveis por retirar a psicanálise dos divãs e aplicá-la nas massas sociais, buscando aumentar a venda de produtos industrializados e a aceitação de medidas governamentais anti-sociais. Edward Bernays é considerado até hoje o pai das Relações Públicas, nome alternativo que ele mesmo deu a sua “Propaganda”, depois que os  Nazistas passaram a usá-la. Sua forma de trabalho se baseava no princípio de que as pessoas são irracionais, e por isso decisões e ações coletivas poderiam ser manipuladas facilmente. Bernays utilizou suas técnicas para controlar o povo estadunidense após a crise econômica de 1929, como podemos ver no documentário “O Século do Ego“, produzido em 2002 por Adam Curtis. A utilizou também para manipular populações de outros países, convencendo-os a derrubarem seus governos. Bernays foi um dos responsáveis pela criação do mito anti-comunista que impera até nossos dias nos discursos capitalistas.

A junção das ideias de um inconsciente irracional de Freud, com a irracionalidade coletiva que permitiria a manipulação das massas, de Bernays, levaram à criação da forma de sociedade estadunidense como a conhecemos atualmente: o “american way of life”. Basicamente, para evitar uma revolução popular após a crise de 1929, os EUA agiram para derrubar sindicatos e agremiações de trabalhadores e, ainda, incentivaram a criação de uma sociedade individualista baseada no consumo, com o mito de que cada cidadão comprando poderia suprir suas necessidades pessoais mais profundas, evitando assim suas frustrações por viver em sociedade, conforme Freud afirmava. Para alcançar tal objetivo, na teoria freud-berneysiana, o cidadão em “crise psicológica” sairia adquirindo produtos da indústria nacional que, após a queda da bolsa, se via a voltas com as crises cíclicas do capitalismo. Aqueles que insistissem em resistir ao consumismo estariam fadados a exclusão social e seriam apontados pelo sistema como desajustados e desordeiros.

Com esta estratégia, as corporações norte americanas mantiveram sua produção e vendas garantidas, o controle da economia e a manipulação dos governos, evitando assim que interesses capitalistas fossem atacados. A este sistema deram o nome de “Democracia Americana” e passaram a impô-la a outras nações, onde interessava ao mundo do capital, saqueando riquezas como petróleo, minérios e garantindo a logística via terra e mar até suas indústrias.

As manifestações no estilo freud-berneysiana contra governos de linha socialista ocorridas no leste europeu e na América Latina durante a Guerra Fria, na África na década de 80 e 90, bem como a Primavera Árabe em 2011, chegaram ao Brasil com as Jornadas de Junho de 2013. Elas levaram o Brasil a assistir, pelas telas da Globo, os panelaços e as manifestações da elite na Avenida Paulista, derrubaram a democracia em 2016, derrubaram sindicatos com a reforma trabalhista em 2017 e querem prender o ex-presidente Lula em 2018. Quem se opusesse a esta estratégia era chamado de corrupto e excluído dos círculos sociais. O massacre da mídia corporativa subordinada aos EUA foi tamanho que, se alguém andasse de camiseta vermelha, era tratado como irracional e expurgado por gritos de “petralha” e “vai pra Cuba”. Qualquer semelhança com a perseguição que Nazistas e Fascistas fizeram a judeus e comunistas não é coincidência, mas é parte do plano: dividir a sociedade e colocar suas partes em guerra. De um lado os coletivistas conscientes e de outro os individualistas inconscientes e muito mais perigosos.

Estes movimentos pró-individualismo (não-sociais) comandados por partidários do “estilo de vida americano” (american way of life), subalternos das corporações estadunidenses, que nem de longe compreendem que as aberrações que defendem abertamente, fazem parte da estratégia que está acabando com a indústria brasileira sem ao menos conceder ao povo a possibilidade de “sanar suas frustrações consumindo”, conforme a teoria freud-berneysiana.

O novo ciclo de crise econômica que explodiu em 2008 é mais um exemplo de que a teoria baseada em Freud, aplicada por seu sobrinho, Bernays, é uma fraude. Ou seja, o consumismo individualista não auxilia o ser humano a sanar suas frustrações, apenas o entorpece.

Freud baseou sua teoria no contexto de guerras no continente europeu, onde o frio inverno sem energia térmica mataria mais que a guerra. Esta situação que chamaremos de escassez, onde não há suficientemente para todos, difere de países onde os EUA tentam impor sua estratégia, como o Brasil e América Latina. Nesta linha de raciocínio, países tropicais que recebem alta incidência de energia solar não deveriam viver sob a lógica da escassez, mas sim na lógica da abundância, em que diferentemente de pensarmos “não tem para todos”, podemos pensar que sim, “tem para todos”, bastando a nós unicamente organizarmos o acesso.

Pensar nisto seria opor-se ao contrato social o qual se baseou Freud, e afirmar que o ser humano, bem nutrido e aquecido, desejaria conviver em sociedade, pois nela a vida seria mais tranquila e feliz.

A teoria do individualismo consumista caiu por terra. “Mas o qual teoria colocaríamos no lugar dela?”, perguntariam os acadêmicos, partidários de direita ou esquerda. A resposta que temos em nações como o Brasil e América Latina, África e Ásia, são óbvias: as comunidades. No Brasil temos comunidades Indígenas e Quilombolas que todos os dias demonstram seu desejo por alcançarem de volta a abundância de suas terras tradicionais para viverem em coletivo, e assim fugirem da escassez imposta pela fraude do individualismo consumista que os ataca via “estilo de vida do agronegócio”.

Do mesmo modo, comunidades de Terreiro que cultivam a ancestralidade comum, respeitando o que Freud desrespeitava e chamava de “irracionalidade coletiva”, constituem espaços de organização social e produção de vida, resistindo aos ataques das religiões gananciosas e seus “estilos de vida do medo”. Temos muitos outros modelos de vida em sociedade, com base comunitária, onde as decisões de organização e planejamento futuro são tomadas em coletivo. A Constituição Boliviana e Equatoriana, baseadas na pluralidade de coletivos sociais, são grandes exemplos deste modelo.

Temos, portanto, que a elite brasileira e latino-americana que vive do lucro de bancos, bolsas de valores e aluguéis de imóveis, que bate panela nas sacadas gourmet, distantes do mundo real dos trabalhadores, não têm propostas para as nações que habitam simplesmente por que seguem a fraude estadunidense. Estes brasileiros formados como pessoas individualistas e mimadas, que vivem na abundância enquanto condenam seus compatriotas à escassez, deveriam responder pelos crimes contra a segurança nacional e a ordem política e social, conforme a Lei nº 7.170 de 1983.

Sobre Nuno Nunes 17 artigos
Filósofo, Escritor e Mestre em Educação e Comunicação pela UFSC, Doutorando em Planejamento pela UDESC. É colunista de geopolítica do portal Tribuna Universitária

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