Geopolítica: EUA contra o monstro “Pan-latinamericanista”

Por Nuno Nunes

“A sociedade norte-americana, tal como o Império Romano, precisa de um inimigo externo para se manter unida. Desde 1991 a América já criou dois”, disse o historiador francês Jean-Christophe Rufin.

Estes “inimigos externos” seguem um padrão para serem criados. Os romanos os chamavam de “bárbaros”, em oposição aos civilizados. Os EUA chamam de países “não alinhados”. Mas alinhados com o que? Qual a medida para poder ser ou não alinhado?

A medida é aceitar negociar petróleo, comprando ou vendendo, usando o Dollar como moeda de troca, o petrodollar, e utilizar as rotas ocupadas pelas Forças Armadas dos EUA. Este alinhamento foi instituído após a Segunda Guerra Mundial, quando os yankees se colocaram contra o Pan-germanismo de Hitler e se impuseram como “policiais do mundo”, fechando acordos de “alinhamento” com o Dollar em troca de proteção.

Milícias globais

Você vai entender ao lembrar daqueles filmes estadunidenses que aparece um fortão, branco, hétero, cisgênero e carente, que bate nos demais magricelos se não o pagarem para protegê-los de si mesmo. Esta mesma lógica, em dimensão maior, é chamada de “máfia” ou “milícia”. Você lembrará delas dos filmes da Máfia Italiana que cobrava de lojistas para que não fossem assaltados pela própria máfia. Ainda, vai ver nos jornais atuais as milícias do Rio de Janeiro que dominaram bairros inteiros e cobram dos moradores por serviços básicos e pela “segurança” para não serem atacados pela própria milícia.

Os Estados Unidos da América é um país que foi dominado pela sua indústria militar após a Segunda Guerra Mundial. Para manter a economia, elegem presidentes que concordam em promover guerras, seja de alta ou baixa intensidade, em algum canto do planeta e criar falsos inimigos para acusá-los de “não alinhamento com os interesses dos EUA”. Os primeiros da lista são países ricos em petróleo que tentam vender barris sem usar o dollar como moeda. Rapidamente os militares dos EUA retiram dos armários suas cartilhas sobre cultura, religião, língua, política e geopolítica da região daquele país e montam o “fake-enemy”.

Alguns “Fake Enemy”

Pan-germanismo – Arredores da Alemanhã na Europa, que pretenderia unificar povos de língua germânicas, que faziam parte do Império Romano Germânico.

Pan-eslavismo – União dos povos de origem eslava da Europa oriental, que faziam parte do Império Otomano, e pretenderia unificar-se nos Balcãs.

Pan-islamismo – Após a queda do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial vários povos dentro do território passaram a se organizar e descobrir petróleo no subsolo. Os EUA promoveu acordos e guerras contra eles, sendo Iraque, Kwait, Arábia Saudita, Iran, Egito, Líbia, e agora a Síria. A acusação é de que buscariam retomar o califado dos tempos dos Otomanos.

Pan-eurasianismo – Após a queda da União Soviética e veio a ascensão da China e seu plano de reconstruir a antiga Rota da Seda por meio de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos conexões desde Pequim até Portugal. São acusados de colocar o oriente bárbaro em guerra com o ocidente civilizado.

Pan-africanismo – Um movimento de caráter social, filosófico e político, que visa promover a defesa dos direitos do povo africano, constituindo um único Estado soberano para africanos que vivem ou não na África. Os EUA acusaram este movimento de querer agitar a ordem interna no país e atacam até hoje a população negra.

Pan-latinamericanismo – Este é o mais novo falso inimigo dos EUA, que acusam a Venezuela de organizar a construção de uma nação latinamericana, socialista, do sul da Argentina até o México.

Venezuela e a logística do petróleo

Vamos nos ater a esta última criação de Fake Enemy, pois precisamos entender o que acontecerá a partir do dia 23 de fevereiro na Venezuela, quando Trump anunciará a tentativa de levar Ação Humanitária para os Venezuelanos e Maduro impedirá a intervenção estrangeira em seu território, sendo o estopim para a guerra e autorização do Congresso Norte Americano para a construção do muro na fronteira com o México para evitar a chegada de latinamericanos.

A origem do problema não tem a ver com Venezuela ou México, mas no receio que os EUA têm de perder o controle sobre o Atlântico e o Pacífico, conquistados respectivamente durante as Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Temem, mais especificamente, perder o comando do Canal do Panamá, que é responsável pela redução de 12.530 kilômetros no trajeto marítimo da costa oeste à costa leste dos EUA, ao evitar que tenham que dar a volta pelo sul da América do Sul.

Mais longo, largo e profundo que o vizinho panamenho, o Canal da Nicarágua é a obra que assombra a indústria dos EUA, pois os maiores interessados e financiadores do novo canal são chineses, da HKND Group (Hong Kong Nicaragua Canal Development), empresa que obteve a concessão da obra na Nicarágua. O período de concessão prevê 50 anos pelos direitos de construir o canal e outros 50 para administrá-lo. O local deve ainda abrigar dois portos, um aeroporto, um centro turístico e um parque industrial logo abaixo dos EUA e acima do Panamá.

Geopoliticamente falando, este é o nó em que os EUA estão querendo envolver a América Latina. A Nicarágua começou a sofrer com rebeliões internas e tentativa de derrubada do governo de Daniel Ortega, que está alinhado com os chineses e, portanto, desalinhado com os estadunidenses. Cuba já sofre embargo econômico dos EUA desde outubro de 1960. O Brasil acabou de sofrer com eleições fraudulentas onde um juiz de primeira instância prendeu o ex-presidente e principal candidato à eleição, Luis Inácio Lula da Silva, e culminou com a vitória da extrema direita, encabeçada por militares, e um general brasileiro irá trabalhar nos EUA comandado pelo Almirante Craig S. Faller, do Comando Sul das Forças Armadas Norte Americanas.

O próximo Iraque

Neste contexto, a Venezuela será o próximo Iraque, não tenhamos dúvida. Os interesses dos EUA são os mesmos que os levaram, no Oriente Médio, a apoiar a instalação do Estado de Israel e a atacar pessoas inocentes. O Canal de Suez, que liga do Mediterrâneo ao Índico, e é rodeado de petróleo e de povos superexplorados pelos EUA e Europa. Se observarmos, as situações se parecem com o Caribe e a estratégia estadunidense também é similar.

Vejamos:

  • o Canal de Suez pertencia ao Egito, e os EUA apoiou a criação do Estado de Israel em 1948 que, em 1956, atacou o Egito com apoio dos norte-americanos que, além de dominar o Canal, influenciaram politicamente e militarmente vários países na região;
  • o Panamá pertencia à Colômbia, e os EUA apoiou a criação do Estado do Panamá em 1903 que, em 1904, concedeu aos EUA a construção do Canal e passou a influenciar política e militarmente países na região.
  • o Iraque e Iran possuem gigantes jazidas de petróleo e poderiam exportar para China e Europa autonomamente, mas com a região do Oriente Médio militarizada pelos EUA pelas guerras contra Afeganistão, Iraque, Síria, são obrigados a pagar pedágios aos yankees;
  • a Venezuela e Brasil possuem gigantes jazidas de petróleo e poderiam exportar autonomamente para China e Europa, mas com a militarização da região pelos EUA, terão que pagar pedágios aos yankees.

Pan-latinamericanismo

Sim. Os EUA continuarão seus ataques à Venezuela e farão de tudo para instaurar mais de suas bases militares e subalternizar os governos na América do Sul e Central. Farão isso proclamando que estarão “libertando” os latinamericanos dos “cruéis” pan-latinamericanistas.

Dirão que os latinamericanos são narcotraficantes e corruptos, e que precisam ser tutelados por alguma força maior para alinhar com os países democráticos. Chamarão os “bolivarianos” de grupo terrorista e atacarão com mísseis os locais de reunião de partidos de esquerda.

Os jornais dirão que se trata realmente de grupos terroristas de linha pan-latinamericanista que deseja “invadir os EUA” e dirão ainda que Trump acertou em criar o muro no México para evitar a entrada dos novos “bárbaros”.

Sobre Nuno Nunes 17 artigos
Filósofo, Escritor e Mestre em Educação e Comunicação pela UFSC, Doutorando em Planejamento pela UDESC. É colunista de geopolítica do portal Tribuna Universitária

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