Geopolítica: Falácias apontadas para sua cabeça

Por Nuno Nunes

Nas eleições brasileiras de 2014 os ataques de mentiras de candidatos a candidatos foi muito debatido. Inclusive alguns deles denunciavam este jogo dos colegas e tentaram não cair nas armadilhas. Em 2018 foi completamente o oposto. Jair Bolsonaro e sua equipe abusaram criminosamente, pois usaram recursos de Caixa 2 e de milícias, potencializando suas mentiras contra o PT e atacaram seus adversários como se não houvesse amanhã. Agora vemos o Brasil envolvido com EUA e Colômbia contra a Venezuela. Por quê isso? Como isso? Quem está por trás disso?

A lógica política

Na Filosofia se estuda estratégias de argumentação que exigem o uso de Raciocínio Lógico para ter sucesso. O modelo mais famoso é o Silogismo de Aristóteles, que é o raciocínio que apresenta no mínimo duas premissas para alcançar um conclusão. Como funciona isso?

Silogismo usado na matemática:

  Premissas: 2 + 2
  Conclusão: 4

Um exemplo clássico de silogismo na argumentação é:

  Premissas: Todo homem é mortal. Sócrates é homem.
  Conclusão: Sócrates é mortal.

O objetivo de usar argumentos lógicos é simples: expor as razões que sustentam uma conclusão. Porém, pode este sistema lógico ser usado politicamente para declarar guerra de um povo a outro? Sim. E veremos aqui seu caso mais famoso.

O presidente dos EUA, George Walker Bush, afirmou em 2003 que:

  Premissas: Iraque tinha armas de destruição em massa. Estas armas são usadas por terroristas.
  Conclusão: Iraque é um estado terrorista e deve ser invadido.

Esta lógica usada na política pelos EUA em 2003 carecia de comprovação em sua primeira premissa, pois não havia provas de que “Iraque tinha armas de destruição em massa”. Como isto enfraquecia a conclusão, os EUA decidiu invadir o Iraque e buscar as provas e, para isso, mandaram mísseis contra locais centrais do governo iraquiano, desestruturando qualquer contra-ataque e entraram com seus militares por terra para percorrer locais suspeitos de ocultar as tais armas.

Não encontraram nenhum laboratório ou armamento de destruição massiva. O que rapidamente Bush fez? Simples e lógico! Afirmou que os relatórios da CIA o fizeram acreditar que havia armas no Iraque e se isentou de qualquer culpa. Ou seja, que a primeira premissa era verdadeira, o que foi comprovada falsa. Isto é: era uma Falácia.

Falácia vem de fala, charla, que é um raciocínio lógico aparentemente verdadeiro, que induz ao erro. Chamamos de charlatão a pessoa que usa falácias em seus argumentos. E o que acontece com essas pessoas?

Crimes de Estelionato Internacional

Em conformidade com o Código Penal brasileiro, isto é Estelionato (Título II, Capítulo VI, Artigo 171), e é definido como “obter, para si ou para outro, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento”. Portanto, usar de Falácias é Estelionato.

O povo iraquiano sofreu por uma guerra estelionatária, que usou falsas premissas para convencer o mundo de que Iraque tinha armas de destruição em massa. O Brasil em 2018 sofreu eleições estelionatárias, pois o Juiz Sérgio Moro, articulado com General Heleno e seus comparsas do Sindicato Militar, prenderam o candidato à presidência da República que ganharia em primeiro turno das eleições e garantiram o caminho aberto para Jair Bolsonaro e seus filhos usarem milhares de Falácias nas redes sociais contra o candidato preso, com vistas a elevar os números nas pesquisas.

Tudo isto aconteceu para chegarmos ao dia 23 de fevereiro de 2019, data limite que o presidente dos EUA, Donald Trump, deu ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, para que libere a entrada de “ajuda humanitária” para os venezuelanos e que não tenha ninguém ao redor que o acuse de charlatão.

Falácias apontadas para sua cabeça

O que estamos vivendo na América do Sul que envolve Venezuela, Brasil e Colômbia? Se trata de mais uma guerra dos EUA contra outro país para saquear suas riquezas petrolíferas. Exatamente como ocorreu no Iraque em 2003, porém desta vez o argumento falacioso é diferente. Vejamos:

Premissas: Venezuela tem um presidente Socialista. Socialismo destruiu a União Soviética e gerou a Rússia de Putin.

Conclusão: Venezuela é um Estado que está sendo destruído e precisa de ajuda humanitária.

Onde está o argumento que induz ao erro? Temos que Maduro é realmente Socialista. Depois temos que o Socialismo destruiu a URSS e gerou a Rússia de Putin, e aqui está o erro. Foram os EUA quem corromperam a URSS e a destruíram cercando seu território e impedindo de fazer negócios com outros países. E para isso fizeram a Guerra contra o Vietnam, embargo contra Cuba e Iran, Guerra no Balcãs, contra Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria, guerra híbrida contra Egito, Turquia e Ucrânia. Ainda, armaram a Europa contra a Rússia com a OTAN, e impediram os europeus de comprar gás e petróleo de outros países que não os alinhados dos EUA.

Resumidamente, os EUA comportam-se como aqueles garotos vizinhos da rua de cima que descem até o terreno baldio que a comunidade da rua de baixo fez um campinho de futebol. Os de cima trazem sua bola oficial enquanto as crianças de baixo jogam com bola de meia. Então, impõe-se e passam a organizar dois times, um com camisa e outro sem, escolhendo aleatoriamente quem ficará de um lado e do outro. Até que um dos meninos de baixo levanta-se e diz que aquele campo de futebol não é dos garotos da rua de cima, mas da comunidade de baixo, encerrando a invasão

O que fazem os donos da bola oficial? Simples: disseminar sonhos capitalistas contra a comunidade e acusar um dos meninos de interromper a prosperidade do time da rua de baixo. Ou seja, basta os garotos de cima dizerem que estavam apenas querendo ajudar para montar um time que possa jogar no campeonato do bairro, e que eles teriam camisetas e chuteiras para distribuir aos jogadores.

Esta é a semente da Falácia. Pois, sem provar que realmente há um campeonato, que há camisetas e chuteiras, que há possibilidades de melhorar o jogo dos meninos de baixo, estes passam a acreditar nas promessas falaciosas sem garantias.

Enfim, pelas lei brasileiras os EUA poderiam ser enquadrados no Artigo 171 do Código Penal por obter para si vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo alguém em erro. Porém, o povo venezuelano conhece muito bem esta estratégia falaciosas dos EUA, pois estudam a história de Simon Bolivar, que foi traído em 1830 por um general que entregou o país a saqueadores.

Os venezuelanos não aceitarão as falácias apontadas para suas cabeças. E você? Aceitará?

Sobre Nuno Nunes 17 artigos
Filósofo, Escritor e Mestre em Educação e Comunicação pela UFSC, Doutorando em Planejamento pela UDESC. É colunista de geopolítica do portal Tribuna Universitária

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