Geopolítica: Mundo pós-Covid-19 entre Antivírus e Firewall Sociais

Por Nuno Nunes

O Sistema Capitalista permite livre circulação de capitais, mas não de seres humanos. O comércio internacional é recheado de barreiras alfandegárias e para facilitar o fluxo surgiram os Blocos Econômicos. O Coronavírus é combatido com duas estratégias: Antivírus pela China e Firewall pelos EUA. Esta disputa revela os Sistemas Operacionais diferentes que deixarão, cada qual, seu legado, sendo no Ocidente uma rede imensa de barreiras tecnológico-militar-sanitárias. Isto afeta em cheio a China e seus parceiros. Quais objetivos? Quais interesses? Welcome to the Firewall World?

A diferença entre Firewall e Antivírus Sociais

A China agiu de forma rápida como Antivírus instalado no seu Sistema Comunista, que detectou o vírus, isolou-o, busca eliminá-lo e previne que se alastre para as demais regiões. Isso foi possível pois, se compararmos a um Sistema Operacional de Computador, a China não é auto-executável como o Windows, mas como o Linux que exige permissões para executar. Para entender isso devemos ir à Filosofia do Confucionismo chinês que mantém vivo o pensamento multi-escalar, onde o Estado é o Sistema Operacional maior que deve cuidar do povo, assim como o chefe de família, um Programa menor, deve cuida dos filhos. Quando o Estado Chinês, e não empresas ou corporações, identificou a anomalia do Coronavírus, calculou o impacto e decidiu atuar ligando o Antivírus e acionando suas permissões para agir dentro do Sistema. Como primeira ação vem a informação aos Programas menores da ativação das permissões que valem para todo o Sistema. A população recebeu via redes de comunicação que vão de TVs Estatais e Redes Sociais chinesas e imediatamente aderiu ao comando. Isto tudo protegido juridicamente pelo sistema Civil Law chinês.

O Brasil é similar ao Sistema Chinês, não pelo Comunismo ou Socialismo “implantado pelo PT”, como propagam os bolsonaristas, mas pelo modelo Jurídico Constitucional (Civil Law). Apesar do Presidente do Brasil – Jair Bolsonaro (sem partido) que foi eleito somente após a prisão ilegal de Luis Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores) – ter feito de tudo para derrubar a estrutura de comando do Governo Federal na crise do Coronavírus, os brasileiros tiveram por curto tempo um ministro da Saúde, Luis Mandetta (DEM) como figura de comando. O que o ministro acionava como Permissões do Antivírus era comunicado à população que, em sua maioria, executou nas escalas menores dos Estados e Municípios: o isolamento social. Por mais que Bolsonaro tentou retirar o Antivírus instalado por Mandetta, o Supremo Tribunal Federal lembrou que no Brasil o Sistema Operacional é regido pela Constituição e não pelo Presidente. Bolsonaro mudou o Ministro da Saúde para resetar o Sistema. O que deseja Bolsonaro?

Firewall Militar

Bolsonaro somente foi eleito com apoio da elite militar brasileira, encabeçada por General Villas Bôas, General Augusto Heleno e General Amilton Mourão. Estes não desejam a manutenção do Antivírus, conforme os chineses; mas estão construindo outro modelo voltado à auto-execução do Sistema Operacional como o Windows da Microsoft de Bill Gates, onde já está tudo liberado, sem necessidade de Permissões, e a proteção é feita por meio de instalação de barreiras que dificultam a entrada de dados, controlando-os como o Firewall. Isso vem da compreensão de que a Internet é um mundo em chamas e para entrar no Computador deve passar por Portas de Incêndio que deixam passar dados, mas não o fogo.

Os militares brasileiros, tendo Bolsonaro como porta-voz, não querem eliminar o vírus, como já afirmou o Presidente em várias oportunidades. Eles buscam criar barreiras de controle multiescalares: intermunicipais, interestaduais, inter-regionais e internacional. Só entra quem passar pelas portas e provar que não é portador de vírus. No caso dos militares, além da doença Coronavírus, também há as “ideologias de esquerda”, “marxismo”, “comunismo”, “socialismo”, que pretendem impedir que a população receba, com medo do aumento da consciência de classe dos brasileiros que identificarão os militares como burguesia estatal similar ao judiciário. Justamente os poderes na democracia que não são eleitos pelo povo, como é o Executivo e o Legislativo.

Nelson Teich, o ministro médico-empresarial nomeado por Bolsonaro deverá fazer a transição mais acelerada que o anterior, saindo do sistema de Antivírus para o Firewall. Para tanto, irão utilizar seus mais queridos instrumentos: os militares da reserva e da ativa para ocupar cargos públicos, engordar seus salários e controlar a população em todos os cantos do país. Isto já aconteceu na ditadura militar de 1964 a 1985, e foi retomada por Bolsonaro em 2019 quando colocou militares como ministros, presidentes de fundações e autarquias, e até como técnicos do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Agora Bolsonaro quer os cargos dos Estados e Municípios para os seus militares onde pretende impor o Firewall para controlar o fluxo de pessoas em todo o país. Os Arapongas tecnológico-sanitários.

Firewall Militar Ocidental

Os militares brasileiros não inventaram este Sistema, mas seguem ordens do aliado maior de Bolsonaro, que é Donald Trump e seu Estado Profundo tecnológico-militar. O Coronavírus chegou nos EUA e até agora concentra maior número de casos e mortes na região de Nova York, e isso não parece a toa, pois é lá que se tomam decisões sobre o universo financeiro, em Wall Street, das Nações Unidas e, principalmente, do Conselho de Segurança da ONU, formado por EUA, França, Reino Unido, China e Rússia.
Trump, como Bolsonaro, deixou o Coronavírus se espalhar fazendo a população desacreditar da sua periculosidade. Porém, o Contrato Social e seus sistema de normas jurídicas dos EUA é diferente do Brasil e da China. Os EUA vivem em regime de Common Law, como no Reino Unido e suas colônias pelo planeta, onde cada Estado faz suas próprias normas, respeitando apenas breves artigos da Constituição Americana. Com isto, em alguns Estados não há proteção aos trabalhadores nem sindicatos, pois a Constituição estadunidense permite a livre negociação de contratos entre trabalhadores e patrões. Este Sistema Operacional auto-executável é chamado por eles de “liberdade” ou “liberalismo econômico”. A União Europeia foi levada – pelos EUA na estratégia Juscolonialista pós-2aGuerra – para o mesmo modelo jurídico dos EUA, onde cada país mantém sua cultura jurídica, mas respeita regras gerais da União. Poderíamos chamar de Estados Unidos da Europa.

Trump sabe que qualquer decisão que venha a tomar não pode ameaçar o regime de contratos individualizados que vige nos EUA. Os contratos comerciais de empresas seguem o mesmo modelo e, alterar isso, geraria guerra civil. Qual a estratégia do negociador Trump? Firewall para todo o Ocidente.

Ao assumir a presidência em 2017, Trump tomou como uma das primeiras ações de seu mandato a suspensão de acordos globais que os EUA tinham com Blocos Econômicos e apertou o botão de resetar o Sistema, passando a renegociar contratos diretamente país por país com novas cláusulas contratuais impondo tarifas e condições para negócios. Trump não construiu o muro na fronteira do México como prometeu em campanha eleitoral, mas criou uma muralha para antigos e novos contratos. Este Firewall de Trump, obviamente, deixou algumas portas de incêndio para acesso de países e organizações internacionais que aceitassem. Os militares brasileiros com Bolsonaro aceitaram todas em 2019.

Agora, com a crise do Coronavírus, Trump terá aceitação popular dos estadunidenses para instauração de Firewalls internos, colocando dificuldades para a circulação de pessoas de Estado para Estado, e deverá ampliar este Firewall para o Ocidente. Como seria isso? Simples. Basta o presidente dos EUA instaurar uma nova cláusula de barreira sanitária para trânsito e importações. Todos as empresas e países que quiserem manter os contratos com os EUA, terão que se adequar às novas cláusulas, que deverão ser de inspeção, desinfecção e quarentena para os produtos. E as pessoas terão que cumprir de 10 a 15 dias de isolamento e verificação se estão infectados com Coronavírus, ou passar por testes rápidos de identificação caros e imprecisos, que deverão ser renovados a cada estação de trem ou aeroporto.

Com um Firewall tecnológico-militar-sanitário, Trump fará nada mais nada menos do que frear o expansionismo chinês e o projeto de Nova Rota da Seda que está construindo ligações da China até a Europa via ferrovias, rodovias, portos e aeroportos. E ainda, desacelerará o avanço dos cérebros chineses que atuam nas obras e no comércio pelo mundo. Os chineses podem até eliminar o Coronavírus em território interno com seu sistema Antivírus, mas suas mercadorias e trabalhadores ao saírem da fronteira chinesa passarão por inúmeras barreiras sanitárias. Isto fará com que os EUA ganhe alguns anos na corrida pela hegemonia global que vinha perdendo, pois aquilo que se transportava em um dia, demorará mais 10, no mínimo, devido às barreiras.

Capitalismo e o controle digital dos corpos

O próximo passo até que os cubanos ou chineses descubram a vacina para o Coronavírus – o Anti-coronavírus – os EUA já terá instalado seu sistema Firewall técnico-militar-sanitário. E até lá Bill Gates e seus aliados do Farmaco-capitalismo, que são os que lucram com a doença – como Johnsons e Johnsons, P&G, Pfizer, Roche, Bayer e Sanofi – irão apresentar seus nanoBio-chips controladores de saúde. Os ricos do planeta que não desejarão se adaptar à cláusula do novo Contrato Social do Ocidente, irão se render aos nanoChips internos, instalados sob a pele, que trás o histórico de saúde do usuário. Assim, nos Firewall técnico-militar-sanitárias terão acesso rápido pelas portas de incêndio, pois provarão se nos últimos 15 dias tiveram febre.

Aos pobres, refugiados e migrantes em busca de emprego que hoje cruzam fronteiras a pé e arriscam suas vidas, terão mega barreiras digitais que os impedirão de buscar oportunidades, mas o capital estará livre para circulação. Neste mundo que deverá chegar até final de 2020, os nacionalistas que buscarem fortalecer internamente em suas fronteiras e retomar sua industrialização destruída pela globalização, copiarão ou o sistema Firewall dos EUA, ou o sistema Antivírus da China. O que jamais será descartado é o novo Contrato Social do século XXI: a financeirização dos corpos humanos.

Aos que estão em dúvidas se o Coronavírus surgiu num mercado de carnes exóticas ou num laboratório numa província da China; ou se foi uma arma biológica dos EUA para frear a expansão chinesa; nesta análise me parece que se trata mais uma etapa da Guerra Híbrida da maquinaria de guerra do Ocidente contra a humanidade: o controle de 99% dos corpos humanos para evitar o fluxo entre Blocos Econômicos e manter o a Economia Liberal de livre circulação de capital e mercadorias para continuar enriquecendo o 1%.

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Sobre Nuno Nunes 18 artigos
Filósofo, Escritor e Mestre em Educação e Comunicação pela UFSC, Doutorando em Planejamento pela UDESC. É colunista de geopolítica do portal Tribuna Universitária

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