Geopolítica: o Sindicato Militar no Brasil

Constituição Federal brasileira de 1988, Art. 142:
IV – ao militar são proibidas a sindicalização e a greve.

Quando uma pessoa vive em paranoia, ela apresenta sintomas de ansiedade, medo, desconfiança, amargura, sentimentos do isolamento, depressão, fadiga devido à preocupação constante. O alto comando das Forças Armadas brasileiras apresentam estes sintomas há décadas. Quais os motivos? Militares temem Militantes!

O Estado profundo

A palavra “militar” vem da prática milenar de solicitar voluntários aptos à guerra, que tivessem características de seguir ordens e buscar a justiça (olhos por olho, dente por dente, conforme a Lei de Talião, ou retaliação) para invadir outras populações e saqueá-las, dividindo parte do saque entre os escolhidos que recebiam o “soldo”, ou pagamento em ouro. Porém, descartar voluntários sem ferir suas honras e possibilidades de ganhos futuros nos saques era um problema para as cidades, e para tanto, o alto comando do “exército” (aqueles que mantém as tropas em “exercício”) faziam uma fila de voluntários e davam números selecionando apenas os que receberam o número “mil”. Daí: MILitar.

No Brasil os militares são uma forma comum de Estado profundo (Deep State). Este conceito surgiu em 1990, de acordo com o jornalista Robert Worth, “na Turquia, onde os militares conspiraram com traficantes de drogas e mataram homens para travar uma guerra suja contra os insurgentes curdos”(1). Basicamente é uma organização sólida dentro do Estado Nação que está sempre em exercício e pronta para defender a população de ataques externos, porém é usada para atacar internamente quando paranoicos assumem o alto comando.

A “reivindicação”

O que ocorre atualmente no Brasil é que as Forças Armadas vinham reivindicando aumento salarial logo depois que saíram do poder na década de 1980. Os soldados queriam mais soldo!Em 1988 foi proclamada a Constituição Federal, a Constituição Cidadã, que afastou os militares, porém deixou as portas abertas para intervenção militar em casos de garantia da Lei e da Ordem (CF88, Art. 142). E com os governos de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, as investigações dos crimes da ditadura estavam sendo levantados e colocados nos livros de história, e isto desagradou os Generais das Forças Armadas.

Mas, diferentemente de trabalhadores comuns, que tem na Constituição a forma de reivindicar melhoria de suas condições com SINDICATOS e GREVES, os militares não as tem, pois greve das Forças Armadas abriria os riscos do país ser invadido.

Vejamos (CF88):
Art. 8º É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte:
III – ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas;
Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.

Porém, quanto aos militares, vejamos:

Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República.
IV – ao militar são proibidas a sindicalização e a greve.

Este é o nó da mesquinharia brasileira dentro da Geopolítica mundial. Os militares brasileiros queriam aumento de salário e não podiam fazer greve ou organizar-se em sindicatos. Precisavam respeitar a hierarquia (CF88, Art. 142) que os subordina diretamente ao Presidente da República. Para aumentar o soldo o Sindicato Militar precisou derrubar uma presidenta, prender outro presidenciável, e colocar na lista eleitoral um fantoche, o então Deputado Federal Jair Messias Bolsonaro.

A “negociação”

Para organizar eleitoralmente a estratégia, foi preciso “criar o inimigo do Brasil” para colocar na boca do fantoche que a replicaria como sendo verdade mais de três vezes. Deste modo, os militares acusaram os militantes.

Militantes atuam politicamente por doação pela causa, sem soldo, sem pagamento, pois desejam a melhoria das condições de vida da população, e isto incomoda muito os militares pois retira deles a honra ao mérito de serem pagos para defenderem a pátria. Militantes defendem por amor ao povo.

Para os militares conseguirem seu aumento salarial, o General Villas Boas, somando-se a General Heleno e General Mourão, articularam o Estado Profundo brasileiro, bancaram a estratégia do inimigo “militante”, chamando-o de “comunista”, “socialista”, e estas acusações não colaram pois a população estava empregada e com Programas Sociais como Minha Casa, Minha Vida e Bolsa Família. A estratégia então passou a ser atacar os “militantes” com acusações de que o amor ao povo era falso, e que não passavam de simples “gananciosos e corruptos”. E a condição para que a estratégia militar funcionasse, era a prisão por corrupção do maior símbolo de militante do mundo: Luis Inácio Lula da Silva.

O herói de Villas Boas nesta estratégia seria um Juiz de primeira instância de Curitiba que depois seria integrado a um futuro governo junto aos militares. Este Juiz perseguiu, sem provas, os militantes e os prendeu, tentando acabar com sua atividade pela causa. Juiz este que também reivindicava aumento salarial, como muitos de seus pares.

Assinatura do “acordo”

O estopim da paranoia dos militares foi em 2015, quando Dilma Rousseff nomeou Aldo Rebelo para Ministro da Defesa. Rebelo era militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) desde 1977, época que atuou na Ação Popular contra a ditadura militar.

Em 2017, em sessão na Câmara com presença de Villas Boas, Bolsonaro, já escolhido pelos militares para ser o candidato a presidência, fala que gostaria de ver o General como Ministro da Defesa em 2019 e Villas Boas dá um sorriso maroto, denunciando o plano.

O cumprimento do “acordo”

Ao dar posse aos novos ministros militares (11jan2019), Bolsonaro agradeceu Villas Boas e afirmou que sem ele não teria chegado à presidência. Por sua vez, o Villas Boas disse que a eleição e posse do presidente Jair Bolsonaro representam a “renovação” e a “liberação das amarras ideológicas”. O discurso foi feito na presença de Bolsonaro e de várias autoridades militares e civis, incluindo ministros, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e a procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Sim. Foi o passo final do golpe “com Supremo e com tudo” que “estancou a sangria” com a retirada de militantes do poder e a ocupação por militares mesquinhos, anti-patriotas e que entregarão o pré-sal, a Eletrobrás e muitas outras riquezas do povo brasileiro em troca de aumento de salário.

O Sindicato Militar está destruindo o Brasil. As corporações estão adorando e querem roubar tudo o mais rápido possível e este é o cenário geopolítico em que o Brasil está enterrado, “pequeno de novo” com a volta dos militares ao poder.

(1) Worth, Robert F. (2016). A Rage for Order: The Middle East in Turmoil, from Tahrir Square to ISIS. Pan Macmillan. p. 139.

Sobre Nuno Nunes 18 artigos
Filósofo, Escritor e Mestre em Educação e Comunicação pela UFSC, Doutorando em Planejamento pela UDESC. É colunista de geopolítica do portal Tribuna Universitária

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