Já eram sete horas

Ilustração: João Rio

Já eram sete horas e eu tinha míseros dez minutos para estar pronto e no ponto de ônibus, dez minutos podem se tornar muito tempo se você estiver sentado esperando alguma coisa. No meu caso, dez minutos não eram, nem de longe, tempo suficiente. Eu ainda precisava, no mínimo, escovar os dentes e me vestir. Provavelmente ainda estava fedendo e minhas roupas sujas. Mas eu não me importava, não estava preocupado com o que iam pensar ou sentir em relação a mim.

Tinham outras duas pessoas no ponto. Uma velha, mais ou menos atraente, e um moleque que parecia ter a minha idade, mas que se vestia muito mal e provavelmente também não tinha dormido direito. Com apenas uma troca de olhares, pudemos perceber que estávamos atrasados e que havíamos perdido o ônibus. O próximo passaria dali a duas horas e eu tinha até oito e quinze para chegar na escola a tempo de entrar na segunda aula.

Eu podia voltar pra casa, dormir e aceitar o fracasso de ter perdido o último ônibus que me deixaria na escola a tempo, mas preferi estender meu dedo, pedir uma carona e torcer pra não encontrar nenhum maluco. Definitivamente não podia mais perder aulas, já tinha perdido metade das avaliações do trimestre e, se eu rodasse, teria de lidar com meus pais.

Então, esperei por longos e insuportáveis dez minutos, até que uma alma caridosa encostou seu carro e me perguntou  para onde eu ia. Por sorte, nossos caminhos se cruzavam. Fui convidado a entrar no carro.

O veículo tinha cheiro de desodorante, a motorista era jovem, bonita e parecia estar bem atrasada. Possivelmente esta minha impressão vinha da velocidade com que ela conduzia o carro. Ela não parecia estar com cabeça pra falar comigo, seu interesse estava nas mensagens do celular. O banco do carro surrado começava a aconchegar meu sono, mas o medo de não chegar a tempo me mantinha acordado. Ademais, eu já havia me acostumado há tempos a lutar contra o sono.

Eram oito horas e estávamos parados no último semáforo. Eu chegaria a tempo desta vez. A mulher encostou o carro de maneira tal que quase resultou em um desastroso acidente. Trocarmos algumas gentilezas, abri a porta rapidamente e saí correndo em direção ao cárcere.

A coordenadora, carcereira do meu corredor, me olhou subindo a rampa às pressas, com a mesma cara de merda que ela sempre me olhava. Cheguei atrasado de novo, nem me preocupei em escutar ela bostejando sobre minha irresponsabilidade. Depois de bater o ponto, entregar minha carteirinha, bati na porta da sala. O professor, que parecia um porco, suado com sua barba ruiva, estava entregando as provas. Ele não disse nada quando entrei.

Dei uma olhada no quadro com rabiscos da revisão que ele tinha passado na primeira aula e fui me sentar. Me pergunto como alguém ainda hoje pode ter uma barriga tão grande e não parecer gordo. Ele parecia forte, mas também uma criança escondida por baixo da camisa, que estava sempre encharcada de suor. Ele suava muito, muito mesmo, tanto que, ao final de cada quarenta e cinco minutos de uma aula, ele sacava uma toalha, secava a testa, que já tinha suado a ponto de escorrer e criar uma poça escrota no canto de sua mesa. Obviamente ele também fedia muito. Para além do suor, às vezes fedia a cachaça. Isso o fazia parecer ainda mais um suíno amargurado e nojento, que nitidamente odiava dar aula. Tanto quanto todos os seus alunos o odiavam.

A prova tinha sido a parte fácil do dia. Eu ainda teria que passar algumas horas com meus queridos amigos fracassados de sala. Com alguns até que eu tinha algum tipo de relação relativamente íntima, mas no fundo sempre foram para mim uns imbecis em uma busca insaciável por atenção. Eu me senti assim em relação a eles desde o começo do bimestre, quando comecei a me envolver com outras pessoas da sala.

Daquele chiqueiro eu nunca consegui acreditar que sairia uma amizade verdadeira. Com nenhum deles. Seres entediantes e, em suma, pessoas medíocres, sempre carregados de uma necessidade de aprovação por aqueles que admiravam, cheios de preocupações ordinárias sobre suas sexualidades.

Este era claramente um pensamento muito arrogante e deveras medíocre da minha parte, mas eu preferia alimentar minha baixa auto estima com essas ideias. Eu me colocava nesse lugar de superioridade e nele fingia que realmente era assim em relação aos outros.  Por sorte, nunca expressei tais sentimentos. Se o tivesse feito, teria sido merecidamente massacrado e excluído de quaisquer círculo social possível enquanto eu continuasse sendo quem eu fingia ser.

O recreio era a melhor parte do dia. S,e o lanche fosse pão e suco, minha diversão era garantida. Escapar dos olhos dos monitores enquanto furava a fila e comia proibidos seis pães era minha maior euforia pela manhã. Meus amigos riam e comiam os outros três pães que eu tinha pego com minha mão leve, sem que a merendeira viesse nem mesmo suspeitar. Quando o banho de sol acabava, voltava todo mundo pra caverna escura e fria que era a sala, para alguma viagem ao holocausto guiada pelo meu professor de biologia judeu, que devia falar sobre mitocôndrias, mas gostava mesmo de contar sobre seus avós perseguidos, o que acontecia sempre que algumas provocações propositais eram feitas, para que perdêssemos mais uma aula.

No fim do dia, eu já estava exausto e não via a hora de ir pra casa. Sempre me chamavam pra passear ou fumar maconha pelo centro, Massimo desregulado não me permitiam. Eu tomava um ônibus pra casa e dormia o restante do dia. Quando acordava já era noite. Passava a madrugada perdendo tempo e sequer cogitava mudar minha rotina. Eu não desgostava dela, na verdade.

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Diretor na Gambino Productions, fotógrafo e estudante

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