Não venda sua alma para o diabo! Os rankings universitários nunca estão sozinhos

A intelligentsia progressista e democrática brasileira, defensora da universidade pública e gratuita como direito social, parece estar diante de dilemas existenciais que tem levado muitos a utilizar ferramenta essencial do sistema para, de forma aparente, contrapor o próprio sistema.

Em meio aos ataques sistemáticos contra a universidade, a ciência e o conhecimento organizado historicamente pela humanidade, tem-se lançado mão de instrumentos que reforçam modelos contrários àqueles que se pretende defender com o uso desses instrumentos.

Refiro-me aqui ao uso de rankings de todo tipo para legitimar as universidades públicas e sua produção, contra o obscurantismo conservador-liberal que assola o país e ataca a instituição em seus valores e lugar histórica e socialmente constituído.

Todos sabemos que os rankings são instrumentos assentados sobre os pilares de uma sociedade competitiva, que visam identificar e classificar segundo critérios assépticos baseados em produtos que desconsideram a relevância dos processos vivenciados e produzidos pelas e nessas instituições, forçando sua colocação em posição de total concordância com o sistema vigente, ou seja, sem nenhuma contraposição, ou melhor, deslegitimando qualquer contraposição.

O produtivismo acadêmico, a hegemonização metodológica e o pragmatismo gerencial, sufocam a crítica e constroem sua legitimação como única forma de verdade, relegando a contradição, extremamente necessária à constituição de sociedade democráticas, a posições simbolicamente tratadas como ideológicas, não científicas e doutrinantes.

Me parece que, no que diz respeito a formas de defesa das universidades, da ciência e do conhecimento historicamente sistematizado pela humanidade, estamos diante de dilemas existenciais complexos.

O uso dos rankings para defender nosso projeto produz tenebrosos calafrios, o que nos leva a pensar que estamos diante do reconhecimento de firma numa espécie de pacto fáustico tupiniquim contemporâneo que, embora ofereça, no presente, respostas aos dilemas atuais, produzirá uma grande tragédia no futuro, tornando-se tarde demais para voltar atrás quando dele nos dermos conta.

Sobre Rafael Pereira 15 artigos
Doutor em Educação na UFPR. Mestre em Métodos e Avaliação (UFSC). Pedagogo (Unicamp). Editor da seção "Opinião" do Tribuna Universitária. Editor da Enunciado Publicações e autor do blogue Lendo o Mundo.

Seja o primeiro a comentar

Comente!