Negacionismo e teorias de conspiração podem afetar decisões na pandemia, alertam cientistas brasileiros

FOTO: BEN BLENNERHASSET / UNSPLASH

Adotar medidas que preservem a saúde mental é uma estratégia-chave para o melhor enfrentamento do impacto causado pela pandemia do novo coronavírus. A observação é de médicos psiquiatras de instituições do Brasil, Portugal e Estados Unidos em editorial publicado na “Revista Brasileira de Psiquiatria”, em 3 de abril. Os autores representam a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Associação Psiquiátrica da América Latina (APAL), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), Universidade FUMEC, assim como a Universidade do Texas, nos Estados Unidos, e Universidade do Porto, em Portugal.

Os autores, liderados pelo médico psiquiatra e presidente da ABP, Antônio Geraldo da Silva, listam alguns tópicos em saúde mental que eles acreditam ser alvos de atenção diante da covid-19. São recomendações que, segundo eles, visam reduzir a angústia e ansiedade geradas pela pandemia.

“Milhares de pessoas inundaram o sistema de saúde, enquanto outras correram para os supermercados na tentativa de impedir a escassez de suprimentos. Medidas eficazes de quarentena, isolamento e distanciamento social preventivo são componentes essenciais para gerenciar crises neste período”, ressalta Silva.

No entanto, a restrição de mobilidade implica em desafios que devem ser superados. “É comum, em meio a uma pandemia, que muitos demorem a entender a importância do isolamento imediato, ou, mesmo depois que essa importância é compreendida, acabem resistindo à adoção de medidas mais restritivas. Não é fácil abster-se de uma atividade prazerosa ou de algo que consideramos importante”, explica.

No editorial, que traz uma revisão da literatura, os autores destacam que, diante de uma pandemia, é comum surgir alguns estilos de tomada de decisão cognitiva, como “negacionista” (que nega evidências científicas e baseia posições em teorias da conspiração), “inumerável” (não consegue entender matemática e números, como dados epidemiológicos, na tomada de decisão), “descontração” (toma decisões de acordo com o que os outros estão dizendo) e “heurístico” (estabelece suas conclusões a partir de informações isoladas e insuficientes e faz generalizações excessivas para proteger as próprias certezas). Segundo os autores, surgem pensamentos como “isso não vai acontecer comigo”, “eu não faço parte do grupo de alto risco” e “ainda não estamos na fase mais perigosa da curva”.

Grupos mais vulneráveis

Segundo os autores, uma parcela importante da população é afetada por vários transtornos mentais. Considerando apenas os transtornos do humor e a ansiedade, mais de 25% da população em geral será afetada por uma doença mental durante a vida e, portanto, é mais vulnerável a estressores ambientais que afetam a tomada de decisão. Cuidar de pacientes é uma necessidade imediata e urgente, que não pode ser adiada para um período pós-crise. Portanto, reforça Antônio Silva, médicos e outros profissionais de saúde sofrerão o impacto do risco de infecção e os efeitos da exaustão e do esgotamento.

Aos profissionais de saúde, os autores recomendam que se adote uma comunicação clara e objetiva sobre o que está acontecendo, além de estimular a criação de redes de solidariedade para fornecer medicamentos e mantimentos para idosos que moram em casa; compilar e divulgar listas de estabelecimentos que ainda fornecerão seus serviços e produtos enquanto fechados; envolver-se em intensa comunicação por meio de mídia, realizar aulas on-line e atividades de educação a distância, assim como disseminar conteúdo de alta qualidade, como museus com coleções digitais.

Seja o primeiro a comentar

Comente!