Notícias oficiais e dados superficiais para reforçar narrativas

Print da tela com a tag Educação da Agência Brasil em 05 de março

Como efeito de uma procrastinação crônica, e também para fazer a pauta de uma série de vídeos no meu canal do youtube, a “questão de ordem NEWS”, adquiri o hábito de seguir a tag “educação” no google notícias. De modo especial, por se tratar da agência nacional pública de notícias, ligada à Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), sigo a mesma tag na Agência Brasil.

Por vários motivos a série de vídeos e o canal no youtube estão parados, assim como a ideia de ler criticamente as notícias semanais da educação e compartilhar uma crítica via youtube e/ou texto. Atualmente, a leitura de notícias na internet tem sido feita de forma rápida apenas para não ficar totalmente por fora das “tretas”, sim, “tretas”, pois as declarações do presidente e do ministro geram uma cadeia de acontecimentos que a gíria sintetiza bem.

Mesmo assim, hoje, dia 05 e março de 2019, em um intervalo de leitura, eu resolvi entrar na tag da Agência Brasil pra ver o que está na “capa” das notícias da área pós carnaval.

Logo de cara já dá para ver o “vai-e-vem”, “finge que vai e acaba não indo”, gerado pela carta-panfleto do Ministro da Educação para que as escolas cantem o hino nacional, ouçam o slogan de campanha do Presidente e ainda sejam filmadas. A Agência Brasil registra em quatro notícias o movimento do MEC de ter uma ação divulgada e voltar atrás após repercussão ruim. Aliás, esse movimento, já pode ser chamado de traço característico do governo já que vem ocorrendo cotidianamente em várias áreas.

Outras duas notícias também chamam atenção. Na primeira: “Bolsonaro diz que haverá ações na educação para conter irregularidades” noticia-se as tuitadas do Presidente (!!!) sobre os fortes indícios que ele disser ter de que os recursos da educação não estariam sendo usados em favor do interesse do país. Sem entrar no mérito da matéria, pois já tem boas abordagens sobre isso na internet, destaco a fonte da notícia, que é a tuitada do Presidente, nessa e em outras matérias sobre o mesmo tema.

Essa abordagem da cobertura jornalística do Presidente é, em boa medida, consequência da sua postura antidemocrática de não falar com a imprensa. Ele praticamente se comunica somente através de seu Twitter, que já vem sendo apelidado de Tuítter Oficial da União.

Bolsonaro, além das pinimbas em que se mete com outros “tuiteros” ou com festas populares (sic!), adianta projetos que serão priorizados em seu governo pela rede social mais superficial que temos, pois, os caracteres são limitados e a leitura é forçadamente dinâmica.

A Segunda notícia é do Ministro da Educação e em sua manchete já se pode prever mais uma guerra virtual contra o Colombiano polêmico. Em, Ministro defende mais alunos nas salas das universidades públicas, se noticia a participação de Ricardo Vélez na audiência pública no Senado Federal em que ele tratou de vários temas, porém a novidade foi dizer que não vê “(…) por que no nosso Brasil não podemos aumentar um pouco mais o número de estudantes na sala de aula”.

 

Assim como na matéria que noticia a tuitada de Bolsonaro há um link com dados educacionais que são apresentados de forma generalista e descontextualizada, induzindo uma correlação causal que pode não existir, e muitas vezes não existe!

Dessa vez se diz que a média de estudantes em sala de aula nas IES públicas é de 12 por docente e nas IES privadas 30. Ora, pra quem conhece o ensino superior, essa conta não fecha, justamente porque usa a média, uma medida descritiva que tem muitas limitações e “esconde” uma série de informações muito mais relevantes.

Abordar dessa forma, confunde e não informa, serve apenas para reforçar uma narrativa.

 

 

Sobre Rafael Pereira 15 artigos
Doutor em Educação na UFPR. Mestre em Métodos e Avaliação (UFSC). Pedagogo (Unicamp). Editor da seção "Opinião" do Tribuna Universitária. Editor da Enunciado Publicações e autor do blogue Lendo o Mundo.

Seja o primeiro a comentar

Comente!