O Fascínio pela Revolução dos Cravos e a esperança por dias melhores

Manifestação do 25 de Abril de 1983 na cidade do Porto (Foto: Henrique Matos)

Por: Glauco Costa de Souza, Professor e Doutor em História Social (USP)

Há 46 anos em Portugal, em 25 de abril de 1974, teve fim uma das maiores ditaduras civis, herdeira dos movimentos fascistas do início do século XX. Marcelo Caetano, último presidente do Conselho de Ministros do regime salazarista, foi destituído do cargo por uma onda revolucionária que recebeu o nome de Revolução dos Cravos, pois os portugueses, em sinal de apoio aos militares, depositavam cravos vermelhos nos canos dos fuzis. No Brasil e em Portugal, jornalistas e celebridades do campo político e artístico recordaram o movimento com nostalgia e esperança. Chico Buarque, ao comentar sobre o adiamento da entrega do prêmio Camões, declarou: “[…] esta tarde, deixarei na janela cravos vermelhos e cantarei em alto e bom som Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso. Se possível, peço ainda a vocês que guardem o pensamento dos seus irmãos brasileiros que estão mais do que nunca necessitados do cheirinho de alecrim”. Qual a carga simbólica desse movimento revolucionário para os grupos da esquerda no Brasil?

A Revolução dos Cravos marcou o fim de um regime autoritário instalado no dia 28 de maio de 1926. Descontentes com a Primeira República Portuguesa, militares e grupos conservadores instalaram um regime ditatorial no país. Em 1928, o professor de economia da Universidade de Coimbra, António Oliveira Salazar, assumiu o ministério das finanças e recuperou a economia. Conquistando popularidade, em 1932, comandou a transição de uma ditadura militar para uma ditadura civil corporativa, tornando-se o presidente do Conselho de Ministros do Estado Novo. Inspirado pelo fascismo europeu e apoiado pela Igreja Católica, desenvolveu o nacionalismo ao adotar medidas protecionistas e isolacionistas, o que acarretou retrocessos no plano político, econômico e cultural. A repressão aos inimigos amparou o regime que, em 1933, criou a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), renomeada, em 1945, como Polícia Internacional e Defesa do Estado (PIDE). Mesmo em face à tortura e à censura, a oposição foi intensa, tanto pelo Partido Comunista Português (PCP), na ilegalidade, quanto pelos trabalhadores. A partir de 1945, com o início da descolonização africana, o regime salazarista deflagrou uma guerra contrária à autonomia política de suas colônias, com custos econômicos e perdas humanas. Em 1968, após a morte simbólica de Salazar, em decorrência de um acidente doméstico, Marcelo Caetano assumiu o comando do regime e sinalizou com promessas de modernização econômica e descompressão ditatorial. Contudo, o prosseguimento da guerra colonial gerou insatisfação entre oficiais médios e capitães das Forças Armadas, que, nessa época, se aproximavam da ideologia comunista.

Foto: Ithmus ((reprodução)

Recessão econômica, descontentamento da classe trabalhadora, perseguição política e guerra colonial foram, portanto, o estopim da Revolução dos Cravos que, na madrugada do dia 25 de abril de 1974, ao som de Grândola, Vila Morena, tocada pela rádio Renascença, derrubou o regime salazarista sob o comando do Movimento das Forças Armadas (MFA). À época, o cineasta Glauber Rocha participou de um documentário que retratou a movimentação nas ruas de Lisboa, entrevistando trabalhadores, presos políticos, militares e pobres da capital. Foi notório na fala desses personagens o retrato da pobreza, do desrespeito com a condição feminina e do extermínio decorrente da guerra colonial. Apesar do baixo grau de instrução da população, fruto da própria ditadura, o povo conduziu o movimento revolucionário junto com os militares. Uma combinação estranha para nós brasileiros.

Após esse movimento revolucionário inicial, uma Junta Nacional de Salvação comandou Portugal por dois anos. Tentativas de golpe no campo político foram constantes, ora liderados por grupos conservadores ora progressistas. Mesmo com o PCP perdendo força política e o Partido Socialista (PS) se aliando à direita e aos militares moderados, as reivindicações da população portuguesa e as pautas socialistas foram conquistadas. Ocorreram a nacionalização de empresas, a cassação de torturadores e servidores do Estado Novo, bem como a independência das colônias africanas. Evidencia-se, inclusive, o caráter socialista da constituição de 1976, cujo preâmbulo assegura: “garantir a transição para o socialismo”; “promoção da qualidade de vida e do bem-estar do povo”; “transformação da estrutura econômico-social”; “socialização dos principais meios de produção” e “abolição da exploração do homem pelo homem”. Em entrevista, o professor Antônio Costa Pinto enumerou as heranças da Revolução dos Cravos à nação portuguesa: implementação do Sistema Nacional de Saúde; redução na taxa de analfabetismo; conquista de pautas femininas (inserção no mercado de trabalho, direito ao aborto e direito ao divórcio); tolerância étnica, racial e migratória; casamento e direito à adoção por pessoas do mesmo sexo; descriminalização do consumo de drogas e estabilidade econômica, com a interferência econômica do Estado.

Tais fatos tornam compreensível o fascínio que os grupos de esquerda possuem pela Revolução dos Cravos. Contudo, é utópico pensar em uma aproximação entre as forças armadas e o pensamento socialista, ou na união do exército com o povo, em busca de melhores condições de vida e distribuição igualitária da riqueza no Brasil. Da mesma maneira, pensar na formação de um Estado Social preocupado menos com o desenvolvimento do capitalismo e mais com a desigualdade social, cujas políticas públicas resolvam nossas mazelas sociais, como a fome, a violência, o extermínio da população negra, entre outras questões. Resta, pois, o “cheirinho de alecrim”, que representa a esperança por superação da triste realidade da nossa política que, diga-se de passagem, vivem dias tenebrosos. Viva a Revolução do Cravos! 

Referências

BRUNEAU, Thomas Charles. Constituição: O caso de Portugal. São Paulo: Lua Nova. Vol. 3, n. 2, 1986.

MARTINHO, Francisco Carlos Palomanes. A Revolução dos Cravos e a Historiografia brasileira. Rio de Janeiro: Estudos Históricos. vol. 30, no 61, p. 465-478.

PINTO, António Costa. 25 de Abril – 40 anos. Lisboa: Clube do Colecionador dos Correios, 2014.

PINTO, António Costa. Como mudou Portugal com a Revolução? Entrevista concedida ao jornal EFE Portugal no dia 23 de abril de 2019. Site: https://www.efe.com/efe/portugal/portugal/como-mudou-portugal-desde-a-revolu-o-dos-cravos/50000441-3958703. Acesso: 27 de abril de 2010.

RAIMUNDO, Filipa. Partidos políticos e justiça de transição em Portugal: o caso da polícia política (1974-1976). In: MARTINHO, Francisco Carlos Palomanes; PINTO, António Costa (org). O passado que não passa: a sombra das ditaduras na Europa do Sul e na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. 

1975 – As Armas E o Povo. Realização: Colectivo dos Trabalhadores da Actividade Cinematográfica. Produção: Sindicato dos Trabalhadores da Produção de Cinema e Televisão.

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