O professor deve chegar primeiro no Youtube e indicar aos seus alunos conteúdo de qualidade, afirma Icles Rodrigues do canal Leitura ObrigaHistória

Icles Rodrigues (Divulgação)

O historiador, pesquisador e doutorando em História, Icles Rodrigues, mantém um canal de Youtube e um podcast voltado para o público que se interessa em história e ciências humanas. Com quase 200 mil inscritos na data da publicação dessa matéria, o canal se destaca pela qualidade de seu conteúdo, o apreço com as fundamentação e também pela boa produção audiovisual.

O canal trata de temas que, surpreendentemente, tem sido polêmicos atualmente, como por exemplo ditadura militar no Brasil e nazismo, assim como de conceitos e eventos históricos. Além de história de um modo geral, no canal há também conteúdo de Antropologia, Sociologia, biografias, em especial de mulheres na história e valiosas dicas de livros.

Icles conversou com o Portal Tribuna Universitária em uma entrevista muito interessante na qual foram abordados temas como discurso de ódio, haters, o papel o Youtube na sociedade e perante à juventude, a fronteira do real e do irreal nessa sociedade da informação, assim como seu potencial para contribuir com o ensino nas escolas.

Essa é a segunda entrevista das séries em que conversamos com influenciadores digitais para ajudar nossos leitores e nossas leitoras a compreender os fenômenos sociais que atingem nosso cotidiano. A primeira foi com uma das editoras do Canal Mimimidas, Clara Matheus. Esperamos que gostem como nós gostamos. Confira abaixo a entrevista completa

Mariane Pisani (quadro Antropológica), Icles Rodrigues e Luanna Jales (quadro Mulheres na História)

Oi Icles. Em primeiro lugar, quero agradecer sua disposição em conversar conosco, dar uma pausa nos seus estudos de doutorado e na agenda de trabalho e responder nossas perguntas. Estamos muito envolvidos em contribuir com um processo de reflexão, sobre o fenômeno que vem ocorrendo que é a influência da internet na vida das pessoas individualmente e na sociedade.

Antes de iniciar as perguntas, você pode falar um pouco qual sua trajetória até aqui?

Primeiramente obrigado pelo espaço. O canal começa em 2015, mas ele foi o desdobramento de um blog que eu fiz em 2009. No final da minha primeira fase da graduação eu estava empolgado com as leituras e me veio a ideia de fazer um blog pra fazer resenha dos livros que eu estava lendo. Os livros que eu conseguia ler completos. Mesmo que na faculdade tenha muita leitura fragmentada eu, às vezes, matava essa leitura e lia obras completas e então fazia as resenhas e publicava no blog, até que me cansei e o projeto ficou parado até que me ocorreu de fazer a mesma coisa que fazia no blog, só que em vídeo.

Inspirado em alguns canais que eu acompanhava iniciei esse canal, de maneira muito precária e com pouco conhecimento… mas comecei do jeito que deu…fazendo vídeos de resenhas de livros… Aos poucos eu fui diversificando o conteúdo e acrescentando novos quadros…Com o tempo o canal foi crescendo e com participação em outros canais, como o do Pirula e a divulgação na internet, por exemplo no canal café história e jornal Nexo, foi trazendo mais inscritos até chegar no patamar atual.

Como surgiu a ideia, de fazer um podcast?

Esse ano, depois de muita insistência, resolvemos fazer um podcast, que inicialmente eu não queria fazer, então estabeleci uma meta na nossa campanha de crowdfunding e quanto mais eu pensava na ideia, aos poucos começava a surgir mais vontade de fazer podcast, até que decidi diminuir a meta da campanha de financiamento coletivo e então ela foi atingida e o podcast começou. Atualmente eu tenho investido um pouco mais no podcast do que no canal, mas como os episódios do podcast também vão para o canal, eu alterno: uma semana vídeo outra podcast.

A repercussão do canal tem atingido as expectativas que você tinha quando iniciou?

Quando eu comecei o canal era só um teste, em 4 de agosto de 2015. Eu não achei que ia durar mais de um ano no Youtube. Eu já estava um pouco cansado e desmotivado, até que divulgaram nosso canal em umas páginas de Facebook grandes e pulamos de 192 para mais de 800 inscritos em dois dias. Foi quando tive um ânimo para continuar. O canal superou minhas expectativas, já o podcast está dentro das minhas expectativas com uma boa audiência para o começo.

Aproveitando esse gancho da repercussão do canal… O público do podcast é o mesmo do canal no Youtube?

Pelas informações que eu tenho, por manifestações nas minhas redes, o meu público no podcast está incluso no público do canal, mas o público do canal é maior. Tem pessoas que nem sabem ainda que temos um podcast. Esse fenômeno é devido aos algoritmos dessas plataformas que forçam os produtores de conteúdo a pagar pelo impulsionamento.

Fale um pouco do seu público. São muito jovens? Adultos? Universitários? Quem vocês influenciam?

A faixa etária do nosso público, de acordo com dados da plataforma a maioria está entre 25 e 30 e alguma coisa… na faixa dos 20 e 30 anos. A maior parte do público ou é graduando de história ou outro curso da área de humanas ou que tem interesse em um conteúdo um pouco mais aprofundado a partir de uma lógica acadêmica.

Tem muito hater?

Quando o canal começou a crescer começou a aparecer os comentários de ódio. Foi então que eu decidi que todos os vídeos do canal seriam lançados com moderação de comentários. Eu moderava todos os comentários de todos os vídeos e ainda faço isso de certa maneira. Então, toda a vez que aparece um hater eu bloqueio na hora para não dar a chance dele continuar ali. Mesmo assim tivemos muitos haters durante esses quase quatro anos, só que nenhum deu trabalho por muito tempo porque sempre fiz questão de bloquear antes.

A que você atribui esse fenômeno de odiadores nas redes sociais, em especial no Youtube. Isso tem alguma transferência para comportamento social real ou é consequência do clima de ódio e extremismo das pessoas ultimamente?

O hater sempre existiu, mesmo antes do acirramento político iniciado em meados de 2013, só que percebo que é um comportamento que ampliou. Outra coisa que percebo, inclusive conversando com quem está há mais tempo nisso do que eu, é que até pouco tempo atrás nós éramos consumidores passivos de conteúdo audiovisual.

Nós recebíamos essa informação da TV e não havia muito contraponto e discussão pública sobre isso, fora o boca-a-boca ou coisas do tipo. Nós éramos acostumados a lidar com formadores de opinião, âncoras de jornal, colunistas, artistas, etc. Conforme as redes sociais foram se expandindo, especialmente nessa década, o fato de que hoje nós somos consumidores ativos, vamos atrás do que queremos ver e ouvir, aos poucos vai criando um ambiente que é cada vez mais intolerante à discordância em relação ao conteúdo que consumimos.

Por um lado, eu entendo porque somos bombardeados o tempo todo com muitas informações quando frequentamos as redes sociais e chega num ponto de estresse que você se coloca numa bolha propositadamente, até para manter uma sanidade mental. O problema é que se você está numa bolha e não tem a maturidade para entender que é preciso se abrir ao contraditório, se cria uma mentalidade de intolerância ao pensamento distinto.

O hater de internet não é quem está lutando por uma pauta política, por convicção. Ela odeia o sujeito de forma injusta. Isso é sintomático de um contexto em que somos consumidores ativos de conteúdo e por isso vamos atrás apenas do que queremos ouvir e nos é agradável. Consequentemente isso amplia o ambiente de intolerância. A internet permite que nos juntemos em grupos que pensam igual, e isso amplifica a intolerância e o fenômeno do hater, que já existia, mas que se ampliou com o acirramento da polarização política na sociedade, mesmo não vindo dele, a ampliação do hater é também reflexo desse acirramento.

(…) o maior problema das redes sociais não é o anonimato, mas os mecanismos que ela oferece para você fazer parte de um grupo, e esse grupo pode ser extremamente nocivo. A facilitação da mobilização coletiva em prol do ódio é o maior problema das redes sociais (…)

A impressão que eu tenho, principalmente agora ouvindo você, é que as redes sociais deram voz e oportunidade para esse discurso de ódio, colando questões que antes não colocavam, por amarras sociais…

Uma coisa que é importante dizer é que o anonimato ajuda, mas muitas pessoas que se manifestam com discurso de ódio não se escondem no anonimato. São pessoas que acham que por serem “irrelevantes no tecido social” não vai acontecer nada, tem uma questão da impunidade. Mas tem uma outra questão que vai além do anonimato e da impunidade, que é a sensação de pertencimento. Antigamente um sujeito que falasse uma besteira do tipo “o holocausto não existiu”, teria rejeição ou indiferença de seu círculo social. Porém, esse sujeito tem, atualmente, mecanismos de encontrar outros sujeitos que pensam como ele.

Por isso penso que o maior problema das redes sociais não é o anonimato, mas os mecanismos que ela oferece para você fazer parte de um grupo, e esse grupo pode ser extremamente nocivo. A facilitação da mobilização coletiva em prol do ódio é o maior problema das redes sociais, pois através disso se pode validar o sentimento de ódio e criar laços a partir dele, cortando laços com grupos sociais que potencialmente freiam pelo menos ações de ódio.

Por isso eu fechei os comentários no canal, mesmo que isso prejudique o engajamento e a audiência, pois não quero contribuir com essa rede de mobilização de odiadores, notícias falsas e pseudociência que poderiam usar os comentários do canal como palco.

Barraco dá audiência, há interesse das pessoas em ver o circo pegar fogo… desde o tempo da TV os programas de fofoca e barraco fazem sucesso, é uma lógica que foi transmitida pro Youtube

Recentemente foi publicada no Le Monde uma pesquisa que indica a incrível influência do Youtube nas eleições de 2018, principalmente através de links veiculados via Whatsapp. A pesquisa mostrou, dentre outras coisas, que o principal disseminador de ideias, informação, desinformação e narrativas nas eleições foi o Youtube. Esse é um poder real da plataforma ou foi o fator eleição e Steve Bennon que inflou o Youtube?

A plataforma do Youtube é uma faca de dois gumes, você pode usar as ferramentas e mecanismos do algoritmo tanto pra alcançar mais pessoas para um bom conteúdo mas também para um conteúdo de ódio. Por isso não vejo que seja apenas culpa do Steve Bennon, mas o público é o causador desse problema. Barraco dá audiência, há interesse das pessoas em ver o circo pegar fogo… desde o tempo da TV os programas de fofoca e barraco fazem sucesso, é uma lógica que foi transmitida pro Youtube. Não é à toa que um dos maiores canais no Brasil é o Treta News, que vive de falar de brigas de youtubers.

Os canais de odiadores, como Nando Moura, por exemplo, não cresceram por causa de opinião política, mas porque venderam ódio a outras pessoas e a plataforma não derruba um canal desse porque ele dá audiência e o objetivo dela é ampliar a audiência e vender propaganda. E o ódio e a briga entretém o público que apenas busca esse tipo de entretenimento, numa lógica que favorece a ampliação do sucesso de vídeos com mais engajamento, não importando se é hater ou discurso de ódio, ou conteúdo sério.

Outro fato que é perceptível e essa pesquisa do Le Monde, de alguma forma, também confirma, é a apropriação da internet pela direita. Como você avalia essa constatação? A direita e o que lhe faz margem, realmente se apropriou da internet e suas ferramentas?

Eu não tenho dados coletados por mim mesmo, mas baseado na minha experiência eu não tenho dúvida que a direita foi muito mais habilidosa em ocupar esse espaço que a esquerda. Em parte, porque a esquerda é muito fragmentada e a direita tem uma boa capacidade de unificação para atingir seus objetivos.

A direita identificou no antipetismo um alvo comum e tudo que podia ser associado ao petismo, mesmo que não fosse, criou uma rede de solidariedade na internet se auto engajando. A direita soube ocupar esses espaços e estava unificada e também tem apoio financeiro. Requisitos que a esquerda não tem. Então a direita conseguiu ocupar bem esse espaço, chegaram primeiro e se tornaram melhor articulados, o que torna muito difícil de contra-atacar.

Até onde podemos dizer que o discurso de direita cresceu na sociedade por causa da internet? Ou ele cresceu na internet por causa de sua expansão na sociedade?

Ele não cresceu por causa da internet, pois muito dos discursos que temos nas redes sociais hoje já víamos na grande mídia, como veja e grandes jornais e blogs de colunistas de direita como por exemplo Rodrigo Constantino. Por isso não foi algo que começou na internet, mas a internet virou um veículo para que essas coisas se popularizassem, especialmente dentre o público jovem. Inclusive atribuo o crescimento do discurso conservador dentre os jovens à internet, mas o discurso ideológico de desconstrução da esquerda já ocorria antes através das mídias tradicionais, a internet popularizou.

O ambiente de ignorância que estamos vivendo não aconteceu do dia pra noite, ele foi construído, pois isso o contraponto a isso não vai ser possível do dia pra noite

O Leitura Obrigashitória faz parte da rede de canais Science Vlogs…Isso demonstra a preocupação que vocês tem com o conhecimento e a informação baseada em fatos e fundamentada. Como você tem visto e enfrentado o desafio da credibilidade diante do fenômeno da verdade autorreferente ou baseada no viés da confirmação de crenças?

Desde os primórdios do canal eu produzo meus conteúdos baseado no que é produzido na academia. Porém, eu acredito que tem pessoas que não tem como atingir, pois elas não acreditam na academia e não querem estar erradas. Eu não tenho a energia pra tirar as pessoas dessa ignorância que elas se colocam.

Infelizmente a única coisa que posso fazer é produzir conteúdo baseado em bibliografia, em consensos acadêmicos que existem sobre determinados temas e explicar de forma fundamentada porque determinada informação está errada, quando é possível. O ambiente de ignorância que estamos vivendo não aconteceu do dia pra noite, ele foi construído, pois isso o contraponto a isso não vai ser possível do dia pra noite. Temos que ir construindo na esperança que no futuro as coisas melhorem, mas no curto prazo não vejo saída.

Não temos dados sobre o comportamento do público no Youtube, mas quem acompanha sabe que há um público infanto-juvenil enorme que assiste os grandes canais, inclusive os ideológicos, tanto pra entretenimento como pra se informar ou até estudar pra “prova de amanhã”… Essas mesmas crianças frequentam escolas antiquadas e tem professores que não estão familiarizados com esse mundo…você acha que é possível pra educação tradicional, imprensa tradicional ou outros canais de diálogos tradicionais, se religar com o jovem?

Se pensarmos na TV, por exemplo, ela só consegue se conectar com a juventude hoje em dia através de conteúdo de entretenimento, que muitas vezes nem é consumido diretamente pela TV, mas indiretamente pela internet.

Com relação ao ensino, eu penso que uma coisa que poderia ajudar, a longo prazo, seria os professores começarem a caçar o conteúdo, chegar primeiro no conteúdo do Youtube e recomendar esse conteúdo para seus alunos estudarem em casa.

Também é preciso que o conteúdo das avalições e das aulas estejam também referenciados nos vídeos que o professor indicar, pois assim garante que o aluno assistirá aquele vídeo específico que o professor já atestou a qualidade e não outro, sobre o mesmo conteúdo, mas cheio de informação falsa ou mal apurada. Direcionando o estudante para conteúdo de qualidade que ele já fez a curadoria.

Nessa esteira da religação com a juventude, pensando em influenciar as novas gerações, que hoje tem 13 e 14 anos hoje e que consomem conteúdo, principalmente do Youtube e no Instagram. O se poderia fazer, para ao menos frear ou contrapor com qualidade o avanço do Fascismo e discurso de ódio dentre a juventude?

Acredito que dependemos ainda da sala de aula. Acredito que precisa se promover a alteridade, contato com o diferente, sociabilização, conhecimento. Por experiência própria, considero que alguns comportamentos de preconceito são motivados por ignorância e pela falta de convivência em um ambiente de normalização da diferença. Precisa fazer um trabalho de base nas escolas, levar os alunos a entender por si qual é o problema do preconceito e da opressão, sem impor, fazer os alunos pensarem por si mesmos.

O real é o que as pessoas acreditam que seja.

Bom, caminhando pra finalizar nossa entrevista, quero fazer uma última pergunta que me instiga muito, em relação a tudo que estamos vivendo e gostaria que você desse sua opinião: De tudo isso que está acontecendo…O que é real e o que é etéreo? Pergunto isso porque no mundo da internet existe muita inteligência artificial, bots, perfis falsos e muita estratégia de marketing, pra impulsionar e mobilizar emoções… Assim, penso que existe sempre uma nuvem de fumaça, que as vezes é o que vemos primeiro… Mas embaixo dela há uma materialidade…Na sua opinião… O que é que podemos realmente considerar que vai ficar dessa fase?

O real é o que as pessoas acreditam que seja. As pessoas são levadas a acreditar que ameaças ilusórias são reais. Isso faz com que essas pessoas apoiem medidas contra esses espantalhos, contra esses moinhos de vento, que muitas vezes vão contra seus próprios interesses, porque elas são levadas a acreditar que aquela ameaça é real. Certos discursos são falaciosos, mas se grandes grupos acreditam nele, na cabeça deles aquilo é real, então elas vão agir na materialidade pra impedir aquilo, mesmo que aquilo não exista.

Por isso a fronteira entre o que é real e o que não é, nunca vai ser tão objetiva como as pessoas pensam, o que é ou não factual. Por exemplo, a ideologia é um sistema de pensamento que se torna tão real na cabeça do sujeito que abraça aquela ideologia que as vezes o sujeito é levado a ir contra o que é bom pra ele e apoiar projetos que serão maléficos pra sua vida material, porque é levado a acreditar que determinadas ideias são realidade.

Algumas pessoas vão à guerra e morrem por uma ideologia, mas a ideologia não é uma mera mentira, mesmo que um discurso ideológico possa ser mentiroso. Ideologia é um conjunto de ideias que está relacionada ao poder e por isso afeta a materialidade da vida das pessoas. Daí, a partir do momento que você convence essa pessoa que sua ideologia é uma solução, aquilo se torna real pra ela, tendo ou não respaldo factual.

Portanto, infelizmente a fronteira do real, do factual ou não, ela nunca foi tão óbvia como parece e atualmente tem sido cada vez menos.

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