O que representa o resultado da Shura do Hamas?

Diego Sedov

1- O principal grupo de resistência da Palestina elegeu no dia 6 de maio de 2018 o seu novo chefe de gabinete político (uma espécie de comitê central) para o próximo período. O conselho da Shura reuniu-se em teleconferência desde os territórios palestinos e também com os membros que estão no exílio por conta do bloqueio israelense a Gaza. O novo comandante é Ismail Haniya que pertence a mesma corrente do seu antecessor, Khaled Meshaal.

2- A imprensa brasileira se limitou a traduzir notícias da reuters que produziram nada mais que três ou quatro parágrafos de superficialidades acerca do movimento de resistência tais como: a) grupo é classificado como organização terrorista pelos EUA, UE e Israel; b) o novo chefe do escritório é um moderado (seja lá o que isso queira dizer); c) A mudança na carta fundacional do Hamas que passa a reconhecer as fronteiras de 1967 como elemento balizador para uma negociação de paz.

3- As eleições de 2006 e em seguida os adventos das primaveras árabes transformaram radicalmente as relações que o Hamas constrói com seus interlocutores na última década.

4- O processo eleitoral nos territórios palestinos não apenas colocou o Hamas no centro de qualquer interlocução para a criação de um Estado Palestino, como abriu uma profunda crise no projeto anglo-sionista na região. A resistência palestina derrotou não apenas o Fatah nas eleições, mas os Estados Unidos e também Israel, o que fez com que o Hamas fosse golpeado por forças internas com apoio externo.

5- As primaveras árabes, passo seguinte do imperialismo, lograram um êxito maior sobre a resistência, pois, não conseguindo destruí-la através das armas, arrastou-a da influência iraniana e colocou-a no colo dos catares, fragilizando a aliança que enfrenta a política imperialista na região. A recomposição das correntes internas do Hamas parece dar uma estabilidade maior para a facção pró Irmandade Muçulmana, ainda que pareça haver alguma margem de convivência com os pró iranianos.

6- Uma das reivindicações centrais que o bloco imperialista utiliza como mecanismo de propaganda contra os palestinos, especialmente contra o Hamas, é a sua carta fundacional que fala em destruir Israel. O documento escrito no final da década de 80 contém em dias atuais mais elementos de retórica do que de conduta das relações políticas construídas de fato pelo grupo palestino.

7- O Hamas já havia revisado a sua posição durante o processo eleitoral de 2006 que colocou como plataforma de campanha do partido o reconhecimento das fronteiras de 67 em troca da paz. Isso parece ter assustado os adversários internos e externos do movimento, pois, demonstrava um salto qualitativo bastante importante no amadurecimento deste agrupamento. Para além, é claro, do incremento na sua capacidade militar que fez com que a última investida israelense em 2014 se apressasse em findar.

8- Um outro aspecto muito importante sobre a liderança do Hamas é a sua capacidade em dar coesão as diferentes facções palestinas em torno de uma plataforma política que pressione a comunidade internacional a retomar as negociações para o nascimento do Estado Palestino. Ainda que não seja a ideal, parece que tem conseguido construir acordos que possibilitem que todas as armas se virem para o inimigo comum.

9- A mudança na carta fundacional do Hamas não é necessariamente uma novidade, nem mesmo um processo de moderação (seja lá o que isso queira dizer) por parte do grupo diante de Israel. É sim, a partir da influência iraniana, uma forma de antagonizar a partir de ações diplomáticas Israel e os seus parceiros. É uma maneira de demonstrar publicamente a completa indisposição dos israelenses em chegarem a qualquer acordo que viabilize a criação de um Estado Palestino.

10- Ainda que a guerra na Síria tenha fragilizado e dividido o Hamas, que se colocou ao lado dos rebeldes, o grupo aprofunda a sua influência política por todos os territórios palestinos sendo construtor de uma rede de seguridade social fundamental para a população. O Arco da Resistência, capitaneado por iranianos e libaneses do Hezbollah, apostam na unidade política com grupo para defender a região das agressões israelenses ainda que concordem em discordar sobre a questão síria.

11- Neste momento, a resistência palestina dissemina um conjunto de táticas as quais verificamos o BDS (Boicote, Desinvestimentos e Sanções), a atual greve de fome dos militantes presos em cárceres israelenses, além de uma articulação militar que proporcionou um incremento ao seu arsenal de defesa.

12- Contribuir para haja compreensão dos objetivos do Hamas é um passo adiante para libertação da Palestina do julgo do sionismo que comete, permanentemente, injustiças contra o povo.

twitter: @ sedov13

Sobre Diego Rabelo 3 artigos
Mestrando em memória social e patrimônio cultural pela Universidade Federal de Pelotas. Foi diretor de Direitos Humanos da UNE (2011-2013) e assessor parlamentar do Partido dos Trabalhadores. É editor da seção internacional do Portal Tribuna Universitária, no qual também mantem uma coluna.

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