Os desafios emocionais da pandemia da Covid-19 e a prática do mindfulness

FOTO: DINGZEYU LI / UNSPLASH

Por Ana Carolina Peuker | Sociedade Brasileira de Psicologia

Este é um momento oportuno para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Talvez, a questão crucial agora não seja somente quando será o pico, a duração e o efeito da crise pandêmica, mas sim o quanto aprenderemos com esse desafio e desenvolveremos competências emocionais. A Covid-19 impôs ao mundo a necessidade de adaptação e as pessoas tiveram que realizar mudanças nos seus estilos de vida. A crise propicia impacto no funcionamento emocional, especialmente pela percepção de falta de controle sobre os acontecimentos e diante de uma situação de incerteza, é natural surgirem respostas emocionais diferentes. Muda a relação das pessoas com o futuro e as escolhas intertemporais tornam-se mais difíceis diante do incerto.

As escolhas podem afetar outros fatos da vida. Isso implica na decisão de qual o momento para se antecipar um benefício que trará um custo futuro. Ou seja, o tempo inteiro as pessoas realizam trocas entre o presente e o futuro, avaliando o custo e o benefício, e essas decisões podem afetar o equilíbrio emocional. Frente à crise é importante que um senso de futuro e estabilidade seja mantido. Isso é um desafio, porque todos os dias parecem ser “novos”, as rotinas, as exigências e as relações estabelecidas com o futuro se modificam. Manter algumas rotinas saudáveis e buscar um olhar voltado para o presente é crucial. Ajuda a impedir que a mente divague e fique “perturbada” ao tentar “prever” os acontecimentos.

A prática de mindfulness

Um recurso útil para manter o foco presente, aplicado na psicologia, é a prática de mindfulness. Esse conceito significa atenção plena ou consciência e designa um estado mental caracterizado pela orientação da atenção para a experiência presente. É um conceito encontrado em tradições religiosas/filosóficas e culturais. Embora muitas pessoas o associem a algo místico, vinculado a uma crença religiosa especifica, trata-se de método secular e acessível. É uma habilidade que pode ser treinada e permite que as pessoas sejam menos reativas às emoções negativas.  O treinamento deste tipo de atenção, normalmente ocorre por meio das técnicas meditativas, favorecendo a tomada de consciência sobre as emoções.

Os estudos revelam que a prática de mindfulness traz benefícios para a saúde, pois provoca modificações fisiológicas que reduzem o estresse e protegem o organismo contra suas ações nocivas. Melhora o sistema imunológico, a autorregulação emocional e o desempenho cognitivo. Quando você acalma a mente, pode prestar atenção ao que realmente está acontecendo. Pensamentos, sentimentos, sensações físicas e ações podem ser alimentados e amplificados por “espirais” emocionais negativas. Abordar um aspecto desse ciclo, como por exemplo, reduzir ativamente os sintomas físicos (usando um exercício de mindfulness ou técnica de respiração diafragmática) pode diminuir o ciclo ansioso. Qualquer adaptação exige tempo. Se você compreender isso e, ter mais compaixão consigo, enfrentará os desafios da crise com eficácia. Há muita coisa impossível de controlar, mas a maneira de enfrentar isso pode ser uma oportunidade de gerenciar melhor suas emoções. Lembre-se, vai passar. E tudo o que você aprender nesse momento, vai lhe preparar para viver uma vida plena logo ali – um pouquinho mais adiante.

Referências:

Kabat-Zinn, J. (1994). Wherever you go, there you are: mindfulness meditation in everyday life.(1st ed.). New York: Hyperion.

Mais informações sobre mindfulness aqui.

Sobre a autora

Ana Carolina Peuker é psicóloga (CRP 07/11084), com mestrado, doutorado e pós-doutorado em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também atuou como professora. Realizou pós-doutorado em psicologia da saúde na Unisinos. É CEO da Bee Touch, founder da AVAX Psi e membro do Grupo de Trabalho de Enfrentamento à Covid-19 da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP)

Nota do Editor Artigo originalmente publicado pela Agência Bori

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