Pátria Educadora: propaganda olavista contra a educação pública para todos

Brasil Paralelo (Divulgação)

O Brasil está imerso em uma guerra cultural, declarada contra as sínteses do acumulado histórico e civilizatório humano presentes nas diversas áreas de conhecimento e da sociedade. Lutada em diversas trincheiras difusas, muitas vezes desconectadas e até antagônicas ou adversárias, a guerra cultural brasileira está presente em quase todas as esferas sociais e pessoais. Combatendo cada qual seus inimigos específicos, porém unificadas num ideal comum, afastar a esquerda da política institucional, o representante que a viabiliza essa empreitada geral e as específicas é o presidente Jair Bolsonaro.

Dentre as principais colunas da guerra cultural brasileira está o movimento que podemos identificar como Olavismo, cuja vanguarda é composta por discípulos diretos do polemista Olavo de Carvalho e por ele próprio. Sua influência na eleição de Bolsonaro pode ser observada no tamanho de sua participação no governo. Considerado o “Guru” do próprio presidente, Olavo de Carvalho influencia os filhos de Bolsonaro e indicou ministros importantes, como Educação e Relações exteriores, além de diversos cargos de segundo escalão, como o Presidente da Biblioteca Nacional, o ex-secretário nacional de Cultura e o Secretário Nacional de Alfabetização, locus privilegiado de uma de suas principais lutas: desconstruir o legado de Paulo Freire na educação brasileira.

A coluna olavista, embora tenha forte participação no governo e seja reconhecidamente uma das forças internas desse, como se pode observar nas diversas disputas de espaço com outras colunas, como a do partido militar por exemplo, mantém sua alta atividade fora do governo e é a internet seu principal campo de batalha. Foi na internet, especificamente no youtube que a coluna olavista logrou grande êxito, combatendo grandes batalhas e arregimentando muitos militantes e representantes, como por exemplo os youtubers Bernardo Kuester e Nando Moura. A mais recente arma dessa potente coluna ideológica é a trilogia “Pátria Educadora”, uma autointitulada super produção audiovisual veiculada via youtube.

Pátria Educadora 1: por uma educação medieval

Trata-se de uma trinca de filmes, elaborados em linguagem de documentário histórico, similar a seriados vistos em canais de TV como History Channel, porém, sem uma pretensa abordagem investigativa. Não há nenhum verniz que esconda a pretensão de construir e defender uma narrativa específica, inclusive buscando, o tempo todo, engajar financeiramente a audiência em torno da causa que os vídeos defendem.

O primeiro vídeo da trilogia, que é o foco desse texto, tem como objetivo apresentar uma introdução baseada em conhecimentos gerais para que a audiência compreenda o segundo e o terceiro vídeo, que são mais voltados ao Brasil, sendo o segundo, totalmente dedicado à desconstrução de Paulo Freire como símbolo do que há de melhor na educação Brasileira.

O que se percebe no primeiro vídeo é o anúncio de premissas que vão sustentar interpretações revisionistas e negacionistas da história da educação geral e do Brasil, às quais, por sua vez, sustentam as conclusões sobre a educação brasileira e, por fim, a grande denúncia veiculada no terceiro vídeo, que cela toda a explicação de porque estamos como estamos, ou seja, com a “pior Educação do mundo”, responsabilizando a esquerda pelos fracassos percebidos a “olhos nús” por qualquer pessoa que viva no Brasil ou o observe com alguma atenção. Tudo isso por meio de uma narrativa pobre, baseada em uma argumentação linear construída por “fatos históricos”, datas e “pensadores”.

Há diversos erros e interpretações enviesadas que podem e devem ser objeto de análises mais profundas e outros que precisam de correções pontuais, para mostrar que toda essa narrativa se constrói sobre colunas de barro em dunas de areia. Por meio de declarações de “autoridades” intelectuais majoritariamente desconhecidas, que não parecem ser especialistas no campo de conhecimento em que opinam, identificados apenas com qualificações genéricas, apresentam o discurso anacrônico. Homenageia-se o catolicismo como intermediário do acesso “à verdade” e as monarquias como sistemas de governo positivos, identificando a república, a escola pública e a ciência, dentre outros eventos históricos, como algo que desviou aquela saudosa sociedade medieval.

O Estado moderno e a escola pública estatal são utilizados para conectar nazismo, comunismo e liberalismo, defendendo a ideia de que, por defenderem a atuação de um Estado, que regula a educação e a sociedade por meio de um sistema republicano, são todos sistemas de governo filhos de uma mesma mãe, a revolução francesa. Nega-se a modernidade, a racionalidade, ciência e tudo aquilo que tem sido considerado avanços civilizatórios da humanidade nos últimos tempos.

Um dos discursos que estão entremeados em todo o vídeo é o da desconstrução da educação pública universal, como direito do cidadão e a construção de que a escola a o projeto educacional que almejamos, pública, estatal, para todos e todas, seria um projeto fascista, sendo o fascismo, comunismo e liberalismo a “mesma” coisa. Defende-se então, indiretamente, que a libertação desse modelo, obviamente, seria a instauração do modelo anterior, baseado no trivium e quadrivium, sob o comando da Igreja Católica e da monarquia, ou seja, defende-se uma educação escolástica, elitizada, religiosa, rompida com as amarras da modernidade, a qual seria causadora de toda ordem de problemas que conhecemos atualmente.

Levar a guerra cultura à sério

É muito importante localizar esse processo na conjuntura e considerar que não se trata mais de um discurso lunático descolado da realidade, mas de uma ideologia que tem representantes no aparelho do Estado, em ministérios, parlamentos executivos estaduais e municipais e judiciário. Mesmo que eles sejam anti-sistêmicos, também vêm lançando mão de instrumentos de validação e legitimação de seus intelectuais junto à sociedade. A indicação de cargos em ministérios e secretarias ligadas à educação e à cultura não é por acaso, há uma tripla função, a de desconstruir o que existe, implementar suas ideias e também “legitimar” o discurso por meio da chancela dos cargos dos emissores dos discursos.

A questão toda fica mais complexa se considerarmos que a guerra cultural tende a se sofisticar e avançar do patamar denuncista e caricatural para expressões mais descritivas ou até mesmo analíticas e propositivas, como por exemplo, a questão da alfabetização de crianças pequenas, que já tem uma política nacional formulada e em processo de implementação.

O primeiro vídeo da serie é perspicaz, começa e termina falando de fascismo. Apresenta a conclusão de que os defensores da escola pública, da educação estatal e dos sistemas oficiais de educação é que são fascistas, pois defendem um projeto educacional totalizante. A partir de imagens e afirmações verdadeiras, porque representativas da realidade contemporânea, amarram o discurso ancorado nas premissas iniciais, muitas delas subjetivas e mobilizadoras de emoções e da fé, para produzir conclusões falsas, porém de fácil aceitação.

É um instrumento clássico de propaganda que precisa ser levado a sério e ser neutralizado por uma resistência que tem a difícil tarefa de, ao mesmo tempo que neutraliza os ataques dessa “invasão cultural olavista”, propõe saídas que reconheçam e superem as muitas limitações do sistema atual que, inclusive, ajudam a validar a parte verdadeira dessa narrativa falsa!

Obrigado por ler até aqui. Talvez você se interesse também por:
Sobre Rafael Pereira 15 artigos
Doutor em Educação na UFPR. Mestre em Métodos e Avaliação (UFSC). Pedagogo (Unicamp). Editor da seção "Opinião" do Tribuna Universitária. Editor da Enunciado Publicações e autor do blogue Lendo o Mundo.

Seja o primeiro a comentar

Comente!