Patriarcado, colonialismo e capitalismo: sistemas que se retroalimentam

Quando falamos de interseccionalidade é muito comum que o raciocínio posto seja o de como o colonialismo e o patriarcado sustentam o capitalismo. Um exemplo que sempre escuto neste sentido, é de que um homem branco só consegue trabalhar 44 horas semanais, porque a divisão sexual do trabalho é socialmente aceita, ou seja, para que ele esteja vendendo sua força de trabalho, é necessário que alguém cumpra a tarefa de manter sua casa limpa, abastecida, que se dedique a transmissão da tradição cultural e desenvolvimento das crianças (mão-de-obra futura) e cuidados com idosos (Mão-de-obra passada), confecção da alimentação diária, cuidados com higiene e saúde, além de manter o ambiente seguro e tranquilo para que o lar seja o ambiente de descanso, recuperação e lazer do proletário. Esta atividade doméstica que sustenta a força de trabalho para o capital, não é reconhecida como trabalho, e sim como papel social da mulher, como tarefa balizada pelos laços de afetividade familiar. Por isso, não é remunerada, visto que é obrigação moral, e auxilia na sustentação da premissa de que a mulher deve permanecer nos ambientes privados enquanto o papel social do homem é a vida pública. Temos aí o patriarcado a serviço do capital.

Ao mesmo tempo que, se o homem branco trabalha 44 horas semanais em péssimas condições de trabalho e baixa remuneração, é porque está submetido à constante ameaça pela existência de um exército de reserva disposto a substitui-lo a qualquer momento, aceitando um salário ainda mais baixo e em piores condições de trabalho. Isso porque o histórico escravagista de nossa sociedade deixou marcas profundas de racismo no imaginário coletivo que permite a aceitação da ideia de que negros e negras estão à margem da sociedade, empobrecidos, desempregados e criminalizados, aceitando qualquer tipo de possibilidade de geração de renda oferecida. É interessante ao capital manter negros e negras marginalizados. E temos aí o racismo estrutural a serviço do capital.

O exemplo acima, clássico na forma de hierarquizar as opressões, parte do entendimento de que tudo gira ao redor do capitalismo e, portanto, a exploração dos trabalhadores para obtenção de mais valia é a opressão mais importante a se combater. Patrícia Hill Collins, porém, elucida que para que possamos nos mover em direção às novas visões do que é a opressão, precisamos elaborar novas perguntas. Como raça, classe e gênero funcionam como sistemas paralelos e imbricados que moldam essa mesma relação básica de dominação e subordinação? Perguntas como essa podem nos afastar de lutas teóricas infrutíferas, preocupadas com a hierarquização das opressões, e nos encaminhar na direção de análises que assumam que raça, classe e gênero estão conjuntamente presentes em qualquer cenário, mesmo que pareça ser mais visível e proeminente em uns do que em outros. Nossa tarefa é, então, redefinir a opressão, desvelando as conexões existentes entre raça, classe e gênero como categorias de análise.

Quero aqui fazer o exercício de construir outras formas de visualizar o imbricamento de opressões, nas dimensões estrutural, particular e singular. Irei expor como as opressões se retroalimentam porque se imbricam e não porque se somam. Digo isso, porque esta ideia de equação matemática permite o raciocínio de que esses sistemas podem ser avaliados de maneira separada como fatores isolados. Porém sabemos que uma “mulher negra periférica” ocupa maiores percentuais em dados estatísticos para feminicídio, violência doméstica, violência obstétrica, menor acesso a serviços de saúde, baixa renda, subemprego, desemprego, informalidade, baixa escolaridade, mãe solo, entre outros, exatamente por ser ao mesmo tempo mulher, negra e periférica. Não podemos compartimentalizar o que define nossa existência em sociedade. Somos inteiras.

Estrutural / Institucional

Ao falar sobre racismo cabe o resgate histórico de como isso se estruturou e com a permissão de quem. Em 18 de junho de 1452 o Papa Nicolau V redigiu e publicou a bula papal Dum Diversas, dirigida a D. Afonso V, Rei de Portugal, onde através desta Bula, o Papa afirma, dentre outros direitos, o de reduzir à escravatura perpétua os habitantes de todos os territórios africanos a sul do Cabo Bojador. Em 8 de janeiro de 1554, estes poderes foram estendidos aos reis da Espanha.

Uma das maneiras de disseminar a inferioridade para justificar o genocídio e escravização, por exemplo dos povos indígenas nativos da nossa terra de Vera Cruz, foi criando a imagem para a população cristã europeia, através inclusive das artes, de que os povos originários eram uma espécie humana evolutivamente atrasada, humanos selvagens, canibais, pagãos que precisavam da sabedoria do continente europeu para encontrar o caminho, a verdade e a vida, assim como os negros africanos. Uma justificativa que desqualifica e rebaixa a cultura e crença de um povo para sustentar a política econômica colonialista.

Seguindo na linha temporal de nossa história, podemos recapitular as teorias científicas sobre as diferentes raças humanas que surgiram inicialmente no final do século XVIII e início do século XIX. O filósofo francês Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882) – o “pai do racismo moderno” –, foi o principal defensor da ideia de superioridade da raça branca. Desde então, vários trabalhos científicos derivados da ideia de raças diferentes entre a espécie humana foram concebidos.

Gobineau esteve no Brasil em sua segunda missão diplomática, onde chegou em 1869, enviado por Napoleão III. Segundo seus escritos, o Brasil não tinha futuro, visto que o país era marcado pela presença de raças que julgava inferiores. A mistura racial daria origem a mestiços e pardos, degenerados e estéreis. Esta característica já teria selado a sorte do país: a degeneração levaria ao desaparecimento da população. A única saída para os brasileiros seria o incentivo à imigração de “raças” europeias, consideradas superiores.

Essas teorias raciais ganharam relevância, de maneira oportuna, à medida que países europeus se tornavam nações imperialistas, justificando pela ciência a superioridade branca, a submissão econômica e militar de outros territórios e genocídio de suas populações. Esse conceito foi adotado e aceito até o período da Segunda Guerra Mundial, quando o nazismo elevou o preconceito e o ódio em relação a grupos humanos específicos até as últimas consequências, através do holocausto.

Podemos construir aqui a ideia que de maneira estrutural a escravização de negros e negras foi instituída formalmente pela Igreja, sustentada pela ciência e legitimada por leis que regulamentavam os escravos como propriedade privada. Puxando para a realidade, a manutenção deste sistema se apoiava no princípio da autoridade do homem branco sobre sua propriedade. A heterossexualidade presumida e determinada pelo casamento com mulheres com virgindade assegurada. A castidade era muito valorizada, uma vez que as propriedades, e suas posses, deveriam ser passadas aos herdeiros legítimos dos senhores de escravos. Mas somente as mulheres brancas abastadas serviam a tal papel. Às brancas da classe trabalhadora pouco importava seus acordos nupciais. Negras eram relegadas a servir a Sinhá branca na manutenção do lar, satisfazer sexualmente do seu dono e produzir novos escravos.

Temos nesse momento o Senhor branco como o patriarca regente; a esposa branca como boa companheira para criar seus herdeiros; os escravos cuja produção e reprodução estavam ligadas às necessidades da economia política capitalista. Além disso, homens e mulheres brancos/as, não-proprietários, da classe trabalhadora, cujo sonho de muitos era chegar ao topo desta pirâmide social, assistiam esse regime. Temos neste caso o patriarcado e o capitalismo retroalimentando o racismo expresso através da escravização.

Particular / Simbólico

De maneira particular, podemos analisar como as opressões se expressam de forma simbólica através dos papeis sociais definidos para homens e mulheres. A ideia de que o homem é figurado para atuar nos espaços públicos, e as mulheres no espaço doméstico, gerou a crença de características definidas aos gêneros como naturais. Porem sabemos que estas características são socialmente construídas para manutenção do patriarcado.

Como características masculinas, dentro da lógica patriarcal, podemos elencar a liderança, agressividade, autoconfiança, ambição, autossuficiência, atenção focada em tarefas, força física e independência. Nas mulheres podemos destacar a submissão ao líder, sensibilidade, bondade, gentileza, cordialidade, compassividade, foco nas relações, prestatividade, fragilidade e afetividade.

Vale lembrar que essas características são diferentes se o corpo é negro. A agressividade em homem branco que pode ser entendida como algo positivo para atuação em ambientes competitivos, para o homem negro será relacionada a violência física e resistência a dor. A compassividade que na mulher branca pode ser associada a empatia, na mulher negra é relacionada à permissividade. Essas características também são diferentes quando falamos de ricos e pobres. Para as mulheres brancas da classe trabalhadora não cabe o tratamento dispensado às damas, que precisam ser protegidas por serem frágeis. A autoconfiança em um homem branco pobre também não é esperada, mas sim a subordinação ao patrão.

Um exercício interessante para afirmar este ponto é, em trabalho de grupos, montar uma tabela com características masculinas e femininas. Depois reclassificar, entre o que foi levantado, o que é características de brancos (as) e negros (as) e entre ricos (as) e pobres. As imagens simbólicas aplicadas a diferentes grupos de raça, classe e gênero interagem na manutenção de sistemas de dominação. Quando analisamos dados no geral, como estatísticas de homens e mulheres, sempre cabe a pergunta: Mas de que homens e de que mulheres estamos falando? A generalização em grupos universais mantém invisíveis as maiores discrepâncias que ocorrem no imbricamento de opressões.

Todas as mulheres são afetadas pela discriminação no mundo do trabalho, porém isso se expressa diferentemente em cada grupo. As razões de rendimentos combinadas por raça/cor e sexo mostram diferentes resultados comparativos. Destaca-se a vantagem dos homens brancos sobre os demais grupos populacionais, sendo que a maior distância de rendimentos ocorre quando comparados às mulheres pretas ou pardas, que recebem menos da metade do que os homens brancos auferem (44,4%). O segundo grupo de maior vantagem é o da mulher branca, que possui rendimentos superiores não só aos das mulheres pretas ou pardas, como também aos dos homens dessa cor ou raça (razões de 58,6% e 74,1%, respectivamente). Os homens pretos ou pardos, por sua vez, possuem rendimentos superiores somente aos das mulheres dessa mesma cor ou raça (razão de 79,1%, a maior entre as combinações).

Temos então a razão de rendimentos na seguinte ordem: 1) Homem branco, 2) Mulher Branca, 3) Homem negro, 4) Mulher negra. Portanto a análise simples de que mulheres ganham 30% a menos que homens esconde a inferioridade da realidade salarial das mulheres negras.

Qualquer avaliação particular só é completa se contemplar como categoria de análise gênero, raça e classe. Diferente disso, a Universalidade do grupo torna invisível a realidade das relações interseccionais.

É preciso reconhecer que este sistema proporciona privilégios e opressões que se expressam de maneira diferente em cada grupo. As violências e privilégios percebidos na vivencia de uma mulher negra rica são diferentes das violências e privilégios que impactam na vida de uma mulher branca pobre. Não podemos aqui qualificar qual violência, exploração ou opressão é mais importante na vida de cada qual, podemos sim, e devemos debater, como abrir mão de privilégios elitistas, machistas e racistas para buscar a promoção da igualdade.

Audre Lorde nos ensina que a opressão e intolerância em relação à diferença vem em todos os tamanhos, formas, cores e sexualidades. Explica ela que, entre aqueles de nós que compartilham dos objetivos de libertação em um futuro possível, não pode haver hierarquias de opressão.

Singular / Individual

O que posso dizer sobre o local singular que ocupo em uma sociedade patriarcal, racista e capitalista, é que sendo eu mulher, negra, bissexual, em um relacionamento inter-racial, mãe de um menino e uma menina, feminista, sindicalista e marxista, o que se espera nos espaços que atuo é que eu tenha a paciência histórica de educar “companheiros” opressores e que eu possa subsidiar o debate de lideranças sobre as minhas especificidades. Que compartilhe meu conhecimento acadêmico aliado às minhas vivências.

Porque, apesar de reconhecerem que nossos passos vêm de longe, e de muitas estruturas de esquerda colocarem o anticapitalismo, feminismo e antirracismo como princípio, a prática diária se dá na manutenção das mulheres negras como material de apoio. Os detentores dos privilégios nos aproximam para criar um ambiente com ares de democracia, porém sem que isso ponha em risco sua posição de poder. E assim ela ou ele, de pele branca, prega a mensagem pública de que está ao nosso lado. Que usa seu lugar de destaque para trazer para o debate a pauta dos oprimidos que ele ou ela sempre carrega ao seu redor. E muitos cumprem este papel sem perceber o quanto reproduzem a lógica de “Patriarca Regente” que citei anteriormente. Percebe o requinte da crueldade? Lembremos que os abolicionistas brancos, após a Lei Aurea, não elaboraram leis que nos garantissem cidadania e dignidade. Livres, mas não tão livres quanto eles.

A expressão individual ou singular do combate às opressões passa necessariamente pelo debate dos privilégios da branquitude, das ocupações dos espaços de poder, da prática antirracista e feminista. No debate da diversidade, aliado e aliada não é quem fala por mim, não é o branco salvador que reproduz a minha fala. Isso é apropriação intelectual e silenciamento do lugar de fala. De branco salvador a história está cheia, mas desafio me dizer qual deles teve êxito na sua empreitada. Aliado e aliada é quem me trata como igual, ombro a ombro, na mesma condição de poder e decisão, quem abre espaço para que nós possamos ter o mesmo grau de visibilidade, quem sobe e puxa a outra para ocupar o mesmo lugar.

Para sermos contrassistêmicos e propormos uma alternativa de modelo de sociedade, precisamos viver de fato o que pregamos como princípio. As mudanças para superar as instituições precisam ocorrer no singular, alcançar o simbólico e modificar as estruturas.

Quem você quer ser nessa trincheira? Aliado ou Salvador?

Referências

COLLINS, Patrícia Hills. Em direção a uma nova visão: raça, classe e gênero como categorias de análise e conexão. In: MORENO, Renata (Org.). Reflexões e práticas de transformação feminista. São Paulo: SOF, 2015, p. 13-42.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Rio de Janeiro: IBGE, 2018.

Joseph Arthur, Conde de Gobineau – “L´Emigration au Brésil”, 1874. In Georges Raeders, O inimigo cordial do Brasil, Rio de Janeiro, Paz e Terra1988.

LORDE, Audre. Sister outsouder. Frrdon, CA. Crossing Press. 1984.

Sobre Juliana Chagas da Silva Mittelbach 6 artigos
Mestranda em saúde coletiva pela UFPR, Enfermeira formada pela UFPR, Especialista em gestão pública pela UFPR, Especialista em Saúde Coletiva pela UFBA, Base do Sinditest PR, Integrante da Marcha Mundial das Mulheres do Paraná - MMM PR, Integrante da Rede Mulheres Negras Do Paraná - RMN/PR, Secretaria Geral do Conselho de Promoção da Igualdade Racial do Paraná.

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