Por que Bolsonaro desafia a pandemia? | Josué Medeiros

Josué Medeiros é Cientista Político e Professor da UFRJ

Estamos impactados com a irresponsabilidade do presidente em ir aos atos mesmo com a crise do Coronavírus. Como entender um movimento desse tipo? Inspirado em reflexões recentes de Tatiana Roque e Marcos Nobre preparei uma contribuição.

Muita gente boa acha que a menor dimensão dos atos é sinal de enfraquecimento do presidente. O mesmo se diz da baixa coleta de assinaturas do partido bolsonarista, Aliança Pelo Brasil. Só que a lógica política mudou em 2018. Agora, menos pode ser mais.

Como funcionava antes? Um grupo político (um partido ou um governador) montava a seguinte estratégia: se está no governo, elabora e implementa uma ou duas políticas públicas centrais e uma narrativa eleitoral que conecta esta ação estatal à maioria.

Exemplo: FHC em 94/98. A política pública era o Plano Real. Sua narrativa era de estabilidade econômica e social, algo que as pessoas sempre querem. Exemplo: Lula em 06/Dilma em 10. Bolsa Família e Salário Mínimo eram as políticas públicas. A continuidade era a narrativa.

Na oposição não mudava muito. Era preciso criticar o governo e apresentar uma narrativa alternativa, sustentada por políticas públicas. Exemplo: Lula em 2002. O governo FHC derreteu porque sua principal política pública fracassou. Não havia mais estabilidade.

A narrativa do Lula foi de união nacional (e por isso ele moderou o discurso) e prioridade aos mais pobres (o que sua trajetória e do seu partido garantiam). Mesmo com o antipetismo crescente, o PSDB nunca conseguiu elaborar uma estratégia alternativa majoritária.

O que mudou em 2018? O antipetismo virou majoritário? Talvez, só que Lula liderava as pesquisas e se manteve forte mesmo preso. Muitos fatores contam: o descrédito das instituições, o golpe de 2016, a facada no então candidato.

O fato é que Bolsonaro se elegeu com uma nova lógica: não se apresentou contra um governo, mas sim contra tudo que está ai. E não apresentou uma política publica sequer como parte da sua narrativa. Foi uma candidatura de combate.

Bolsonaro manteve essa lógica ao governar. Tatiana Roque fala em negacionismo como forma de governo. Marcos Nobre fala em governo para a minoria. Tudo que ele tenta fracassa por não ser majoritário. Ele usa isso para mobilizar os seus 1/3 contra o Congresso, contra o STF.

Ao fazer isso, segue competitivo em qualquer eleição. Com a sua manada coesa, ele terá candidatos com potencial de 2 turno nas capitais. Nem precisa vencer. Em alguns casos (vide Crivella), nem é bom vencer. Menos é mais. E com isso ele segue pautando a política nacional.

Qual é a novidade? A Pandemia exigirá de Bolsonaro uma resposta majoritária. E ele é incapaz de fazer isso. Será um processo doloroso para todos e pode custar caro ao presidente. Sobretudo se as forças democráticas agirem concretamente para diminuir toda a dor que virá. O pacto democrático tão falado desde 2018 agora virou uma questão de vida ou morte. Infelizmente, isso é literal. Não podemos errar de novo.

A coluna "Conjuntura" publica artigos de opinião e análise sobre a conjuntura política do Brasil, cujos autores são colaboradores, colaboradoras e/ou colunistas do Tribuna Universitária. As opiniões emitidas, não necessariamente coincidem com as opiniões do portal Tribuna Universitária. Dúvidas, sugestões, elogios e críticas podem ser enviadas para redacao@tribunauniversitaria.com.br ou diretamente ao autor, cujo contato está linkado em seu nome abaixo do título do artigo.
Sobre Josué Medeiros 3 artigos
Professor do Dep. de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com doutorado-sanduíche na Universidade de Paris 3, no Institut des Hautes Etudes de l'Amérique Latine (IHEAL). Realizou pós-doutorado em Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP). É coordenador do Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB) na UFRJ. Estuda a democracia no Brasil e na América Latina. Colabora com o portal Tribuna Universitária na Colunas Conjuntura.

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