Por trás da tela: cinema no Mercosul

FAM
Foto: Divulgação do FAM - Noite de premiação no TAC

O FAM – Florianópolis Audiovisual Mercosul – festival que se consagra a cada edição como um dos eventos audiovisuais mais importantes do Sul do Brasil, celebra a 23ª Edição em 2019, ocorrida entre 26/09 e 02/10.

Nos últimos 23 anos exibe e fomenta produções cinematográficas do Brasil e de diversos países do Mercosul. O reconhecimento do público, produtores e cineastas de diversas regiões latino-americanas se encontram em Florianópolis para promover o que acontece por trás das telas.

Panorama histórico do cinema latino-americano

Num breve panorama do cinema no Mercosul, vê-se no Brasil, como em outros países vizinhos, um crescimento exponencial no número de salas que trabalham com mais de uma tela ao mesmo tempo. Os conhecidos cinemas multiplex se localizam em regiões metropolitanas, com maior
concentração urbana e em grandes centros comerciais.

Dos cerca de 5.500 municípios existentes no Brasil, 4.500 não possuem nenhuma sala de exibição. Enquanto 271 dispõem de apenas uma sala por município. O que produz uma contradição enorme, entre as políticas de integração que defendem a diversidade de vozes, conteúdos e formatos na criação cinematográfica.

Ou seja, o consumo dessa produção na prática, sala à sala ainda é restrito para a maioria da população. É preciso notar que esse tipo de cinema, se dá num contexto cada vez mais determinado e limitado pelo entorno. As disparidades sócio políticas em relação aos países são marcantes, o que torna difícil falar de um mercado mercosurenho.

Não é preciso dizer que, esse tipo de produção enfrenta dificuldades principalmente em casa. Assim, como outras formas de manifestação artística e cultural nesse território latino.

Numa pesquisa da RECAM (Reunião Especializada das Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul), sobre o cinema nos países que integram o acordo, observou-se que a circulação dos filmes é quase nula. Salvo iniciativas dos próprios produtores, como é no caso do FAM criado para discutir políticas para o desenvolvimento do setor nos países que constituem o bloco.

Indústria cinematográfica no Mercosul

É difícil admitir, mas talvez ao longo da história do cinema no Mercosul, ainda não tenhamos tido a capacidade de estabilizar uma verdadeira indústria cinematográfica. Quem dirá ser capaz de competir com a distribuição das produções norte-americana no mercado interno.

No mercado internacional em determinadas épocas, houveram destaques de filmes nacionais. Assim como em outros de títulos argentinos, mexicanos e/ou cubanos para além do continente.

O que quero apontar é que não constituímos, com a exceção talvez, do México, nos anos 50, uma indústria robusta, como em outros países subdesenvolvidos como a Índia ou o Japão.

O intercâmbio entre os atores e produtores no Mercosul é tímido, e as películas na maioria dos casos, não apresentam necessariamente fins comerciais ou planos de distribuição bem definidos. Em sua maioria, são realizadas por canais de televisão para exibição na grade de programação das próprias emissoras ou por agentes independentes.

Para se ter uma ideia do tamanho real do mercado, cerca de 34% das produtoras cinematográficas que atuaram no Mercosul no período de 2004 a 2010 são de países estrangeiros.

Segundo os dados do Patrimonio Cultural del Mercosur, que realizou uma pesquisa junto às produtoras, identificou que 7% delas são da Espanha, 5% da França e 4% dos Estados Unidos. Em suma, das 58 produtoras concentradas nas regiões metropolitanas do Mercosul, 50% é não pertence ao acordo. Das oito maiores presentes no mercado atual, apenas a Globo é regional.

Veja o nome de algumas delas e pesquisa depois se tiver curiosidade: Globo Filmes, Lereby Produções, Quanta Produções Cinematográficas, Diler & Associados, Teleimage, Total Entertainment, Teleimage e Labo Cine do Brasil.

Podemos considerar que, são essas as empresas do setor audiovisual que possuem a chance de distribuir co-produções internacionais em larga escala.

Distribuição das produções latino-americanas

É irônico se não fosse doloroso admitir que, grande parte dos filmes produzidos por nós que entram em circuito comercial brasileiro é distribuída por companhias norte-americanas. Isso não acontece de hoje, desde os anos 90, a Fox, Columbia e Warner mantém escritórios no Brasil e são incentivadas pela Lei do Audiovisual. Elas realizam produções e distribuições de filmes brasileiros, e obtêm importantes sucessos comerciais.

Na missão de promover a co-criação no cinema, mas não só, a terceira edição do Encontro de Coprodução do Mercosul, no Hotel Majestic Palace aconteceu. Com a participação de 45 projetos inscritos e 13 players. Entre eles, canais de televisão, distribuidoras, produtoras e instituições cinematográficas do Brasil, Colômbia, Argentina, Paraguai, Chile, Uruguai, Bolívia, Peru, Equador e Estados Unidos.

Embora iniciativas como estas sejam um reforço considerável, o setor cinematográfico reflete a assimetria econômica e cultural dos países envolvidos. O Brasil e Argentina, neste momento, tentam recuperar as indústrias de cinema, após um período de desestruturação anterior. Mas sentem dificuldade de manter suas operações a todo vapor sem reforços e incentivos governamentais.

FAM para todos 2019

O FAM lança co-produções independentes latino-americanas desde o início de sua história, cobrindo uma deficiência na formação da cadeia do audiovisual: formação, exibição e mercado.

É por isso que, se faz tão importante que festivais como esses aconteçam para pulverizar e proporcionar conexões reais entre os projetos. Parabéns a todos os organizadores, apoiadores e frequentadores desse festival. A todos os produtores independentes, cineastas que vieram celebrar as produções latinas.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul tem o investimento do BRDE, FSA, Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

Quer saber mais dos bastidores do FAM 2019? Veja os “Relatos de diretores
latino-americanos sobre o FAM 2019
“, reportagem especial da Tribuna Universitária.

Sobre Juliana Polippo 6 artigos
Brasileira, graduada em 'Produção Multimídia' pela Universidade Santa Cecília em Santos/SP, com especialização em 'Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico' pela Universidade Estadual de Londrina. É pesquisadora do programa de mestrado em 'Multimédia' da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.  

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