Por um novo normal, um novo online e um necessário offline

É possível construir um novo normal? Não é segredo para ninguém que as redes sociais fazem parte da vida de milhões de pessoas no Brasil, como uma das principais fontes de informação, de entretenimento e de comunicação. Também é fato muito conhecido que mais conectada é a pessoa, quanto mais jovem ela é. Uma parcela considerável da juventude se expressa e constrói referências através do youtube, instagram, e tick tock, sem falas das plataformas de streaming e podcast.

As constatações feitas são tão factuais que não preciso discorrer sobre nenhum dado aqui neste texto. Tenho certeza que não corro o risco de errar. É lugar comum que a eleição de Bolsonaro e de muitos governadores e deputados se viabilizaram, em boa medida, por estratégias de marketing e propaganda via internet largamente financiadas com recursos privados. É verdade também que muita coisa foi na base da fakenews, mas isso é outro assunto.

Atualmente vemos e ouvimos nas redes muitas campanhas eleitorais para cargos municipais sendo lançadas e construídas com forte veiculação de conteúdo para redes sociais. Além do sucesso de Bolsonaro nas redes, inclusive superando seu pouco, ou quase nenhum, tempo de TV, a pandemia praticamente levou todo mundo para internet.

Também ajuda na consilidação dessa áura em torno da internet, os fenômenos como Whinderson Nunes, Felipe Neto e outros tantos, que ajudam a construir a ideia de sucesso econômico individual nas redes, o que é muito complicado e precisávamos falar sobre isso, mas este tema é assunto para outro momento. O que nos interessa aqui é assumir que existe um otimismo exagerado em relação às redes sociais e principalmente uma ilusão de liberdade, oportunidades e plataforma de expressão. Este último tema é o centro deste texto, que visa nos provocar sobre a inércia a que estamos nos submetendo no off mode, em favor de um “ativismo” no on mode.

Especificamente sobre a ideia de termos disponíveis na ponta dos dedos uma plataforma “livre” de expressão e comunicação, penso que vivemos uma ilusão. Ilusão! Sim, ilusão de que, ao postar algo em uma rede social, estamos automaticamente falando com todos que estão nestas redes, com todos que estão conectados a nós, com nossos “amigos”, com quem “segue” ou nos “curte”. A internet passa a falsa ideia de que basta estar online para ser visto. A internet constrói a ilusão do online em contraposição ao offline.

É verdade que a internet facilitou muito a nossa vida e trouxe possibilidades de fazer muitas coisas de forma mais rápida e fácil. Não reconhecer avanços proporcionados pela internet seria um absurdo, uma espécie de terraplanismo. Porém, quando se trata de plataforma de expressão e comunicação, de audiência individual ou mesmo coletiva, os algoritmos construíram verdadeiros labirintos. Para vencer e chegar ao final destes, onde está o pote de ouro da audiência, é preciso pagar por guias altamente qualificados e caros.

É isso mesmo, na internet, para ser visto precisa pagar! O Facebook, o Google, Instagram, dentre outros, não são nada além de empresas que ganham dinheiro vendendo a sua audiência. O usuário comum desses serviços ganha uma ilusão de fazer parte de algo moderno, além de poder dizer o que quiser e ser visto, sem intermediários. Ganha a possibilidade de se mostrar, ser aplaudido e aceito, de ter atenção. Em troca de muitas possibilidades, sem nenhuma garantia, o usuário entrega gratuitamente seus dados e sua audiência, que depois será vendido para quem pagar.

A internet está cheia de artigos técnicos, vídeos e análises melhores muito melhores que este texto. É fácil saber como o modelo de negócios das redes sociais funciona. Não queremos superá-los, queremos apenas chamar a atenção sobre a ilusão de se participar de uma rede social buscando audiência para suas ideias, pois a audiência não virá, exceto se você pagar. As redes sociais utilizam, ou permitem que terceiros utilizem, milhares de robôs e inteligência artificial para mobilizar emoções e criar engajamentos. A partir de seus dados, que mostram seus interesses, convicções, medos, ódios, as redes sociais criam falsas necessidades, falsos engajamentos e manipulam uma pretensa “opinião pública”, influenciando na opinião dos usuários da plataforma.

Chegamos então ao nosso ponto: Sua audiência, seus dados e seu tempo gasto nestas redes sociais vale o que você recebe em troca? Minha forma de pensar é cada vai mais condensada de que não vale! Muitas pessoas que conheço (eu inclusive), sempre buscaram atuar nas redes sociais ajudando, de alguma forma, engajamentos de conteúdo que acreditamos ou mesmo criando conteúdos sobre coisas que consideramos relevantes, com a maior boa-fé possível. Porém, isso não faz nenhum efeito se não pagar!

Sem estratégias de impulsionamento estes conteúdos não chegam nem ao total de amigos que você tiver. Faça um teste: observe quantos comentários, curtidas e compartilhamentos você teve nas suas ultimas 10 postagens na sua rede social preferida, elas chegam a mais de 10% do número de amigos/seguidores que você tem?

Também não adianta sair impulsionando ou turbinando postagens. Embora possa ter algum efeito, é muito aquém do razoável, pois nas plataformas há milhares de robôs/inteligência artificial que vão curtir sua postagem e ela não vai chegar ao seu público humano. É preciso de um plano de marketing para que se tenha efetiva audiência de pessoas e isso custa caro, muito caro!

Se é certo que a internet, e especial as redes sociais, são um fenômeno contemporâneo que obteve muito sucesso e proporcionou evoluções nunca imagináveis antes, é certo também que há muito efeito colateral negativo sendo percebido. Não estou falando de afirmações como aquelas que relacionam violência a games, estou falando de depressão e ansiedade. Grandes celebridades da internet já declararam sofrer desses males. Sem falar no tensionamento em diversos aspectos causados por discurso de ódio, fakenews, difamação generalizada dentre outras formas de mal-uso da rede.

A internet é um importante avanço civilizatório, irreversível, porém, as redes sociais como conhecemos atualmente, até agora, pelo que eu tenho visto e lido, apenas vem gerando mais mal do que bem. Basta assistir alguns vídeos, séries e ler alguns artigos de fontes de diversas para entender o papel das redes sociais, dos robôs e da propaganda em vários eventos em vários países onde houve atuação da empresa Cambridge Analitics. Basta olhar, com alguma racionalidade, para as eleições presidenciais do Brasil.

Muito se diz, em termos de comunicação, que o online vai suplantar o offline. Jornais impressos, livros impressos estão em extinção, dizem! Vivemos a panaceia do online! Pois bem, pense da seguinte forma: Quem lucra com essa ditadura do online? Quem ganha com economia baseada em produção de conteúdo para monetizar na internet? Certamente não são os milhões de usuários ou milhares de “produtores de conteúdo” que estão por ai buscando o sonho de viralizar.

Então, se você está incomodando com tudo isso, reflita mais um pouco: O que nos impede de reconstruir nossas relações offline, estabelecer novas relações offline e resistir a essa ditadura dos algoritmos, apps e startups?

Sobre Rafael Pereira 15 artigos
Doutor em Educação na UFPR. Mestre em Métodos e Avaliação (UFSC). Pedagogo (Unicamp). Editor da seção "Opinião" do Tribuna Universitária. Editor da Enunciado Publicações e autor do blogue Lendo o Mundo.

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