Quais lições o Coronavírus pode nos dar? | Gabriel Medina

Gabriel Medina é psicólogo e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

O que estamos vivendo é a barbárie, fruto desta nova etapa do neoliberalismo, que já não se preocupa mais com a democracia e com a vida. O Brasil necessita de um outro projeto, de um outro presidente, de uma nova agenda.

Estamos vivendo uma pandemia gravíssima, ainda que a maior autoridade do país não tenha se dado conta.

O COVID-19 se espalhou pelo mundo promovendo milhares de mortes, como temos visto na situação crítica que vive a Itália e toda a Europa, depois de deixar rastros de destruição e morte na China.

Na Itália a situação é grave e dramática. Não existe vaga para todos em um bom sistema de saúde, quase todo público, mas fragilizado com o avanço das políticas neoliberais que promovem a austeridade, com o desmonte das políticas sociais e favorecimento do mercado financeiro.

Por enquanto, no Brasil a expansão do vírus só não foi mais forte pela existência do Sistema Único de Saúde, o SUS, que possui uma vigilância epidemiológica estruturada capaz de criar processos de contenção e orientação para a população. Para nossa sorte, não temos um aloprado como Abraham Weintraub no Ministério da Saúde.

A situação vai se agravar no país e vamos ver o quanto nosso sistema de saúde vai responder, depois de sucessivos ataques e cortes sofridos. É necessário responsabilidade e compromisso de todos brasileiros para evitar um pico da infecção com uma curva muito acentuada, para não ter superlotação e falta de leitos para o atendimento, especialmente dos mais velhos.

Essa crise global deve trazer aprendizados para o Brasil e para o mundo. O primeiro é a importância de termos sistemas de saúde públicos, universais e de qualidade. Temos muito que caminhar com o SUS, mas sua existência é um alento, se comparado a países como os EUA com o sistema privado e pago. Contudo, a reflexão que precisamos fazer é lembrar o quanto de recurso foi retirado da saúde do Brasil nesses últimos anos, fruto da agenda golpista, que implementou reformas e medidas de corte de direitos em todas as áreas sociais.

Ainda no Governo Lula, a oposição (a mesma que encabeçou o impeachment da Dilma) derrubou a CMPF, imposto que era dedicado integralmente ao SUS, responsável por injetar 40 bilhões por ano na saúde pública. A outra foi a PEC do Teto, já no pós golpe com Temer no poder, congelou os recursos para saúde e educação pelos próximos 20 anos, mesmo diante do aumento da demanda pela necessidade de ampliar o acesso à educação dos jovens e dos idosos no campo da saúde, com o envelhecimento da população.

Com Bolsonaro são constantes os ataques ao SUS, iniciando pelo fim dos Mais Médicos, que deixou dezenas de municípios sem atendimento médico, a interrupção da política antimanicomial com a ampliação de leitos em hospitais psiquiátricos e fortalecimento das comunidades terapêuticas, das igrejas evangélicas e ataque a saúde indígena, só para citar alguns exemplos.

Estamos em um momento decisivo para enfrentarmos a desumanidade do neoliberalismo, que prioriza o lucro, a segurança para a livre circulação do capital e ceifa milhões de vida pelo mundo, como presenciamos nas várias barreiras migratórias impostas pelos países ricos. O dinheiro circula livremente sem taxas, mas as pessoas não!

Muitas pessoas irão morrer por falta de acesso a saúde, outras tantas vão ficar sem trabalho e renda, crianças não vão ter alimentação garantida com o fechamento das escolas. Quais são as saídas para esse colapso social?

Precisamos produzir uma contra narrativa à proposta de mais reformas, demonstrando que estas só prejudicam os mais pobres, retiram direitos e não promovem crescimento econômico, como temos visto no Brasil pós reforma trabalhista e previdenciária.

É o momento de voltarmos a defender o Estado como indutor do crescimento, reivindicar mais recursos para o SUS com o fim da PEC do Teto e pensar em formas de garantir uma renda básica universal para todos brasileiros, para garantir a sobrevivência em um mundo sem emprego para todos.

Precisamos defender a solidariedade social, organizar mutirões e brigadas para ajudar aqueles que serão mais afetados, arrecadar alimentos, materiais de higiene pessoal e garantir que nenhum brasileiro fique sem recursos básicos para vencer esse período de crise. Aliás, a capacidade de sobreviver a escassez por meio da colaboração e resistência faz parte da rotina de milhões de brasileiros pobres, do campo e da cidade.

Não podemos esquecer que o presidente Jair Bolsonaro tratou com desdém o vírus e quase contaminou o presidente dos EUA com sua irresponsabilidade e arrogância. Um presidente que não acredita na ciência e teve a ousadia de participar dos atos fascistas do dia 15 de março, atacando a democracia e colocando em risco a saúde do povo brasileiro, indo contra as orientações do Ministério da Saúde do seu próprio governo. Esse fato precisa despertar uma grande comoção nacional contra um presidente que não está à altura do cargo e não pode mais conduzir a nação!

O que estamos vivendo é a barbárie, fruto desta nova etapa do neoliberalismo, que já não se preocupa mais com a democracia e com a vida. O Brasil necessita de um outro projeto, de um outro presidente, de uma nova agenda.

Neste momento de desespero e de medo, o campo progressista precisa aproveitar essa crise para voltar a dialogar com a maioria da sociedade, com os mais pobres que serão os mais afetados, mostrar solidariedade na prática, com humildade e com ações efetivas de apoio. É tempo de construir alternativas à ignorância, com propostas para enfrentar a crise a partir das experiências vindas do povo brasileiro.

Nota do Editor: Artigo originalmente publicado na Revista Fórum

Os artigos publicados nessa seção, "Tribuna Livre", não são editados ou revisados pelo portal, sendo de inteira responsabilidade de seus autores. Para fazer uso da nossa tribuna livre, envie um artigo de 500 a 1000 palavras no formato .rtf para redacao@tribunauniversitaria.com.br com assunto "tribuna livre".

Seja o primeiro a comentar

Comente!