Quem educa nossos filhos? o muro, a rua e a internet.

Uma das maiores dificuldades contemporâneas é observar com alguma lentidão e profundidade quaisquer fenômenos com os quais nos deparamos ou nos envolvemos. O cotidiano acelerado dificulta muito as possibilidades de exercermos uma atitude autônoma em relação ao tempo, geralmente estamos subordinados a uma lógica temporal heteronômica, na qual estão inseridos todo tipo de compromisso que buscamos cumprir para somente então, “ter um tempo só nosso”, em que podemos exercer a nossa autonomia. À essa altura já não temos forças físicas e emocionais para ter uma postura ativa diante da realidade e, geralmente, a passividade e apatia nos toma até o sono chega.

O contexto em que estamos inseridos dificulta que observemos com cuidado, por exemplo, a educação de nossos filhos em casa. Também cria dificuldades enormes para que profissionais da educação tenham mais condições de melhor atuar com a infância e a juventude contemporânea. As diferenças geracionais na atualidade são enormes e não se manifestam atualmente como abismos, mas na forma de muros muito altos e espessos, feitos de pedras enormes. Talvez isso explique a dificuldade dos jovens de nos ouvir e nós de ouví-los. Diante dessa barreira, há poucas e difíceis comunicações entre os lados, nós queremos trazê-los para cá, eles querem ficar do lado de lá.

A minha metáfora, de certa forma até ingênua a pobre, pode ser muito ilustrativa quando se tenta chamar um filho que está no quarto fazendo qualquer coisa de seu interesse, ou mesmo saindo de casa para encontrar amigos e fazer suas coisas. Ou quando precisamos conversar por qualquer motivo que seja. O muro parece grande e grosso, feito de pedra.

O conflito de gerações não é novo, pelo contrário é natural quando se trata de seres humanos e, ainda bem, por que se não fosse, ainda viveríamos sob marcos civilizatórios muito penosos. O que talvez seja novo, é justamente o muro. Antes o conflito geracional parecia se manifestar como um abismo, diante do qual poderíamos pular, ou construir pontes, ou ainda conversar aos gritos de um lado para o outro. Mas agora, parece que temos diante de nós um muro, que só um árduo trabalho mútuo de escavação ou de escalada, pode ajudar a transpor.

Se não enfrentamos esse distanciamento, quem dialoga com os jovens sobre seus dilemas cotidianos, existenciais ou cósmicos? Se durante a infância, na maioria das vezes, parecemos ter nossa referência reconhecida pelos filhos e alunos, na adolescência tudo parece desmoronar. Os conflitos são corriqueiros e as reações impulsivas podem causar um antagonismo exacerbado e o inevitável muro se faz diante das relações entre jovens e adultos.

Quando eu era jovem (sim me tornei esse tipo de adulto, *risos*), não havia internet e no exercício do meu antagonismo com as autoridades constituídas na minha infância, “a rua” parecia ser o lugar onde encontrar respostas alternativas, muitas delas mais realistas e interessantes que aquelas mediadas pela autoridade dos pais, da religião ou da escola. Hoje, daqui de onde observo, com alguma lentidão que minha profissão me permite, a internet parece ter ocupado um espaço muito relevante como repositório de interação alternativa para o jovem que busca alternativas aos padrões conhecidos ou tem dificuldade de travar diálogos offline sobre temas que lhe aflige.

Mais uma vez, não vejo que exista uma novidade essencial aqui. O questionamento, a crítica impulsiva, o ímpeto e a energia juvenil, conflitantes com a apatia, conformidade e ponderamento do estabelecido, são traços culturais e sociais importantes, que também podem encontrar origem em aspectos fisiológicos e psicológicos. A sapiência desse fato leva muitos adultos a buscar controlar a juventude e os antagonismos que vivemos em casa, muitas vezes, se observam também em escalas sociais. Guardadas as devidas proporções, obviamente, o muro não é só familiar e individual, é social também.

A novidade está na internet, que amplia exponencialmente tudo que ela veicula e permite a interconexão de muita coisa que antes dela não tinha a devida nutrição para crescer e prosperar. Quem imaginaria que pela internet se organizaram movimentos revolucionários em países que tinham regimes de governo alçados ao poder em guerras anti-coloniais logo após o final da segunda guerra? Quem imaginaria que as fofocas e mexericos de antes tomariam a roupagem de fake news e/ou memes e ajudando a eleger um presidente dos EUA, do Brasil e tirar a Inglaterra da união Europeia.

Por meio da internet milhões de pessoas foram alçadas a celebridades, puderam dar sua opinião sobre qualquer coisa e, se não fosse aceita pela família ou amigos, encontraria do outro lado do mundo alguém com quem pudesse teclar, criando uma comunidade de não aceitos. Os limites de privacidade foram alargados e aquela velha panelinha ganhou escala global.

Da mesma forma que se discutir o relacionamento da vizinha, hoje se discute o relacionamento das celebridades instantâneas da internet. Tudo que ocorre, on line ou off line, pode virar um vídeo de opinião, um tema de podcast que milhares de pessoas vão assistir/ouvir alguém falar enquanto se diverte jogando emuladores de atari, porque sim, os anos 80 voltaram com força na cultura pop, mas isso é tema pra outro texto.

É nesse contexto que nossos filhos e filhas se encontram e, diante do muro que nos separa, é nessa “rua global” que vão buscar alternativas, seja por negação ou questionamento da autoridade estabelecida em sua vida, seja por falta de espaço e diálogo. Enquanto os adultos estão imersos em suas vidas cotidianas, os jovens estão construindo suas referências através de youtubers, gamers e Stand upers.

Pessoas de boa ou má fé, manipulados ou manipuladores, estão inundando a internet com suas opiniões, comentários e veredicto sobre tudo que se pode imaginar. A lista de assuntos vai desde como fazer bolo de caneca, tutorial de desenhos, passa por uma traição de um youtuber com a diretora de seu canal ou uma treta entre famosos, até sobre a violência contra a mulher, racismo, cultura do estupro e pedofilia.

Tudo isso é inevitável, as tecnologias somente vão regredir se houver pane energética no planeta e talvez nem assim. Muita gente está perplexa e uma atitude desesperada pode ser a negação de tudo isso. Mais uma vez, os adultos querendo controlar a juventude e a juventude com certeza vai atropelar esse processo. O que nos cabe então?

Bom, o papel que nos demos com esse texto não foi o dar dicas de relacionamento familiar, mas o de chamar a atenção para a necessidade de refletir sobre esse fenômeno e tentar provocar um movimento cervical muito difícil hoje em dia: Levantar a cabeça e olhar ao nosso redor.

Sobre Rafael Pereira 15 artigos
Doutor em Educação na UFPR. Mestre em Métodos e Avaliação (UFSC). Pedagogo (Unicamp). Editor da seção "Opinião" do Tribuna Universitária. Editor da Enunciado Publicações e autor do blogue Lendo o Mundo.

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