Sobre a política da desorientação bolsonarista | F.C. Oliveira

O Brasil deste início de século XXI é, nesse exato momento, testemunha e sintoma de uma crise existencial interpretativa, sobretudo no que se refere à compreensão da linguagem da produção e da disseminação do conhecimento histórico-científico enquanto objeto de herança da era liberal iluminista, contexto no qual surgiu o discurso filosófico que lançou as bases da Era Moderna e alicerçou na mentalidade ocidental um ideal puro de civilização a partir do século XVIII.

Essa desestabilização conceitual foi perpetrada em larga escala pela ascensão das novas tecnologias da informação. Tal fato se fez possível pela condição dialética do desenvolvimento tecnológico, que apresentou nas dimensões internas e externas das suas estruturas um duplo caráter político e econômico. Ao facilitar e acelerar o fluxo de informação, as novas condições de rapidez e facilidade para “conhecer a realidade” por meio de informações geradas instantaneamente e de maneira livre dos protocolos e metodologias tradicionalmente desenvolvidas pela imprensa, pela academia, pelas escolas e por outros espaços institucionais de ensino, pavimentou na consciência coletiva a falsa impressão de que todas as instituições anteriores à Internet estariam atravessando um processo de deterioração de sua legitimidade.

O resultado dessa condição apresenta-se contemporaneamente na observação de sociedades desorientadas pela imensa dificuldade de distinguir o que se apresenta como uma narrativa falsa daquilo que pode efetivamente passar por uma análise que não obedeça apenas critérios de senso comum. Do ponto de vista histórico, parece óbvio que não é a primeira vez que a sociedade enfrenta tal fenômeno de distorção da realidade. E talvez, esse seja um ciclo que, atribuídas suas devidas características e espaços temporais, se fez presente em outras épocas com características um tanto quanto semelhantes.

Os termos do que se concebia como monopólio do conhecimento, exercido pela Igreja católica na Europa até o final do século XVI, teve que enfrentar o surgimento da imprensa e a Reforma Protestante, o que dispersou o centro de geração de conhecimento institucionalizado pela Igreja e atirou sua própria doutrina em um limbo estranho, ainda que não a tenha demolido completamente, especialmente pelo processo de colonização da América, que lhe deu fôlego em outros territórios.

Ainda que agora, em nossa modernidade mais imediata, o potencial de destruição das instituições por essa nova dispersão dos centros irradiadores de conhecimento válido nos pareça algo que fará desabar sobre nossas cabeças a distopia, arrancando-a do universo da literatura, não parece sensato imaginar que isso seja real, tal qual recentemente alguns filósofos defenderam em análise à adesão do isolamento e do distanciamento referente ao COVID-19, principalmente porque a distopia enquanto narrativa literária que se apresenta como possibilidade de futuro ruim para a humanidade, já desabou como tempo presente de diferentes maneiras sobre várias cabeças, lugares e tempos da História, e talvez o conteúdo de seu conceito já nem seja mais o mesmo.

Não farei aqui nenhuma análise sobre as inúmeras hecatombes e surtos de doenças sobre os quais inúmeros povos foram afetados substancialmente ou mesmo pereceram, porque para ilustrar isso existem incontáveis obras acadêmicas que cobrem diferentes espaços temporais, regiões e etnias no campo das Ciências Humanas e Sociais em geral.

A História da humanidade enquanto unidade interpretativa é para a grande maioria dos acadêmicos da área de Ciências Humanas, familiar, e há neles a presença da consciência de que ela é constituída de momentos nos quais o “mundo”, que outrora representava extensões territoriais menores agora significa algo absolutamente diferente.

Assim sendo, é necessário, antes de qualquer coisa, compreender que a condição que se apresenta agora, para a nossa consciência viva está ligada, primeiro, a um novo analfabetismo funcional erguido pela produção e fluxo livre de informações nas redes sociais e em outras ferramentas da Internet, o que nos prostrou frente à própria evolução da tecnologia, e que em realidade, não tem nada de novo a não ser o fato de que ocorre em decorrência de uma nova perda do monopólio sobre geração e disseminação de informação e conhecimento válido.

A falta de capacidade para conceber que o século XXI não inaugurou uma era absolutamente nova, de que ainda estamos presos a uma linguagem que nem sequer é capaz de criar termos que ultrapassem nomenclaturas anteriores, e que só são capazes de fixar anteriormente às palavras já utilizadas uma posterioridade que a ela própria não existe (pós-moderno), é indício de que ainda estamos ligados à estruturas e superestruturas modernas de dominação do capital, o que nos impede de analisar de forma mais profunda as raízes da defesa de interpretação intencionalmente equivocadas de alguns agentes políticos que contaminam as ideias e as ações coletivas com suas reprises de teorias da conspiração que remontam a época da Guerra Fria, para nos manter sob o domínio da antiga ideologia do capital.    

O grande problema sobre as interpretações correntes que versam sobre essa grande crise interpretativa da História e da Ciência, bem como sobre o retorno do fascismo ao poder, é justamente achar que ele é um fenômeno “neo”, unicamente pelo fato de utilizar das ferramentas de que dispõe tecnologicamente para alcançar seus antigos objetivos políticos paradisíacos para si e distópicos para suas antíteses políticas e sociais, e que obviamente já foram alcançados, ainda que brevemente, e mesmo assim com a força e violência que foram muito bem documentadas ao longo do século XX.

Por isso, obviamente, a estratégia de distorção da realidade por meio de narrativas que se aproveitam das antigas deficiências sociais ligadas a concepções de ensino que nada aplicam a não ser o mesmo tipo de ensino positivista pressionado pelo conservadorismo institucional público ou privado funciona tão bem. Porque o pensamento pedagógico moderno, em suas práticas e metodologias de ensino não foi ele próprio capaz de acompanhar a velocidade das transformações em curso, e por isso também não consegue desfazer o nó causado pela dinâmica da negação, da contradição e da reafirmação de ideias opostas em tão curto período de tempo, que brota de dentro do fascismo contemporâneo. 

Ao mesmo tempo, os grupos políticos antagônicos que se autodenominam antifascistas, discutem continuamente a questão vazia sobre se eles realmente acreditam naquilo que defendem abertamente ou de maneira velada, ou se é só mais uma cortina de fumaça para empurrar goela abaixo qualquer medida agressiva no campo da economia ou da segurança pública, quando, na verdade, deveríamos primeiro compreender a natureza da consciência apresentada pelo fascismo manifesto, pois dada a adesão expressa nas urnas, e ainda que o projeto econômico não tenha dado certo e que haja setores da sociedade arrependidos (tal arrependimento obviamente se dá sempre quando o interesse individualista é atingido de forma objetiva), os representantes dessa consciência, sentindo-se livres para expressar a glorificação da violência das mais variadas formas, continuam sua marcha rumo ao seu antigo objetivo.

A espetacularização da boçalidade é a expressão de uma consciência anterior aos atores históricos contemporâneos, a agressividade e negligência com a qual o governo federal se comporta diante dos cidadãos do país no contexto da pandemia, é sinal de que veem na crise sanitária atual a oportunidade de substituir um projeto de civilização por outra sociedade imune ao vírus de qualquer grupo político que tenha o objetivo domar novamente a cultura reacionária. E se há ainda apoio ou apenas silêncio em alguns momentos é a evidência mais clara de que essa consciência está incrustrada no seio moral de diversas instituições políticas e em várias instâncias de poder.

Não fosse verdade, seria impossível encontrar a participação de determinados grupos com alto nível de formação e poder econômico dentro dos quadros do governo Bolsonaro, e que têm, de forma oportunista e casual, endossado a política da desorientação conspiratória, bem como a reafirmação contínua do mesmo Bode expiatório que se usa no Brasil desde as primeiras décadas da república, fazendo com que a pandemia se transforme aos olhos de toda a sociedade brasileira, em uma política de extermínio ocasional dos setores da sociedade brasileira menos protegidos pelo Estado e que vivem diariamente a distopia da sociedade liberal.

Ou seja, a classe trabalhadora, que enxerga-se agora entre a possibilidade da morte por inanição ou pela negligência planejada pelo Estado para lhes assassinar em nome de um desenvolvimento econômico fictício e da ascensão de uma sociedade que, passada a pandemia, continuará compartilhando de muitos conteúdos do pensamento fascista, ainda que encontrem o paraíso econômico e social que lhes foi prometido sob a égide bolsonarista em outro candidato do mercado.

Francisco das Chagas de Oliveira Possui Licenciatura Plena em História pela União Pioneira de Integração Social (UPIS). Bacharelado em Ciências Sociais com habilitação em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB).

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