SOCIEDADE DOENTE: Sintomas da nossa tragédia social|Daniel Mittelbach*

Até pouco tempo atrás, sempre que ouvíamos uma notícia sobre chacinas em escolas, estudantes ou ex-alunos que entravam armados em estabelecimentos de ensino atirando a esmo, matando e ferindo vários, e no final tiravam a própria vida, essas notícias vinham de terras distantes muito ao norte do continente.

As tragédias em escolas estadunidenses anunciadas por aqui, para mim, sempre foram mais um, dentre tantos outros, sintoma de uma sociedade doente. A crença absoluta na liberdade individual como alicerce de uma sociedade gerou anomalias protegidas pelo discurso ultraliberal. E não estou falando aqui apenas do acesso de adolescentes a armas de fogo, carros e outras tecnologias. Mas da cultura de supremacia da opinião, onde qualquer um pode dizer o que pensa da maneira que bem entender. Bom, óbvio que não é todo mundo que pode dizer o que pensa, pois, na falta se freios sociais, a hierarquia se estabelece pela força.

Há uma grande parcela da classe média brasileira que sempre almejou importar para terras tupiniquins o “american way of life”. Nossa síndrome de vira-lata, tão bem descrita por Nelson Rodrigues, que alimentava uma crença de que o modelo societal estadunidense era o suprassumo da evolução humana. O problema é que, enquanto olhavam para o self-made man americano, ignoravam a miséria, o racismo e a xenofobia típica daqueles que acreditam ser a civilização mais desenvolvida do globo. E fomos assim nos aproximando cada vez mais de um pensamento que, supostamente, estimula o indivíduo a ser “livre”. Livre para dizer o que pensa, sem papas na língua, livre para ofender, para destilar seu ódio, para marcar posição e expor seus preconceitos. Livre para ensinar crianças a fazer “arminha com as mãos”. Livre para acreditar que sua crença ou religião pode se sobrepor à todas as outras. E passamos a acreditar que o Estado é o que impede o verdadeiro desenvolvimento do indivíduo ao lhe estabelecer barreiras ou limites dentro do convívio social.

Fomos copiando tudo o que há de pior lá no hemisfério norte. As fakenews, mentiras, manipulações, lobby organizado por grandes corporações, teorias da conspiração e, claro, a descrença no Estado. Fizemos isso em ações politiqueiras de uma parcela partidária do judiciário que se inspirou nos Estados Unidos da América para, resgando o ordenamento jurídico brasileiro, vazas escutas ilegais, performar conduções coercitivas à margem da lei, perseguir adversários políticos e, até mesmo, condenar e prender um estadista sem sequer conseguir lhe imputar um crime que seja. Nenhum, nada. Apenas retórica e muito malabarismo argumentativos, sobre frágeis pilares.

Depois, criamos um mito. Um ignóbil qualquer cuja coragem (ou falta de noção) era aplaudida por todos aqueles que sempre foram machistas, racistas, homofóbicos, xenófobos, violentos, intolerantes etc e ansiavam, do fundo da escuridão de suas almas, se libertar do julgo do “politicamente correto”. Conseguiram. O problema é que todos nós, inclusive eles mesmos, agora pagamos o preço.

Choca a notícia da “tragédia” desta manhã em uma escola no interior de São Paulo. Infelizmente, todavia, notícias como essa, antes restritas ao noticiário internacional, parecem se tornar cada vez mais frequentes. E repare, não são marginais. São adolescentes doentes. Jovens brancos, classe média, provavelmente ex-alunos da escola atacada, que chegaram lá de carro (dirigindo, apesar de serem menores de idade), armados, entraram no estabelecimento, dispararam contra alunos e funcionários, mataram 7 e depois tiraram a própria vida.

Para quem assistiu a segunda temporada da série “13 porquês” (13 reasons why), da Netflix, é impossível não lembrar da cena onde o adolescente branco classe média, uma das vítimas de bullyng sistemático dentro do que é a tóxica cultura escolar estadunidense, chega armado no baile do colégio com a intenção de disparar contra os colegas e tirar sua vida ao final.

Por tanto, para além das vidas ceifadas nesta manhã em Suzano, precisamos desesperadamente colocar a mão na consciência e perceber qual o tipo de sociedade estamos construindo. Os sintomas estão aí, cada vez mais claros. Eles não vêm de hoje, como nos lembra a memória do índio Galdino queimado em Brasília. Nossa sociedade está doente, mas a cura depende de um correto diagnóstico. Seguir copiando um modelo fracassado de sociedade que leva as pessoas a morte não me parece ser o melhor tratamento.

Por fim, não tenho como não deixar o meu desabafo aqui em relação a você que, vendo o que está acontecendo, segue defendendo armamento da população e continua batendo palmas para um mito erguido por milicianos e outras facções criminosas. Se você, ainda hoje, continua aplaudindo alguém que acha graça em ensinar criança a fazer “arminha com as mãos”, saiba que uma boa quantidade do sangue vertido pelos adolescentes na Escola Raul Brasil está em suas mãos.


* Graduando em Gestão Pública na Universidade Federal do Paraná, militante sindical, Técnico-Administrativo em Educação na na mesma universidade.

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