Sucessão polêmica para reitoria da UFRGS pode culminar em nomeação de último colocado em todos os cenários de votação

Fachada do prédio da Reitoria da UFRGS (Divulgação)

Consulta para a sucessão na Reitoria da UFRGS poderia ter diferentes resultados conforme os métodos de cálculo dos votos de estudantes, TAE e professores. Além da divergência sobre o cálculo, a vontade da comunidade acadêmica pode ser atropelada por um deputado da base do governo Bolsonaro.

Três chapas concorreram à Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A votação da consulta à comunidade ocorreu no último dia 13 de julho e a eleição da lista tríplice, realizada no conselho universitário, no dia 17 de julho. Uma chapa da situação e duas da oposição disputaram o pleito. A principal diferença entre chapas de oposição foi a sua identificação na comunidade acadêmica: uma delas mais próxima aos movimentos sociais e outra próxima ao Presidente Jair Bolsonaro.

A chapa 1, considerada próxima ao presidente Jair Bolsonaro, foi composta por Carlos André Bulhões Mendes (reitor), e Patrícia Helena Lucas Pranke (vice-reitora); A chapa da situação (chapa 2), composta pelo atual reitor Rui Oppermann e sua vice Jane Tutikian, concorram à reeleição com apoio majoritário dos Docentes; A chapa 3, considerada mais próxima dos movimentos sociais, contou com apoio de grande parte do movimento estudantil e da maioria dos Técnico-Administrativos em Educação, foi composta por Karla Maria Müller (reitora), e Claudia Wasserman (vice).

A votação precedida de uma sessão polêmica do Conselho Universitário que decidiu manter na consulta à comunidade o cálculo de proporção previsto na legislação, que concede 70% de preponderância a docentes, 15% para estudantes e 15% para técnico-administrativos. A fórmula alternativa distribui igualitariamente o peso dos votos em três partes, ou seja, a consulta seria paritária.

A primeira grande polêmica da consulta de 2020 envolveu defesas acaloradas de cada maneira de contar votos. Apoiadores da Chapa 3 fizeram duras críticas à decisão do Conselho Universitário de manter o cálculo 70/15/15, o que abriu cisões entre os grupos de apoio das chapas. De fato, se fossem contabilizados os votos com a fórmula paritária ou universal, a Chapa 3 teria ficado em primeiro lugar na consulta à comunidade.

Os números da consulta à comunidade

O resultado oficial da votação foi divulgado na noite de 13 de julho. Pela ordem do documento, a Chapa 2, da situação, ficou em primeiro lugar com um índice de 0,387688. A Chapa 3 ficou em segundo, com índice de 0,251304, seguida da Chapa 1, terceira colocada, com índice de 0,120896.

A ASSUFRGS, sindicato que representa a categoria técnico-administrativa em educação, divulgou o que chamou de resultado democrático, isto é, utilizando a fórmula paritária. Neste cenário, o resultado é favorável à Chapa 3, que fica em primeiro, com índice de 0,4874. Em segundo, a chapa situacionista, com 0,3566. A Chapa 1 se manteve na terceira posição, com 0,1283 dos votos.

Se a votação fosse universal, isto é, se os votos fossem contados individualmente, como acontece nas eleições gerais, o resultado também seria diverso. O resultado de uma apuração universal , sem distinção entre as categorias da comunidade acadêmica, também seria favorável à Chapa 3, com 8947 votos, seguida pela Chapa 2, com 4683 votos, e pela Chapa 1, com 1860 votos.

A Comissão Eleitoral registrou ainda 98 votos brancos e 137 votos nulos. Confira os resultados da votação no quadro a seguir.

CandidaturasDocentesTécnico-AdministrativosEstudantesTotal
Chapa 1 – Bulhões e Patrícia – oposição – considerada próxima ao presidente Bolsonaro43620812161860 (3º)
Chapa 2 – Oppermann e Jane – Situação com apoio majoritário de docentes145451627134683 (2º)
Chapa 3 – Karla e Cláudia – oposição  – Apoio majoritário das entidades representativas dos estudantes e Técnicos679105672128947 (1º)
Branco7157698
Nulo293375137
Com dados da UFRGS (2020)

Cinco dias após a divulgação do resultado da consulta, o Conselho Universitário se reuniu para compor a lista tríplice a partir de eleição indireta, conforme previsão legal. Na votação do Conselho, foram dados 45 votos para Rui Oppermann, 28 votos para Karla Muller e 3 votos para Carlos Bulhões. Todas as candidaturas foram inseridas na lista tríplice, pela ordem da mais votada. A lista e a documentação relativa serão enviadas ao Ministério da Educação.

Mais polêmicas

Em meados do mês de agosto, as entidades representativas da comunidade acadêmica da UFRGS fizeram manifestações públicas, defendendo em nota a autonomia universitária. As notas também repercutiram declarações do Vice-presidente Hamilton Mourão e do Deputado Bibo Nunes (PSL-RS). Segundo os políticos, o último colocado em todos os cenários possíveis da consulta na universidade poderia ser indicado à Reitoria.

A nota do Diretório Central dos Estudantes (DCE) alega que o DCE defendeu em todos os espaços a paridade entre técnicos, estudantes e docentes na contagem de votos e ressalta a posição da entidade intervenção nas universidades: “Não admitiremos qualquer movimentação da extrema-direita que conduza um interventor à reitoria da universidade.”

Na divulgação do resultado paritário, a ASSUFRGS reafirma sua luta histórica em defesa da paridade nas universidades e da sua aplicação por meio do exercício da autonomia universitária. Para o sindicato dos TAE, a comunidade não quer a extrema direita dirigindo a instituição:

“Lutaremos contra a intervenção externa, assim como lutamos e lutaremos contra os cortes de verbas que ameaçam o futuro das IFES, contra o ‘Future-se’, contra a Reforma Administrativa que ameaça servidores e os serviços públicos, contra a banalização das mortes de mais de 115 mil brasileiros pela pandemia.”

A ADUFRGS, sindicato de docentes da instituição, defende a nomeação do primeiro colocado na lista tríplice e destaca que a universidade é um órgão de Estado e não de governo. O sindicato utiliza apenas o resultado da votação dos candidatos entre os docentes, tanto na consulta como na votação do conselho universitário, para defender a nomeação de Rui Oppermann e afirma que não aceitará que “ingerências políticas externas possam abalar a tranquilidade interna (da universidade). A UFRGS quer paz interna!”

Próximos capítulos

A lista tríplice seguiu em um processo administrativo para o Ministério da Educação e permanece em análise do órgão. Após parecer do MEC, que pode indicar qualquer nome da lista, o processo vai para a Casa Civil, que prepara a nomeação, a ser assinada pelo Presidente da República. O mandato da atual gestão termina em 20 de setembro deste ano.

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