UNIFEI: Candidato derrotado na consulta para Reitor teria pedido “aquele dossiê” contra chapa vencedora para entregar a Bolsonaro

Fachada de prédio do campus universitário em Itajubá (Divulgação)

Imagens que circulam na internet sugerem que o segundo colocado na consulta para Reitor na Universidade Federal de Itajubá (MG), Professor Edson da Costa Bortoni, teria solicitado um dossiê para enviar ao Presidente da República com o objetivo de interferir, “por outros caminhos”, na indicação do novo Reitor da universidade.

O Jornal Tribuna Universitária recebeu uma denúncia anônima de que estaria em curso uma articulação para que o Presidente Jair Bolsonaro não indique o candidato mais votado na consulta à comunidade acadêmica para Reitor da Universidade Federal de Itajubá. A suposta articulação teria o apoio da bancada da Família e Evangélica na câmara de deputados, com centenas de deputados federais, além de líder de organização religiosa ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

A consulta à comunidade, para reitoria da Unifei, ocorreu no último dia 09 de setembro. Participaram da votação professores, técnico-administrativos em educação e estudantes que deram a vitória, com 53,24% dos votos, à chapa 3, composta pelos Professores Marcel Fernando da Costa Parentoni (Reitor) e Rodrigo Silva Lima (Vice).

Outras duas chapas disputaram o pleito: A Chapa 01, composta por Edson da Costa Bortoni (Reitor) e Antonio Carlos Ancelotti Junior (Vice), obteve 22,68% dos votos; A Chapa 02, integrada por José Arnaldo Barra Montevechi (Reitor) e Maurílio Pereira Coutinho (Vice), recebeu 21,16% dos votos.

Resultado da consulta à comunidade (Fonte: Comissão Eleitoral da Consulta/Unifei)

O próximo passo do processo de escolha é a reunião do Conselho Universitário para organização da lista tríplice, o que deve ocorrer no próximo dia 14 de setembro. Na Unifei, assim como em todas as universidades federais, a escolha de dirigentes ocorre de forma híbrida, articulando consulta à comunidade e votação no colegiado máximo ou colégio eleitoral.

Entenda os processos de escolha de Reitores Federais

De diferentes formas, as instituições realizam consultas ao conjunto de professores, estudantes e técnico-administrativos em educação. O resultado da consulta, tradicionalmente é respeitado pelo colegiado máximo que realiza a eleição propriamente dita, com a formação de uma lista tríplice que é enviada ao Presidente da República para nomeação do Reitor.

Desde a aprovação da lei que rege a escolha de dirigentes universitários em 1995, até a eleição do Presidente Bolsonaro, foram raros as vezes em que o Presidente da República não respeitou a indicação da comunidade. De Lula a Temer, todos os primeiros colocados nas listas tríplices foram indicados Reitores ou Reitoras. Bolsonaro já indicou pelo menos 8 dirigentes universitários que não configuraram como mais votados em suas comunidades. Esse ano, há previsão de troca de 24 Reitores.

Posicionamento do candidato

Nossa reportagem teve acesso a uma nota pública [de esclarecimento] do Prof. Edson da Costa Bortoni em que o candidato confirma que abriu seu wathsapp durante uma aula e acidentalmente compartilhou a tela do wathsapp na área pública de um aplicativo de videoconferência.

O Professor não negou que haja um dossiê, porém negou que seja seu autor e também que tenha mandado fazê-lo. Alegou que recebeu o documento de outra pessoa e que não tinha conhecimento do seu conteúdo até abri-lo. A nota pode ser conferida abaixo:

Meus caros membros da Comunidade UNIFEI
Deve ser do conhecimento da maioria que o meu dia foi bastante conturbado, pois durante o intervalo da minha aula através Google Meet nesta manhã (podem perguntar aos alunos presentes), abri um documento que recebi no WhatsApp, no qual constava um texto e fotos dos outros candidatos à Reitoria da UNIFEI. O uso desses recursos não faz parte de meus princípios.
A tela estava compartilhada, fizeram um “screen-shot” desautorizado e maldoso, e foi o que bastou para que um post se alastrasse feito rastilho de pólvora, “como se eu fosse autor do documento” e “alegando que eu estaria preparando um dossiê”. Não tive chance de me defender…
Mais uma vez, declaro que não fui eu quem fez este documento, posto que o recebi no WhatsApp, e não poderia conhecer o seu conteúdo até que o abrisse.
Mas é vida que segue…
Gostaria de me dirigir às pessoas que votaram em mim, pela confiança depositada, acima de tudo, na minha trajetória acadêmica e nos meus ideais.
Aproveito para agradecer os candidatos Marcel Parentoni e Rodrigo Lima bem como ao José Arnaldo e Maurílio, pela forma digna na condução de toda a campanha que vivenciamos.
Por fim, agradeço de coração o meu companheiro de chapa Antônio Ancelotti, um irmão que me acompanhou nessa árdua caminhada.
Atenciosamente,
Bortoni

Declaração de Edson da Costa Bortoni

Versões contraditórias

Fontes ouvidas pelo jornal Tribuna Universitária relataram que, apesar da nota divulgada dizer que o candidato não tinha conhecimento daquele documento, ao qual foi atribuído o caráter de Dossiê, ele teria solicitado um documento que ele mesmo chamou de “aquele dossiê”, o qual intenciona enviar para o Presidente Jair Bolsonaro por “outros caminhos”.

A imagem a seguir, enviada à nossa redação por fonte anônima, confirma a versão relatada pela nossa fonte, assim como a denúncia de articulação para nomeação de Bortoni a Reitor.

Na imagem é possível ler uma mensagem que seria do professor Edson da Costa Bortoni solicitando um dossiê a um contato seu. O mesmo contato afirma que o candidato teria apoio das bancadas evangélica e da família no congresso e de uma organização religiosa ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), cujo contato solicitaria ao presidente que assine uma carta de recomendação. “o segundo round começou e a luta está só começando” afirma o interlocutor.

Print do Wathsapp atribuído ao Prof. Edson da Costa Bortoni (os grifos e tarjas são da nossa redação)

A posição dos estudantes

Nossa reportagem ouviu o Diretório Central dos Estudantes, que declarou esperar que seja respeitada a vontade da comunidade universitária, tanto na elaboração da lista tríplice como na nomeação do Reitor. Confira a nota da entidade abaixo:

O DCE UNIFEI é uma entidade apartidária e, por isso, não apoia nenhum candidato. No entanto, após a consulta pública, esperamos e lutamos para que os anseios da comunidade sejam atendidos e respeitados, tanto na elaboração da Lista Tríplice pelo conselho Universitário, como na nomeação realizada.
Dito isso, o que se espera é que, toda a comunidade, principalmente os candidatos, de maneira respeitosa entendam a situação e lutem pelo cumprimento dos desejos da comunidade, sem utilizar-se de meios para convencer as outras instâncias a não cumprir a consulta, o que representa para nós, um descaso com a opinião da comunidade.

Diretório Central dos Estudantes: declaração enviada à reportagem

Entramos em contato com todos os candidatos a Reitor da Unifei, porém até o fechamento desta matéria, apenas o Professor José Arnaldo Barra Montevechi (3º colocado) respondeu, porém não fez nenhuma declaração sobre os fatos noticiados nesta matéria.

Nota do editor: matéria alterada em 12/09/2020 às 11h28 para atualizar de 6 para 8 o número mínimo de instituições cujos reitores foram indicados por Bolsonaro sem constar como os mais votados pelas suas comunidades.

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